segunda-feira, 7 de junho de 2010

Aniversário



Faz hoje um ano que o blog surgiu. Começou a ser feito ainda em Maio de 2009 e apareceu no dia 7 de Junho do ano passado. Desde então mais de 26 000 visitas. Todos os dias, numa luta contra o tempo, procuro colocar um pequeno texto, uma citação, de vez em quando uma música e, sempre, sempre uma imagem. Imagem do meu trabalho pictórico, afinal, razão principal do aparecimento do www.joaoalfaro.blogspot.com.

Os artistas fazem, na maioria dos casos, trabalhos que acabam por ter um público restrito. Poucos vêem e conhecem. O mundo das galerias não está no roteiro de muitos fruidores estéticos, e porque assim é, julguei, chegada a hora, após muitas exposições individuais e colectivas realizadas em Portugal e fora de muros, de divulgar, diariamente, neste meio, a um outro público, o que faço.

A todos o meu agradecimento pela forma cordial como me contactam e analisam o meu trabalho.

Recordo hoje as palavras de Paul Valéry:
“O objectivo profundo do artista é dar mais do que aquilo que tem.”
E vos deixo com a voz sublime de Brél cantando um texto que perturba qualquer um.


domingo, 6 de junho de 2010

As minhas mãos






As Minhas Mãos
As minhas mãos magritas, afiladas,
Tão brancas como a água da nascente,
Lembram pálidas rosas entornadas
Dum regaço de Infanta do Oriente.

Mãos de ninfa, de fada, de vidente,
Pobrezinhas em sedas enroladas,
Virgens mortas em luz amortalhadas
Pelas próprias mãos de oiro do sol-poente.

Magras e brancas... Foram assim feitas...
Mãos de enjeitada porque tu me enjeitas...
Tão doces que elas são! Tão a meu gosto!

Pra que as quero eu - Deus! - Pra que as quero eu?!
Ó minhas mãos, aonde está o céu?
...Aonde estão as linhas do teu rosto?


Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

As mãos fazem tudo: obras-primas e crimes horríveis. Fazem o que a mente manda. Fazem o melhor e o menos recomendável dos seres humanos. Fazem o que define e caracterizam este percurso pelo tempo e pelo espaço. Fazem e não fazem. E encantam ou desgostam. Felizmente e infelizmente. E mais não digo...

Esta fotografia é um retrato das minhas mãos que procuro cuidar para os muitos trabalhos pictóricos que ainda quero fazer. Sou como os pianistas que evitam, a todo o custo, executar tarefas que os impeçam de cumprir a sua função. Hoje, mais do que nunca, procuro ter uma missão: pintar. Pintar para comunicar, ou seja, dizer aos outros através das cores e das formas o que considero certo e abonatório. Eu sou assim.

E vos deixo com “Rapsódia Húngara, nº 2” de Liszt que ficou célebre pelo seu génio pianístico e ...já agora, contam também que tinha umas mãos compridas que lhe permitiram tocar o que tocou e como tocou. Histórias da Música e não só...






sábado, 5 de junho de 2010

Mil imagens




É uma vida de imagens a nossa: umas observadas, contempladas e saborosamente fruídas; outras, apenas e só ... imaginadas -virtuais como o pensamento dos desejos não concretizados. É assim, nesta linguagem, que decorre a versão dos acontecimentos do nosso dia-a-dia, sempre com mais novas imagens (reais e virtuais). É o nosso tempo. E tal como as imagens, as pessoas também passam. Passam e deixam saudades. Também passam e saudades levou-as o vento. E as memórias também.

Estas telas são retratos que fui fazendo paulatinamente, pelo prazer de ver nascer as formas que, conjugadas com as cores, traduzissem a aparência do modelo. Gosto muito de descobrir - nos outros -, aqueles gestos únicos que caracterizam a postura e a beleza da personagem que habita em todos nós.

Como sempre, sou muito rápido a fazer os meus projectos pictóricos. Dois dias foram suficientes para desenhar e pintar cada uma destas peças. É sempre igual, todos os dias: uma luta quase titânica e enfurecida, pelo desejo de conseguir a aparência fisionómica.Trabalho por séries e estes conjuntos pertencem naturalmente a momentos diferentes.O que os une é o tema comum, desta variedade formal que é o rosto de cada um. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Jean-Paul Sartre:


“O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter.”

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Espelho meu






“Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu dourado assomo....

Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloríola com Ter
A árvore do meu uso o único pomo...

Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente, e , num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas... “


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


Estas duas telas, de pequeno formato, pintadas em 96, são o registo de ambientes onde as imagens se sobrepõem num jogo de aparências reais e virtuais. A verdade é muitas vezes um intrincado processo de descodificação, que confunde pela semelhança ou pela profunda diferença. Aqui, a conjugação entre a aparente imagem espelhada e a não espelhada é, afinal, apenas mais uma vez, a continuação da ilusão que é a arte e, tantas vezes, a vida.

Estas pinturas fazem parte da série de retratos onde o espelho está presente e em que procurei, de um modo breve, com rostos definir jogos de cores num contexto temático, onde a fisionomia e a caracterização do carácter definem a personalidade de cada um. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Oscar Wilde:

“São as personalidades e não os princípios que fazem avançar o tempo.”

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Sorriso



Sorriso Audível das Folhas
Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"



Sorrir é sempre, quando traduz alegria e verdade maior, uma forma de expressão que encanta e transmite um estado de alma sublime pela satisfação d0 saber viver o momento. Quando nos rimos, a expressão do rosto tem outra luz e outra beleza. Sorrir é dar também mais luz e cor, ao olhar de quem observa, com olhos de ver.

Esta tela, de 95, procura retratar um daqueles momentos, onde o prazer da companhia, do encanto do instante, e da alegria do saber estar, muito significam no relacionamento humano. Cores, poses e enquadramento visam aprofundar esta temática entre seres que apenas querem encontrar o caminho certo.

Para fazer esta pintura ( hoje perdida no anonimato do proprietário, daí a fraca qualidade gráfica da fotografia) apenas quis criar um espaço segundo a perspectiva Renascentista, a simetria e as cores singelas e contrastantes para realçar o jogo das luzes e das sombras. História da Minha Pintura.


E vos deixo com a voz de Edith Piaf e “ L`Hymne à l`amour”.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A nossa imagem



A nossa imagem é a soma daquilo que somos enquanto seres físicos e sociais. Quando ao aspecto formal podemos ter algum cuidado, mas a natureza é que manda. Socialmente - a nossa imagem - depende muito do contexto, do tempo, da circunstância e, sobretudo, de cada um. Logo, no berço, muito do futuro fica determinado. E o restante - por definir - depende só de nós, e só de nós. E basta tão pouco para deixar cair o que levou uma vida a construir: um devaneio, um gesto mal pensado, uma atitude tresloucada ou a verdade da intimidade mostra o outro lado da nossa imagem. Imagem que é , hoje mais do que nunca, posta em causa, por dá cá aquela palha. Coisas do tempo. Do nosso tempo.

Esta pequena tela é um retrato da nossa imagem que o espelho reflecte. É através dele que sabemos bem como somos. Bonitos ou feios, redondos ou rectangulares, azuis ou verdes pouco importa. Importante mesmo é a imagem da seriedade, da verdade e da determinação em prole dos ideais que julgamos correctos, com emoção, com paixão e com encanto. O resto não interessa.

Este trabalho foi concebido após estudos prévios de poses. Cores simples e uma figuração com parcos elementos num jogo de imagens duplas fazem este retrato. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de John Watson:

“O que fazemos é o que fazemos, e o que fazemos é o que o ambiente nos faz fazer.”

terça-feira, 1 de junho de 2010

Dia da Criança






Criança
Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, — e resiste,

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.

Cecília Meireles, in 'Viagem'


Quando se faz um filho o mundo fica diferente. Tudo muda porque um filho é para o resto das nossas vidas. Quando assim não acontece é a maior das tragédias. E, porque hoje é o dia da criança, vos deixo com duas aguarelas feitas com amor e muita paixão, que é o que nos pedem as crianças.

Estas aguarelas foram feitas para responder a uma proposta literária onde a criança está no centro das atenções. Porque hoje é um dia onde se fala ( em alguns sítios) da criança, lembrei-me destes meus trabalhos, que procuram captar o mundo que envolve os mais novos. História da Minha Pintura.

E porque a música faz parte do imaginário infantil, nada melhor que a música de Leopold Mozart :Toy Symphony”.