domingo, 15 de julho de 2012

Dormir






2012, “Dormindo” pintura sobre tela.

Sonhei tanto e fiz sonhar outro tanto. Com verdades e mentiras à mistura. Imaginei este mundo e o outro. Galguei montes e vales, mares e céus. Inventei cenários idílicos de dia e de noite. Agora vivo das recordações. Das boas e das outras. Da saudade, sobretudo. E aqui estou dormindo na paz dos anjos, ora imaginando, ora construindo projetos, que valem o que valem, neste andar de procuras e de encontros estéticos, onde o interesse de ontem é apenas um vislumbre, porque o que conta, hoje, é a serenidade e a acalmia dos ímpetos. E o tempo passa entre dormidas e panaceias, em que a arte é a força motriz e a razão principal da significância deste meu andar por aqui. Até ao juízo final.


E termino com um excerto do poema “Dorme, que a Vida é Nada” de Fernando Pessoa, in Cancioneiro:

“Dorme, que a vida é nada!

Dorme, que tudo é vão!

Se alguém achou a estrada,

Achou-a em confusão,

Com a alma enganada…”



segunda-feira, 9 de julho de 2012

Hopper em Madrid






Madrid. O calor aperta e a luz é imensa. As pessoas correm de um lado para o outro com roupas suaves, luzidias, oscilantes e, até, algumas, com vestes sensuais, tão próprias da época estival, aproveitando, assim, os primeiros dias da nova estação que transporta consigo as alegrias do verão. Da multidão vejo surgir um homem vestido de negro acompanhando uma jovem coberta, também, de um longo e inapropriado (julgo eu) vestido igualmente negro, com um enorme lenço cobrindo a cabeça e apenas deixando perceber os olhos. Enfim. É o caldo cultural dos nossos dias. A liberdade é o direito à diferença, mesmo para os que querem impor a unicidade. E enquanto o Museu Thyssen abre as portas à retrospetiva da obra pictórica de Hopper (1882-1967) - razão principal da minha visita à capital espanhola -, vou olhando o que me cerca e pensando na maravilha que é alguém conseguir captar o interesse de tantos, apenas e só porque pintou o que lhe ia na alma, bem longe das modas do seu tempo e dos fundamentalismos que cada época comporta. Este pintor, americano, soube conciliar a mestria técnica com a conjugação temática baseada essencialmente nas emoções humanas, onde não há moda ou radicalismo que suplante aquilo que é a nossa essência. A sua pintura é influenciada pelo cinema mas, curiosamente, também, cineastas recorrentemente constroem cenários tendo como ponto de partida a pintura de Hopper. A sua obra é tão pungente que os anos passam, as modas também, e o interesse pelo seu trabalho cresce, apesar de muito divulgado, porque ver "in loco" as pinturas dá ao observador outra dimensão, que só é possível captar estando frente a frente, olhando diretamente, vendo a harmonia cromática perfeita, a pincelada solta e o admirável jogo da luz e da sombra, em que as personagens pictóricas se identificam com cada um de nós, independente das opções e dos conceitos de vida que perfilamos, ou não fosse a arte uma expressão da vida.

E vos deixo com as palavras de Simone de Beauvoir que disse um dia:
“É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente.”

domingo, 1 de julho de 2012

Outras leituras







2012, "Outras Leituras" pintura sobre tela, 100x60 cm




Muito se lê e escreve hoje. A internet criou novos hábitos de leitura e escrita. O leque dos que através das palavras comunicam com os outros aumentou exponencialmente. A democracia dos ideais passou a ser não um exclusivo dos pensadores das grandes causas mas, sobretudo, um desabafo de todos os que utilizam as novas tecnologias para dizerem de sua justiça, certamente, cheia de impropérios, mas a voz popular é, agora, mais global com as vantagens e os inconvenientes do pensamento imediato e emocional das multidões.
É triste ver que os livros – em papel – estão a desaparecer nas nossas casas, nas salas de espera, nas viagens, nos cafés, e com isso os hábitos de saborear, também, o objeto artístico, porque um livro é um conjunto de palavras, imagens, texturas, cheiros e com um passado milenar, que permitiu a evolução civilizacional do Homem graças ao acumular de informação. Mas o progresso é assim mesmo. As novas gerações terão como suporte comunicativo o visor dos computadores e, o passado legado nas folhas de papel será apenas uma memória, ou não fosse a nossa existência, um saudável e maravilhoso recordar, em que o futuro é já amanhã, e isso é que importa. Mesmo sem livros em papel. Para meu desgosto. E de muitos mil.

E vos deixo com as palavras de Julien Green que disse um dia:

“ Um livro é uma janela aberta pela qual nos evadimos”.



domingo, 24 de junho de 2012

Pausa










2012, “Pausa” pintura sobre tela de 40x40 cm.

 Daqui para ali. De lá para um outro local. Estamos sempre em busca de qualquer coisa que está num outro lugar, real ou fictício. Procuramos eternamente o sítio certo, o cantinho ideal dos desejos, das necessidades e, até, de nós próprios. Depois chega o tempo de parar. Da pausa. E lá se vai tanto andar de um lado para o outro. E a correria termina de vez ou, apenas, por instantes. Por breves instantes, porque há sempre um incógnito desígnio, neste nosso modo de olhar e querer, isto e aquilo. Felizmente que é assim. Desgraçadamente é quando desistimos. E tantos, tantos se deixam vencer, logo à partida. Por isso, é preciso sempre uma pausa, quando o mundo, e, tudo o que ele comporta, ultrapassa a nossa capacidade de vislumbrar o certo e o errado, o belo e o feio, o maravilhoso e o fantástico. Parar para pensar é, quantas vezes, vencer etapas, galgar montes, vales e descobrir a luz. E é tão bom gostar de gostar.

E vos deixo com as palavras de Johann Goethe que disse um dia:

“Pensar é fácil. Agir é difícil. Agir conforme o que pensamos, isso ainda o é mais.”

domingo, 17 de junho de 2012

Menina estás à janela







2012, Pintura sobre tela de 50x50 cm



Estar à janela é mais do que um olhar. É, quantas vezes, pensar muito e desejar outro tanto. É querer alguma coisa, mesmo que seja só para ver as pessoas do costume; a mesma paisagem; o mesmo do mesmo, como a luz ou o céu estrelado sempre diferentes; o movimento ou a falta dele; a vida dos outros ou a ausência de gente; o barulho ou o silêncio profundo. Estar à janela é comungar, divagar por todo o lado, e por lado nenhum. É sonhar e desejar; é acreditar ou desistir; é estar só, ou, a conversar com este e aquele; é tanto e tão pouco; é recordar com profunda nostalgia e saudade; é estar bem com a vida, entre as tristezas de sempre, ou, é, apenas, um hábito. E há sempre uma janela à nossa espera.

Recordo hoje as palavras de Saint- Exupéry que disse um dia:

“Para ver claramente, basta mudar a direção do olhar”.

E vos deixo com a música, a letra e a voz de Vitorino e “Menina estás à janela”












domingo, 10 de junho de 2012

Amizade






2012, “Amizade” pintura sobre tela de 60x100 cm

Nasce num lado qualquer: nos bancos da escola, no emprego, no transporte público, no café. De um dia para o outro encontramos alguém que tem tanto para nos dar e a quem desejamos dedicar outro tanto. As razões são pelos mais nobres motivos ou, como acontece muito, pela inevitável necessidade da amizade, que o espaço e o tempo obrigam. E, de pequenos monocórdicos ditames iniciais, se desliza para confissões intimistas, nascendo, deste modo, o apego ao relacionamento que faz a diferença, e transforma o vazio numa necessidade de estar com outros, comungando tanto, ou coisa nenhuma. Os dias passam, a vida também mas, entre tantos episódios, continua o elo da cordialidade vivencial, que é a tradução literal da amizade, pois esta ultrapassa distâncias, tempo e diferenças de opinião. O que é sublime. E é tão bom não estar só, neste mundo de gente só.

E vos deixo com as palavras de Carlos Drummond de Andrade que disse um dia:

“A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas.”

domingo, 3 de junho de 2012

Gente triste



2012, pintura sobre tela “Espera”, 70x50 cm.

O céu é lindo; a saúde aparentemente imensa; a fartura na mesa é uma constante; a família respira bem-estar. E a tristeza continua. É assim em tanto lado. Tanta gente deprimida. Uns porque não podem ter a Lua; outros porque julgam ser o que não são; outros ainda porque vivem num tempo que já passou e não volta mais, e, com ele os sonhos perdidos da felicidade eterna. E há, também, aqueles que nada pedindo, nada tendo, vivem um dia de cada vez, com a esperança de um amanhã pelo menos igual, embora miserável, e lá vão cantando e rindo com a alma despedaçada, como sempre. Tudo gente boa. Sem dúvida. E tristes. Muito tristes.


E vos deixo com as palavras de Simone de Beauvoir, in “A Força da Idade”:
“Em todas as lágrimas há uma esperança.”