sábado, 7 de novembro de 2009

Vergonha




Há os que têm vergonha. Vergonha dos actos; do passado; de si; do corpo; vergonha de não saber; de não ser capaz; da exposição de si próprio; de tudo e de nada. Vergonha. Simplesmente vergonha. E há os outros: os que gostam de se expor a este mundo e ao outro. Expõem a si e aos seus. Expõem-se sabendo que não têm vergonha de mentir, de roubar, de criminalizar, disto e daquilo. E é assim que vivemos. Uns cientes de valores éticos. Outros querendo tudo, logo sem valores nenhuns. É a nossa gente. Com e sem vergonha.


Esta aguarela é um dos muitos retratos que me encantam (modéstia à parte) porque trazem em si o que há de mais belo e puro na postura de quem tem ainda princípios e valores. É a timidez que aqui tem a expressão mais ampla. Este retrato só foi feito depois de obter o papel ideal para aguarela e conseguir tirar partido da mistura das cores e das transparências, só possíveis nas pinceladas únicas da aguarela. Histórias da Minha Pintura.


Hoje trago as palavras de Vergílio Ferreira em "Conta-Corrente 5":

"Ser tímido é dar importância aos outros. Ser desinibido é dá-la a si próprio. Mas normalmente o tímido tem-na. O desinibido não."

E vos deixo com a música de quem fez da timidez um modo de estar na vida: Schumann, aqui, com a mestria, ao piano, de Argerich .

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O nosso espaço




O espaço, o nosso espaço, é o nosso território. E, como sempre, é nele que nos sentimos seguros, ou seja, reis deste mundo e do outro; senhores de tudo; senhores na aparência e no fingimento, mas sempre senhores. Somos assim, reconhecendo ou não a verdade. E é no nosso ambiente, peculiar, que construimos o melhor e o pior. Bem ou mal por cá andamos. Ora reconhecidos, ora ignorados e, quase todos, infelizmente, seres infinitamente transparentes, mesmo no nosso espaço.


O ateliê é o espaço do pintor: tem luz, muita tralha e sempre caótico. É assim quando se trabalha com tintas e pincéis. Com silêncio ou sem ele. Esta tela retrata um espaço desses mas, arrumado, o que significa que o pintor não pinta. Linhas e cores cinzas definem este ambiente geometrizado e profundamente orientado pela cultura renascentista, onde a simetria disfarçada é uma das características. Histórias da Minha Pintura.


Hoje trago as palvras de Eurípides, in "Fragmento":

"Fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio."

E vos deixo com a música de Rossini :"La Gazza Ladra", aqui sob orientação de Claúdio Abbado em 1991, em Viena de Aústria.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A cama




Todos os dias nos deitamos em lençóis de lã, de flanela, de seda ou ao relento. Dormimos nos mais belos aposentos ou à chuva, ou ao vento, ou não dormimos. E assim vivemos dormindo bem uns dias e mal outros. Bem ou mal nos deitamos e saboreamos o descanço e com ele os sonhos, as fantasias e as angústias. E é, mais ou menos deitados, que as noites nos consomem e transportam para mundos e fundos. Todos os dias.

Esta pintura, em tela, é o retrato de um espaço que tem os mimos próprios de uma cultura, de um desenvolvimento social que identifica o nosso modo de estar e viver. Procurei criar um ambiente onde as cores fossem a expressão de um espaço íntimo e pacato com objectos condutores de leituras díspares. Histórias da Minha Pintura.


Hoje recordo Eugénio de Andrade:

"Todas as casas onde há livros e quadros e discos são bonitos. E são feias todas as casas, por mais luxuosas, onde faltem essas coisas."


E vos deixo, mais uma vez, porque adoro, com a música de Bach:"Air aus der Suite Nr. 3 e a mestria ao violino da Anne-Sophie Mutter.



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A praça




Cada cidade, cada lugarejo tem a sua praça, o seu coração. O local de encontro comunitário é, por excelência, onde se vai e se sente o sentir das suas gentes, a sua História, o seu viver. A soma das histórias vividas, dos episódios, das recordações criam, nos espaços comuns, hábitos de estar e viver publicamente. Com mais ou menos intriga. Com mais ou menos gente. E assim é a vida das nossas praças. Das nossas gentes.


Esta pintura retrata um espaço que, como todos os espaços abertos, tem características próprias, com o ambiente definidor das posturas e da arquitectura. Este trabalho começou por ser desenhado com a utilização da perspectiva com dois pontos de fuga, e, só depois, apliquei as tintas numa malha traçada a régua e esquadro. As cores através das suas diferentes tonalidades procuram, também, sugerir a profundidade. História da Minha Pintura.


Recordo hoje um excerto do poema "A Praça" de Álvaro de Campos ( heterónimo de Fernando Pessoa):

"...Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui...Sei eu
Por que o amo? Não importa. Adiante..."



E vos deixo com a música de Glen Miller e "Moonlight Serenade".


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Intimidade




Há as normas. Há os usos e costumes. Há a crítica social. Há a inveja. Há a ignorância. Há tudo para cumprir e obedecer. E há o nosso espaço. O espaço em que vivemos longe das opiniões e observações dos outros. Longe e tão perto de tudo e de todos. E é aqui que viajamos, entre quatro paredes, na nossa intimidade. Usamos ou não este traje; temos ou não esta postura; dizemos ou não estas palavras; fazemos isto e não aquilo; somos ou não somos isto e aquilo. E assim vivemos com mais ou menos intimidade. Entre quatro paredes.


Esta pintura em tela retrata um espaço que, como todos os espaços, cheios ou vazios, é um local onde expomos a nossa intimidade que é, sempre, a expressão do nosso modo de ser, com mais ou menos beleza, com mais ou menos verdade. Aqui, utilizei a perspectiva com um ponto de fuga e, procurei conjugar cores que não fazem parte dominante da minha paleta, mas que tento usar para fugir à dependência dos azuis que, de facto, predominam nas minhas obras. História da Minha Pintura.


Hoje recordo as palavras de Alain:


"Ninguém no mundo tem poder sobre o seu juízo interior; embora possam obrigar-nos a dizer em pleno dia que é noite, não há força capaz de nos coagir a pensá-lo."

E vos deixo com "Clopin-Clopant", aqui com a voz de Josephine Baker que chocou o mundo da época com posturas e modos de estar que estão hoje "normalizados".


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Exotismo




O desconhecido; o desejo de procurar novos mundos; novos modos de ser e estar; novas culturas levam-nos a partir, a procurar aventuras; a procurar o que julgamos precisar; a procurar, simplesmente, sabe-se lá o quê. E por tanto procurar encontramos outras gentes que, pela diferença, nos atraem. É o ambiente, é a cor, é o cheiro, é a postura, é a forma de viver, é quase tudo que nos apaixona ou nos afasta. E, porque o nosso mundo é tão diferente e tão próximo, vivemos nesta luta de buscas por causas, ora em sintonia, ora combatendo-as. E assim vivemos com mais ou menos exotismo. Com mais ou menos diferenças. Insatisfeitos sempre. E sempre em busca de mais exotismo.



Esta aguarela é uma miragem sobre a fantasia do olhar o mundo e captar apenas o que há de belo e exótico. Tecnicamente procurei, a partir do desenho, criar um ambiente que, aliado a cores saturadas e na gama dos tons ocres, exprimissem o exotismo. Mais uma vez, utilizei a aguarela para obter transparências. História da Minha Pintura.


Recordo hoje, de novo, as palavras de Camilo Castelo Branco:

"A civilização é a razão da igualdade."


E vos deixo com a "Marcha turca" de Mozart.



domingo, 1 de novembro de 2009

Árvore das patacas




É o desejo de todos: viver bem. E viver bem significa ter saúde, paz e amor. E tudo isto à sombra da árvore das patacas. É a fantasia do nosso viver: tudo belo e floreado até ao juízo final. E, com muito ou pouco juízo, por cá andamos, felizes ou tristes, em busca da árvore das patacas que nos conduza à abundância dos bens materiais que, dos outros, não há árvore milagrosa que nos satisfaça.

Esta aguarela é um dos muitos momentos vivenciais que gosto de registar no meu trabalho pictórico. As cores, a minúcia dos pormenores e o enquadramento procuram formar, nesta obra, uma imagem que corresponda ao típico ambiente do desejo e da fantasia. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Oscar Wilde:

“Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.”

E vos deixo com a música de Tchaikovsky que tem tudo de suave, romântico e belo, tão distante das novas sonoridades.