segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Sonho meu

 
 
 






João Alfaro

“Sonho meu”, 2014

Pintura sobre tela de 80x120 cm

 

 

 

 

Não há nada a fazer. Serei sempre assim. Já não tenho idade para mudar, porque preciso do sonho para acreditar, mesmo não acreditando. De tanto sonhar, paradoxalmente, o tempo passou sem sonhos, nem ilusões, num contraditório modo de ser e estar, porque os pés sempre estiveram assentes no chão, e os sonhos foram e são apenas momentos, nas viagens que o arrastar do pensamento conduz. De tanto crer e descrer se faz um caminho que acaba por traduzir o procurado, com muita ilusão e fantasia, que é a base sólida para continuar a querer fazer mais e mais, neste labiríntico processo de andar entre os pingos da chuva, num conflito em que a razão é a parte menor de tanta dúvida.

 

 

 

E com medos percorro as etapas, num saboroso saber ficar com as armas que tenho, que me deixam feliz por julgar saber como usufruir muito com o pouco que é tanto. E pinto tanto que quero mais ainda, como se a solução e as dúvidas todas estivessem na junção das cores numa tela, porque é assim que os meus sonhos acontecem e se realizam em prazerosos momentos.

 

 

E vos deixo com as palavras de Cesare Pavese, in “Mestiere di Vivere”:

 

“O louco tem inimigos. O sonhador tem-se apenas a si próprio.”

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Boas Festas



 
 
 
João Alfaro
"Bilhete", 2014
Pintura sobre tela de 80x70 cm
 
 
 
 
Natal é tempo de dizer o mesmo sem que as palavras se cansem e as esperanças se esgotem. Uns partiram e outros chegaram na roda da vida, que reúne e torna a dimensão humana na quantificação da grandeza e da pequenez, pelas atitudes ou pela falta delas, em momentos decisórios que cada um tem de tomar nos caminhos que a vida comporta. Quanto é bom olhar e ver que há, entre montanhas e vales, enormes planícies onde se percebe que vale a pena acreditar, entre os desencontros e as procuras, porque é na luta constante que está o segredo para que todos os dias sejam dias de Natal.
 
 
E vos deixo com as palavras de Manuel Bocage:
 
“Vós suspirais pela posse
Das externas perfeições;
Vós cobiçais os deleites,
Eu cobiço os corações.”


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

2014




 
 
 
 
 
 
 


 
 
 

 
 
 
O ano de 2014 aproxima-se do fim e é chegada a altura de olhar, com olhos de ver, o que foi feito, porque foi feito e como foi feito o caminho e as opções. Na pintura, na minha pintura, há um desassossego permanente, em busca do elixir da beleza e do encanto, que me foge, contudo e inevitavelmente, ano após ano. Mas eu sei que irei sempre perseguindo o sonho, por muito agreste e longínquo que ele seja, porque não consigo viver sem sonhar, dado que, das maravilhas que a vida comporta, nada melhor que criar um imaginário, onde reina a nossa determinação e, é ela que nos alenta para continuar na senda, que é, neste caso específico, a procura permanente pela afirmação da identidade e do reafirmar que vale a pena lutar pelos ideais e pelas paixões, mesmo que em rotas sem fim e sem vislumbres paradisíacos.
 
 
 
 
Estes foram alguns dos trabalhos pictóricos que fiz em 2014, tendo por base como tema a beleza humana e, sobretudo, o meu olhar sobre a magia encantatória da mulher. Foi um ano cheio de encontros, de novas oportunidades, de esperanças, de desejos, e, sobretudo, de elos comunicativos entre pontes diferentes, que julgava estarem longe de mim, mas que, porque o mundo artístico é fértil em episódios marcantes, muito ainda tenho para viver de momentos certamente recordáveis. Importante mesmo é que o tempo passa e sempre vou conseguindo arranjar meios e processos que me ajudam a querer fazer mais, continuadamente mais. Felizmente.
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Simone de Beauvoir:
 
"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente."


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Censura

 
 
 
 
 
 
 
 

João Alfaro

“Tânia”, 2014

Pintura sobre tela de 60x50 cm

 

 




Enquanto as burkas não chegam a arte se exprime sem limites, aqui, mas um dia tudo pode mudar e, este modo de olhar e ver o mundo será diferente, neste meu imaginário pensar sobre a mudança dos tempos, porque se vencer o fundamentalismo, que tantos querem negar mesmo perante todas as evidências, a vida será outra coisa qualquer, sem a música que tanto gosto, nem a pintura que é uma paixão que trago comigo.
 
 
 

O medo está instalado quando se olha para os números e para a evolução da mentalidade reinante. De tanto lutar por ideais no pressuposto da justeza da condição humana, agora se assiste a fenómenos de um retrocesso civilizacional, segundo um juízo de valor que transporta consigo um secular viver.

 

 Da abolição de múltiplas censuras, se chegou ao patamar da naturalidade do ver, saborear e conviver com o corpo, forma expressiva tão latente na arte ocidental, onde a nudez é um modo de relatar a verdade do estar e que agora tenho procurado ilustrar, porque sou um ocidental que gosta de viver aqui, sem censuras, distante dos mexericos mas, sobretudo, longe das burkas e de tudo o que elas significam.

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa, in “Livro do Desassossego”:

 
 
 

 "Por mais que dispamos o que vestimos, nunca chegamos à nudez, pois a nudez é um fenómeno da alma."



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Espelho do instante

  
 
 
 
 
 
 
 

João Alfaro

“Espelho do instante”, 2014

Pintura sobre tela de 120x80 cm

 

 

 

O espelho dá a imagem do instante. E só desse instante, ou seja: numa linguagem fria e insensível tudo se resume à imagem de um momento, por mais filosóficas e teóricas análises, desemboca na simplicidade e crueza da fatalidade, o olhar para o espelho e ver segundo o que queremos nesse instante. É só isso, todavia, marcante quando se olha e não se gosta do que se vê. Naquele instante ou, pior ainda, pela vida inteira. Tudo muda e até a nossa imagem do instante. O que fica é a aparência do momento, que o tempo leva nas lembranças. E, das muitas imagens que o espelho reflete, há sempre o desejo que ele traduza cânones de beleza contemporânea ou estados de alma aprazíveis, mas entre a verdade e a mentira há o lado real e verdadeiro do instante. Contra factos não há argumentos…

 

 

 

 

Na procura constante do apelativo modo de pintar, surge, agora, na minha temática, a representação feminina em que muito da intimidade e da beleza se vislumbra por olhares do instante, que só o espelho é capaz de dizer quem é como, naquele instante.

 

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Epicteto:

 

 
"As pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas."

 


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Noites Longas

 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

“!00 Anos de Jazz”

Nana Sousa Dias

Artspace João Carvalho

 
 

Do melhor que a memória recorda, ficam sempre episódios que definem a personalidade e a determinação de cada um, quando um homem se põe a pensar. O tempo desfaz a verdade dos factos deixando apenas a penumbra deles e da verdade sentida no instante. Mas há sempre tanto na nostalgia que muito fica perdido nas calendas do sentir e do gostar. Por mim, com a mutação dos desejos, o leque do melhor se circunscreve a poucos círculos de interesse. Do que gosto, agora, é, sobretudo, da simplicidade do conviver, por oposição, naturalmente, à solidão e ao mau pensar.

 

 A música tem o condão de fazer a ponte entre dois mundos, onde de um lado está a mensagem, quantas vezes angustiante mas inevitavelmente bela, e, do outro, a criação de ritmos que mexem com necessidades corporais do sentir a musicalidade. E, porque tenho, ultimamente, pelas novas amizades, um relacionamento próximo com artistas do campo musical, muito é o meu viver com o maravilhoso mundo da arte dos sons

 

 

Recordo hoje as palavras de Robert Browning que disse:

 

  "Quem ouve música, sente a sua solidão / de repente povoada."

 
 
 
 

E vos deixo com música de jazz, aqui, depois de uma noite longa.
 
 
 
 
 



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Tertúlia Pictórica

 
 
 
 








Quando as palavras se cansam de dizer o mesmo, as conversas deixam de fazer sentido e o fim do dialogar é a solução final, embora o terminar seja um lancinante modo de dizer adeus. Mas, entre o vazio do conversar e o querer comunicar, há uma distância oceânica, que o tempo faz justiça.

 

Hoje, por convite de um amigo de longa data, vou estar num breve encontro de pessoas que fazem do prazer pictórico uma entrega pelo devaneio e pela fantasia da criação. Entre os sonhos do gostar de fazer bem e o resultado, a distância é medida, quase sempre, pela dimensão estelar da incapacidade de atingir o pretendido, mas o pior é nada fazer para contrariar as montanhas herculanas e, por isso, tanto esforço é o melhor caminho para tentar vencer, mesmo quando não só as palavras se cansam, mas também o tempo se esgota e a crença esmorece. O melhor mesmo é nunca desistir, mesmo que tudo aparentemente seja negro, porque há, sempre, dias radiosos.

 

Pintar é, sobretudo, um estar: tudo se silencia; tudo fica imóvel; tudo deixa de ser real para se passar para outra dimensão, que é a razão principal para tanta entrega de tantos. E é o que vou dizer nesta tertúlia, onde o descrever do tempo a pintar, se traduz num passeio pelas memórias que são recordações do estar.

 

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Simônides de Ceos, citado em Plutarco, in “Obras Morais, a glória dos atenienses”:

 

"A pintura é poesia silenciosa, a poesia é pintura que fala."





segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Enquanto o Natal não chega

 
 
 
 
 
 
 
Enquanto o Natal não chega os dias correm, mas agora já com o pensamento, de vez em quando, no significado da quadra natalícia e em tudo o que ela envolve. É a festa, sobretudo, com aqueles que nos são próximos e de quem gostamos e que queremos continuar no tempo e na memória, a comungar ideias e projetos, que me inspira e me dá alento. É um espírito diferente, onde o que conta é o olhar pelo lado bom, que une e faz esquecer o pior que há nos sete pecados mortais. Mas isso é outra história, com caminhos tristes que fazem parte da marcha dos dias e das vidas. E é bom saber viver momentos especiais. Como aqueles que só o Natal traz consigo.
 
 
 
 
Os meus dias são feitos quase sempre de solidão e de música escolhida a gosto, porque a pintura exige concentração e isolamento, com a luz e a ambiência própria, de quem faz da arte das cores uma opção gratificante do estar e do ser. É, no cruzamento entre os dois mundos compostos de fraternidade e de comunhão, com gente dentro e solidão que, pela exigência do trabalho, passo o tempo querendo construir um imaginário que seja apelativo. Eu tento, confesso. Mas o destino tem destas coisas: não se pode ter tudo. Mas procuro. Sempre. Dias felizes. Também.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Álvaro de Campos:
 
“Gostava de gostar de gostar.”


sábado, 1 de novembro de 2014

Hábito meu







Quando chegava ao ateliê a primeira coisa que fazia era ligar o rádio. Hoje é o computador...para ouvir música, sobretudo. O ruído tão constante na tradicional audição radiofónica deixou de existir com a internet, permitindo, simultaneamente, outras opções na escolha dos temas e na abordagem à música, mais consentânea com o gosto pessoal do momento. Novos tempos estes. Eu, um dependente da musicalidade clássica, deixei, quase definitivamente, de ouvir vozes que me eram tão familiares na estação preferida. Agora a música está por minha conta, sem conversas intermédias, nem panfletários ou politólogos descontentes, de esgotar a paciência. O progresso também tem destas coisas. Boas, claro.
 
 
E aqui, na blogosfera, neste usual meio de devorar as notícias e os acontecimentos nuns breves instantes, ninguém tem tempo, nem que sejam apenas 3 ou 4 minutos para ouvir uma música, por mais bela que ela seja. Mas porque me cansei das conversas do costume e das lamentações de sempre dos textos e dos apontamentos dos internautas dependentes, quantas vezes me deixo levar pelo som de uma voz ou de um instrumento de excelência, enquanto me perco nos caminhos da pintura.



 
 
E vos deixo com a música de  Chopin, porque é um retrato de um hábito meu.




 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Tudo igual

 
 
 
 
 

Entre as dúvidas do costume e as certezas de sempre,
os dias correm.
Umas vezes diferentes, outros nem tanto.
Mas o que quero é o mesmo,
ou não fosse tudo tão simples e inóspito,
neste descobrir de raridades e de coisa nenhuma,
onde apenas resta a amizade antiga e o sonhar que persiste,
com a crueza da fatalidade,
do saber estar em todo o lado e em lado nenhum.
 
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Leonardo da Vinci, in "Tratado da Pintura":
 
 
"A pintura é uma poesia que se vê e não se sente, e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê."
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


sábado, 18 de outubro de 2014

Marta

 
 
 

 
 
 
João Alfaro
“Marta”,2014
Pintura sobre tela de 120x80cm
 
 
Na procura pela narrativa pictórica, que seja apelativa e que consiga despertar encanto e interrogação, os meus dias se esgotam. Adoro tentar captar a singularidade de cada um dos que se cruzam no meu trabalho, como se fosse um investigador do sagrado, em busca do elixir da beleza e da perenidade. Eu bem tento, mas os deuses não me fazem companhia. O que eu sei, felizmente, é que tenho um sonho, um caminho, um desígnio. Poderá ser só meu e partilhado por poucos outros, mas encontrei um modo de significância, que é pouco e é tanto. E me vou bastando. Umas vezes sorrindo mais, outras meditando dos meandros e seus vícios, na encruzilhada das rotas, em que do nada nasce ou morre um destino.
 
Em 1995, enquanto descobria a magia da capital britânica, encontrei numa feira - das muitas que Londres oferece ao turista - uma gravura de uma pintura que me persegue desde então e que desconheço a autoria. Era o retrato de uma mulher nua, de pele muito clara, rosa pálido, numa cama com lençois brancos, sombreados em cinzas múltiplos. A harmonia cromática numa paleta parca de cores mas, em simultâneo, rica de matizes e de tons era de uma beleza deslumbrante, num jogo de sombras tépidas e de uma luz única. Desde então várias foram as tentativas para captar a essência visual que tanto me fascinou, nesse verão. “Marta” é, mais uma vez, o resultado desse deambular pelo passado.
 
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Vinicius de Morais:
 
 
"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."
 


domingo, 12 de outubro de 2014

Planear

 
 
Tomar, 2014

 
 
 
 
Tomar, 2002
Pintura sobre tela, 50x70 cm
 
 
 
 
 
 

 
 
É preciso planear com tempo uma exposição. A razão principal é, neste mercado sem mercado e sem público, mostrar aos interessados (que ainda há) o que se faz num determinado momento, como razão plausível e motivadora, para que a persistência em continuar a trabalhar seja constante, mesmo perante a indiferença do público e de outros agentes, característica dominante, sobretudo, nas artes plásticas.
 
Eu bem sei que na imensidão de tanta produção dita cultural não há paciência, nem capacidade para absorver tudo. Os projetos são muitos e tão diversificados, que a dúvida sobre a seriedade é uma questão permanente e legítima. Entre os pingos da chuva vou caminhando, sempre na mesma senda. Umas vezes mais crente, outras nem tanto. O importante mesmo é acreditar que vale a pena.
 
Cada exposição é uma ocasião única: o espaço, a temática e a circunstância geram entre si um diálogo que é a razão maior para alguém se expor. Mostrar o que faz, como faz e porque faz é, por si, um modo de comunicar um ideal, num determinado momento. Em 2015 na cidade de Tomar irei mostrar o que agora ando a fazer para que me julguem, ou não fosse a vida um caminhar de muita crítica pelas ações e pelas omissões.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Leonardo da Vinci, que escreveu:
 
 "Não desprezes a pintura, pois estarás a desprezar a contemplação apurada e filosófica do universo."


sábado, 4 de outubro de 2014

Nada de novo

 
 
 
 
 
 
João Alfaro
“Banho III”, 2014
Pintura sobre tela de 120x80 cm
 
 
 
Nada de novo. Os dias são quase sempre iguais, embora umas vezes pareçam mais luzidios, e outros nem tanto. Tudo depende do olhar. Do pensamento, melhor dizendo. Ou do desejo. Ou da imaginação. Ou do querer. Ou de outra coisa qualquer. O tempo passa entretanto, entre as tarefas diárias, as obrigações do costume e as esperanças de sempre. Amanhã é outro dia e logo se verá. Pois.
 
 
 
 
Eu bem sei que a obrigação é inovar, construir algo de sublime e acalentador. Na fantasia, sobretudo. No usual das rotinas que constituem quase a globalidade do estar, tudo é bem diferente. A criatividade dá lugar aos lugares-comuns e à banalidade dos gestos, atitudes e desfechos previsíveis. Felizmente que ao inverno sucede sempre o verão mas, o bem não dura sempre e, o calor que traz consigo a luz, agora, está a perder a intensidade que aquece a alma, com o final do veraneio, significando que o inverno está a chegar e, com ele as noites longas e as angústias do costume. Mas basta de lamentações, porque o que gosto mesmo é de cada novo dia: ele é a luz, a esperança, o desejo de pintar, de partilhar amizades e contemplar o que me resta, o que me deixa feliz. Pois.
 
 
E vos deixo com palavras in “Textos Judaicos” segundo David Luzzato Samuel:
 
"O homem não é julgado pelas suas opiniões, mas pelos seus atos."

domingo, 28 de setembro de 2014

Compasso de espera




  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
João Alfaro

Estudos prévios, 2014

 Desenhos em tela de 120x80 cm, feitos de 22 a 27 de Setembro

 
 
 

Foi uma semana muito complicada. Não tive tempo para pintar. Tudo me ocupa e nada me resta. Para a pintura, claro. Mas há mais vida que espera por mim. Com gente dentro, de quem muito gosto. Procuro corresponder aos meus anseios pictóricos, contudo, não consigo conciliar a vontade com a temporalidade. E os anos passam. A vida também. E lá se vai o desígnio. Começo a aceitar a inevitabilidade da incapacidade de não produzir o sonhado. Ou não fosse o sonho uma aspiração de virtuais desejos. E por aqui me arrasto. Entre a resignação e a paixão.

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Jean Jacques Rousseau:

 

 "A consciência é a voz da alma, as paixões são a voz do corpo."

 


sábado, 20 de setembro de 2014

Mercados

 
 






 
 









Este é o meu mundo de eleição. Aqui, neste enquadramento, onde as variáveis da produção das artes plásticas se mostram, me sinto como um peixe na água. Contudo, nem sempre gosto. As propostas, genericamente, são muitas e, naturalmente, desencontradas, donde, muito não é do meu agrado. E acontece sempre. O que fica, sobretudo, é o ponto de encontro das gentes e dos seus propósitos. Num espaço global cada vez mais pequeno, onde tudo se sabe, a arte é o reflexo da contemporaneidade, desde que as propostas artísticas estejam consentâneas com a realidade do nosso tempo. Mas nem sempre assim é. Há quem fique agarrado ao passado, mas o que interessa é o presente, e este deve ser o propósito maior de um artista: edificar a obra plástica como imagem do seu tempo.

 

As novas tecnologias vieram revolucionar o mundo em todas as vertentes. Agora novos produtos e novos modos de produção transformaram o panorama artístico por completo. Há quem saiba tirar partido do que é oferecido pela modernidade e outros não, porque não aproveitam os processos de execução; porque não divulgam nas redes sociais; porque ficaram pelo passado que não volta; porque ficam pelas modas, de vida curta, como todas as modas, diga-se. Opções.
 
 
 
E grande era a curiosidade em ver a exposição de arte agora patente numa das principais artérias de Lisboa. Com uma organização diferente dos habituais mentores do gosto e da estética contemporânea nacional, desta feita, outras pessoas, outros interesses por detrás deste sempre negócio da venda e da compra de objetos, que uns chamam arte e outros nem tanto, gerou polémica entre os tradicionais galeristas. 
 
Esperava ver mais variedade, mais visitantes e mais modernidade nas propostas. Tudo muito regionalista. Afinal, quase só, um olhar sobre um país visto pelos seus artistas com a singularidade da alma russa. Alguns outros expositores, mas muito pouco para encantar. Todavia, nas muitas feiras de arte que visitei a diversidade é tanta, com propostas, algumas até ridículas, mas entendidas apenas como chamamento, o que em arte é sempre importante, mas aqui o propósito foi outro, ou não fosse o mercado uma montra de escolha múltipla.
 
 


domingo, 14 de setembro de 2014

Espuma e só espuma

 
 
 




João Alfaro
“Banho III”, 2014
Pintura sobre tela de 120x80 cm
 
 
 
O significado muda com a circunstância. De uma criança não se espera o comportamento de um adulto; de um responsável não se perdoa o desleixo por dá cá aquela palha; de uma referência social se aceita tudo ou coisa nenhuma. Depende. Do momento. Da plateia.
 
Quanta desgraça por um palmo de terra? . Quanta mentira por um nevoeiro desejo? . Quanta tormenta e mortandade por miragens utópicas? . O que fica são terras ao abandono, passado o tempo da conquista; casas vazias sem conserto; perdidos infindos sem rumo. Tudo é espuma e só espuma. Com a voragem do tempo o importante é apenas a simplicidade do estar. E mais nada, porque a espuma é o denominador comum na vida. De tanto sonho, de tanto querer, de tanto do tanto se descobre que afinal quase tudo é espuma, sendo o mais importante a vulgaridade do estar bem connosco e com os outros que nos servem de apoio, nos melhores momentos e nos outros também. E basta um olhar, uma palavra, um sorriso. O resto é espuma e só espuma.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Huges Lamennais, in “Miscelânia Religiosa e Filosófica”:
 
 
"Não apreciamos bem nos outros senão as qualidades que julgamos possuir.


domingo, 7 de setembro de 2014

Há dias felizes

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

João Alfaro

 
Pinturas sobre tela em execução

 
 

 
 
 

Todos os dias aparecem as notícias que são já norma: desgraças e fatalidades com fartura. Entre os perigos reais e os imaginados os dias passam. Com a cabeça dentro da areia ou pensando nas questões caminhamos, ora sonhando com “libertárias” burkas, ora com apocalipses da natureza ou tormentas sem fim. Que venha o diabo, porque de santos ando eu farto. Sei é que nascem e morrem pessoas e sonhos. E há dias felizes. Também.

 

 

Porque não acredito nas preces nem nos santinhos e nas suas historietas de fantasiar, desta ou qualquer outra religião, me deixo levar por aquilo que há de mais sagrado em mim: o amor; porque é bom, maravilhosamente bom a esperança na vida; porque é encantador ver nascer e crescer quem nos conquista com ternura e afeto o coração; porque só com projetos acalentadores se consegue fazer mais e melhor, mesmo que outros digam que não; porque ainda não me deixei levar pelo desencanto, aguardo sempre ansioso, os novos raios de luz, ao quero conceber, quase diariamente, novos projetos. E amanhã é outro dia.

 

 

 

E vos deixo com as palavras de José Luís Nunes Martins, in “Filosofias, 79 Reflexões”:

 

"Ninguém busca a felicidade, o que todos procuramos é uma razão para sermos felizes... por entre todas as que nos fazem sofrer."

 
 


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A fantasia não morreu




 
“Banho II”: 1º dia.
Pintura sobre tela de 120x80 cm, em execução
 
 
 
“…Todo o tempo é composto de mudança….”
 
Luís de Camões.
 
 
 
 
Por muito que me custe aceitar o mundo muda, não de acordo com os meus valores, nem com a minha fantasia. Eu - confesso - deixo-me arrastar pela penúria do imaginário, onde o melhor possível acontece, sem as tragédias e os malfeitores do costume. É bom mergulhar nos caminhos do maravilhoso e do fantástico, contudo, muitas vezes, vejo um malfadado amanhã, porque sou sempre descrente e espero ruindade, mesmo quando estou bem. O melhor mesmo é, entre os pingos da chuva, ir andando e fantasiando com o meu ofício: a pintura.
 
 
 
 
 
Agora, mergulhado num novo projeto, ou seja: preparando uma exposição para 2015, composta, à partida, por dez telas de 120x80 cm, com a temática subordinada ao tema do nu feminino, procuro criar obras que sejam apelativas e que correspondam a um olhar sobre a condição da mulher, dentro das quatro paredes da solidão, onde a beleza e o encantamento falam mais alto, numa tentativa de captar os variados momentos das múltiplas interrogações e desejos que percorrem o pensamento feminino.
 
 
 
 

E vos deixo com as palavras de Anatole France:
 
 "Uma coisa sobretudo dá atração ao pensamento dos homens: a inquietação. Um espírito que não seja ansioso irrita-me ou aborrece-me."

 
 


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Paredes de vidro


 
 


 
 
 
 
João Alfaro
“Banho I”, 2014
Pintura sobre tela de 120x80 cm
 
 
São as figuras públicas e os outros também. Hoje, pelas redes sociais, tudo se sabe e transparece, com alguma verdade e mentiras sem destino. É fácil dizer tudo de todos, e, do mesmo modo, qualquer um se expõe dizendo de si e dos seus. No limite, o direito à privacidade não faz sentido, quando enquadrado em contextos apelativos quanto à intimidade de cada um. Venha o diabo e escolha. Está tudo ligado. Todos sabem de todos. E de quase tudo. É o século XXI.
 
O que ontem era escandaloso, hoje é aceite sem manifestações contestatárias. Aqui. Do outro lado do mundo é bem diferente, mas aqui, no nosso cantinho, as normas são o que são, e os costumes o nosso saber viver, com mais ou menos censura nas posturas sociais. Mas nada importa. Tudo passa tão depressa e tantas coisas acontecem, que a memória se vai na hecatombe dos eventos. Tudo é espuma. Menos a arte do desejo.
 
“Banho I” é a primeira pintura de uma série em que a temática se debruça sobre a intimidade, que é comum a todos, mas que, no entanto, quando exposta, em paredes de vidro, a crítica da moral e dos bons costumes tem o lápis azul como referente máximo, ou não fosse a hipocrisia um modo de estar, mesmo em tempo de modernidade.
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Laurence Sterne que escreveu um dia:
 
"A censura é o imposto da inveja sobre o mérito."