segunda-feira, 19 de junho de 2017

Razões












Estive no Porto a passear pela cidade e, reconheço, a razão maior foi visitar as galerias de arte que, numa só rua da Invicta - a Miguel Bombarda - criam uma atmosfera artística específica, sobretudo no dia das inaugurações simultâneas. Muito do que conheço por esse mundo fora teve sempre como objetivo primeiro conhecer obras de arte. Não é a praia, nem a natureza, nem outros eventos que me seduzem: é a pintura. Fui, confesso aqui, uma vez à Áustria só para ver a obra do Klimt, olhos nos olhos. Sou de uma civilização que adora a imagem e não me vejo a viver num outro contexto em que a arte tem regras afuniladas. Isso não.




E, porque gosto tanto das artes plásticas, da ópera,  assim como dos espectáculos de palco, tenho tido a sorte de viver, felizmente, sempre numa atmosfera  em que a criação artística é o apanágio do meu caminhar, embora todo ele seja na penumbra, todavia, quando menos espero as boas notícias chegam: ou é a possibilidade de mostrar obras em conceituadas galerias; ou é saber que há pessoas de tão longe ( do outro lado do oceano) que adquiriram peças minhas. Devagar, devagarinho vou sonhando e vivendo. Umas vezes barafustando com razão ou não, porque só não me zango (silenciosamente) com as telas, claro!







E vos deixo com as palavras do poeta italiano Arturo Graf que um dia disse:


“O saber e a razão falam; a ignorância e o erro gritam.”




segunda-feira, 5 de junho de 2017

Colecionar









Desenhos sobre cartolina, 2017
Retratos de família ( sempre a aumentar)






Comecei pelos selos, como era normal na minha adolescência, mas rapidamente o meu interesse esmoreceu, porque entendi que se exigia meios e processos que não dispunha para colecionar, embora reconhecendo o poder mágico das imagens e as histórias envolventes tão ao meu gosto contemplativo.


Hoje já não, talvez porque o espaço físico e a percepção do tempo ou do que dele me resta, faz com que eu apenas queira pintar, sem apêgo aos bens materiais, senão aos imprescindíveis, mas tenho, confesso, algumas coleções. Fui um dia ao extinto Museu do Brinquedo em Sintra e me apaixonei por todo aquele universo lúdico, depois... comecei a adquirir em madeira primeiro, depois em lata os brinquedos. E tenho a casa cheia de referências infantis que tanto aparecem na minha pintura.


 Houve um tempo em que adorava percorrer o país e nas feiras comprava artesanato. As cores ( sempre as cores) e as formas da olaria e dos barros de Barcelos me encantavam e acabei por adquirir tantas peças que se foram amontoando e amontoando.


O fascínio pela encenação, pelo teatro, pelos espectáculos de palco fizeram-me querer colecionar máscaras, sobretudo as africanas, talvez por causa das minhas origens natalícias.


Agora estou a colecionar retratos, feitos por mim, claro, no entanto, porque gosto de viver rodeado de obras de arte fui juntando trabalhos de outros artistas,  não tenho mais porque as paredes não crescem e o meu tempo é tão curto.






E vos deixo com as palavras do filósofo chinês Lao-Tsé que um dia disse:

“Nada é impossível a quem pratica a contemplação. Com ela, tornamo-nos senhores do mundo.”

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Álbuns







"Retratos de família,"

Lápis de cor e pastel de óleo sobre cartolina.







Houve um tempo – antes do aparecimento da fotografia digital – em que fazia parte dos meus hábitos ter álbuns de fotografias. Curiosamente, aquele cuidado tido até aí com a identificação e o preservar adequado do registo de tudo o que eu ia fazendo com a máquina, acabou. Agora, porque é tão banal fotografar, deixei de ter aquele encanto que sentia quando fotografava.  Tenho ainda presente a primeira vez que fui fotografado num estúdio. Recordo o cenário e as luzes fortes que me deixaram uma imagem que não esquecerei. Foi talvez esse episódio de infância que me aproximou do retrato. E porque já não é a fotografia em si que me seduz, procuro tirar partido dela própria para reconstruir retratos feitos por mim, com os materiais tradicionais das artes plásticas: lápis e tintas sobre papéis.




O fascinante para mim é a descoberta constante que a pintura me dá. Vivo num tempo de inovação permanente, com tecnologias sempre a surgirem e a criarem novas perspectivas e posturas sociais contextualizadas, e porque assim é, procuro acompanhar com os meios tradicionais das artes e construir pontes entre o passado e o futuro. Esta série que agora ando a fazer dos retratos familiares, mais não são que passeios pelo recordar dos catálogos de fotografias de um tempo, que eu quero prolongar através da magia que a pintura me dá.









E vos deixo com as palavras do escritor francês do século XIX, Gustave Flaubert, que um dia escreveu:




“As recordações não povoam a nossa solidão, como se costuma dizer; antes pelo contrário, tornam-na mais profunda.”




quinta-feira, 25 de maio de 2017

Retratos de família













Há momentos de encontro entre familiares e amigos. Umas vezes nos locais mais aprazíveis e convidativos aos prazeres da amizade e do saber viver; outras vezes, porém, no pior dos sítios: o cemitério. Desde muito novo, tenho imagens de criança, onde a presença de muitos, infelizmente, tinha como razão maior a despedida eterna. Mas há, também, aqueles reencontros onde o festejar com alegria é o que traz tantos a um evento em nome de alguém ou de algum projeto de vida. E é dos momentos bons que quero destacar e recordar. Vou agora iniciar uma série de desenhos sobre a minha família e amigos próximos, para fixar no tempo a aparência de cada um.






Retratar nas artes plásticas alguém é ultrapassar a identificação fisionómica e transpor para outros horizontes, onde se misturam valores e princípios, beleza e fealdade, incógnitas e certezas que só o tempo fará perdurar e criar imaginários especulativos se, obviamente, a obra comportar tanto de tão pouco.




E vos deixo com as palavras do escritor russo Lev Tolstoi que um dia escreveu:



“As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são iguais cada uma à sua maneira.”





segunda-feira, 15 de maio de 2017

Diários










Pedaços de mim espalhados pelos cantos desordenadamente, claro.






Havia os diários, uns cadernos onde se escrevia ( sobretudo os mais jovens ou os necessitados da escrita), os lamentos ou os sonhos pessoais, dentro do maior segredo, porque as confissões eram isso mesmo: relatos de desejos reprimidos e de puritanos prazeres... Outros tempos, sem dúvida. Agora já não há diários do íntimo, carregados de confissões, de descargas morais, de reprimendas pessoais fechadas no círculo do próprio escriba. Hoje tudo está bem diferente. No espaço público de maior exposição – TV ou Internet – muito é relatado na primeira pessoa. Longe vão os tempos dos segredos caseiros, porque se vive actualmente no desejo ardente da notoriedade, mesmo que fátua e desgraçadamente triste.


Sempre houve escárnio e mal dizer, próprio dos meios pequenos onde a inveja é rainha, todavia, impera nos dias de hoje, outros medos que ultrapassam a crítica do vizinho, do próximo ou dos maldizentes de tudo e de coisa alguma. Os perigos são muitos, com monstros a nascerem do vazio, mas a vida é feita de esperança e de crença num amanhã melhor, apesar de muitos indiferentes a tudo se deixarem visualizar pelos cantos da casa, pelos percursos festivos e por dá cá aquela palha. Acreditamos sempre na bondade e na felicidade. Depois, se as coisas correrem bem é maravilhoso, se os desfechos são catastróficos a culpa é do azar, obviamente.....(mas esse é outro filme, porque de filmes romanceados se faz a vidinha de muito boa gente).


Eu muito mostro de mim, mais uns quantos que comigo se cruzam me expõem por todo o lado. A net e a fotografia digital, instrumentos que são quase uma parte do nosso corpo, fazem o resto. Não se pode evitar a exposição pública num tempo onde a imagem é uma constante em todo o lado. Uma fobia. Enfim...


Eu apenas quero mostrar o meu trabalho pictórico e apenas isso, porque o resto faz parte do diário com os segredos pessoais, embora ciente que a pintura é um diário aberto.





E vos deixo com as palavras do poeta Fernando Pessoa, que um dia disse:

“Não confessar nunca o que intimamente se passa convosco, Quem confessa é um débil.”


terça-feira, 9 de maio de 2017

O melhor do mundo são as crianças, o resto é conversa












As pessoas são muito complicadas. Por questões simples se desfazem amizades e se silencia para o resto da vida uma relação ou convivência, por dá cá aquela palha, mas que tinha tudo para dar certo. Enfim, a natureza humana depois de tanta aprendizagem continua igual, mesmo os muito aprendidos na arte dos livros e da sabedoria escolástica aperfeiçoada. Estar bem consigo próprio e com o mundo é tarefa quase impossível, ou não fosse a insatisfação a razão maior para tanta mudança e procura sem fim. Um dia acordamos todos e pensamos bem naquilo que vale a pena e é importante, todavia, depressa, muito depressa a negação do óbvio chega logo e, o negativismo, claro, ocupa o lugar de destaque. Em tudo. Até no que mais queremos.




E há as crianças. Felizmente. Por muitas tormentas e interrogações nada é melhor que um sorriso, um olhar vibrante e uma voz doce de uma criança. Não há melhor que gostar de um pedaço de nós, mesmo longe, muito longe, porque o resto é conversa. De adultos, claro.






E vos deixo com as palavras do biólogo francês do século XIX, Louis Pasteur, que um dia disse:



“Quando vejo uma criança, ela inspira-me dois sentimentos: ternura, pelo que é, e respeito pelo que pode vir a ser.”


terça-feira, 2 de maio de 2017

Acreditar nos livros






Houve um tempo antes do livro em papel, digamos. Há agora uma realidade social que vive sem eles, os livros, claro. Dois mundos distintos. A magia que a simbologia transmitida pela elegância cultural tinha inerente, deu lugar ao vazio das estantes, sem o vislumbre dos grandes nomes que construiram um edificado de ideias. Era mágico publicar um manual. Depois tantos, sem saberem juntar as palavras, começaram a editar em nome de outros. A informática fez o resto. Da necessidade de saborear as páginas e de sentir o cheiro, a textura e o grafismo, se deu lugar à velocidade de consumir, de um outro modo, a transmissão de ideias. Mas há quem resista, uns porque ainda não compreenderam o presente, outros porque se acham merecedores de ultrapassar o inevitável. Eu que nada sei, só sei que vivo de recordações. Saudáveis com os livros por perto.



Pediram-me para ilustrar, mais uma vez, um livro. Gosto de ser prestável, embora não acredite no milagre dos peixes, nem em outros milagres, melhor dizendo: não há milagres. Ponto. Mas não sei dizer não (uma das minhas fraquezas...). E fiz (ainda estou a fazer, melhor dizendo), porque não consigo me desligar do que acredito, mesmo contra ventos e marés. Talvez um dia nos escaparates mais um livro em que ajudei, este sobre a cruzada dos mistérios religiosos, eu que sou agnóstico..., mas um livro é um livro.






E vos deixo com as palavras do padre António Vieira, que viveu no século XVII, e que um dia disse:




“ O livro é um mundo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.”