quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dormir e sonhar



Fernando Pessoa encanta-me com a sua poesia que está sempre tão presente quanto pinto e escrevo. Recordo hoje mais um dos seus poemas extraído do “Cancioneiro”:

Durmo. Se Sonho, ao Despertar não Sei

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.



Esta minha pintura é a temática do presente. Trabalho por fases e, neste momento, interessa-me retratar o dormir e a privacidade inerente ao acto em si. Aqui, o modelo numa postura descontraída e num contexto intimista, com cores suaves e aconchegantes, servem os meus propósitos de representação. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Frederic Chopin e “Nocturno in E Flat Maior, Op. ) Nº 2”.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Cenário idílico



Viajamos tanto em busca de novas miragens. Percorremos meio mundo e outro tanto para ver, somente ver, por instantes, este ou aquele monumento, esta ou aquela obra, este ou aquele espectáculo, esta ou aquela praia. E de tanto andar, em busca dos prazeres, nem sabemos saborear o que os olhos captam tão perto de nós, porque o que queremos mesmo é descobrir os cenários idílicos fora de portas, porque a galinha da vizinha é melhor que a minha. E mais não digo.

Esta minha pintura é um olhar com olhos de ver. A paisagem verdejante é um convite ao convívio pela contemplação da natureza. Mais uma vez coloquei objectos que transformam uma mera vista panorâmica, num outro enquadramento temático, com a presença da cadeira vazia e do brinquedo perdido. O verde domina a tela com os vários tons para ajudar a criar ilusoriamente a profundidade. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Johann Goethe, in “Pensamentos”:

“A natureza reservou para si tanta liberdade que não a podemos nunca penetrar completamente com o nosso saber e a nossa ciência.”

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Bilhete Postal



Recordo hoje as palavras de Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas":


Uma Cidade

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito.
Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.



Esta minha pintura, sobre tela de 2001, é um retrato postal da cidade do Porto, que tem o encanto deste povo e desta gente, com o melhor e o menos bom de todos nós. Num cromatismo próximo do granítico citadino tentei representar uma panorâmica das vistas e do sentir popular. História da Minha Pintura.


E vos deixo com a voz de Fritz Wunderlich

domingo, 4 de abril de 2010

A minha religião




A Minha Religião é o Novo

"A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol,
estas invenções habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante único.
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto."

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

E vos deixo com a voz de Callas, nesta quadra, que comunga a religiosidade e o sentido da vida.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Abraço paternal



O abraço é uma forte forma de afecto. Só se abraça alguém quando a ligação de ternura é significante ou, quando no calor da emoção, outros conceitos de amizade e proximidade se tornam, naquele contexto, relevantes. Infelizmente, a hipocrisia, a mentira e outras falsas posturas, fazem do abraço, uma norma longe da amizade, do carinho e do amor. Coisas dos Homens.

Esta tela é o retrato de um abraço que é, sobretudo, o registo de um acto de amor, de um pai para com o filho. A fraternidade é o ponto de encontro do relacionamento entre seres, que comungam interesses e valores idênticos.

Numa pincelada solta e com cores contrastantes, num conjunto de formas exageradas - para enaltecer a temática pictórica -, esta minha pintura procura ser apelativa (como devem ser todas) e para isso acontecer as cores, as formas e a temática têm de constituir um todo. Luzes, sombras de tons diferenciados e rostos expressivos caracterizam este trabalho. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Jules Renard, in Journal”:

“Não há amigos, apenas há momentos de amizade.”

Momentos de pausa



Há momentos em que não queremos fazer nada. Apenas repousar. Descansar, mesmo até em contextos e instantes inadequados, porque, o que queremos mesmo é não ligar a nada e “desligar” de tudo e de todos. Há momentos assim. Há momentos assim. Há momentos assim.

Esta pintura em tela é um daqueles momentos em que se está, por estar… sem se estar. Repousar e saborear o descanso em qualquer sítio, e em qualquer situação, é uma fuga que encontramos, e assim podemos ter alguma satisfação mesmo nos sítios errados, e nos momentos errados.

Esta obra procura retratar um momento em que a postura das personagens revela acalmia, serenidade e jovialidade. Esta pintura está integrada na série: Liliana e Ana”, dois dos meus modelos preferidos. Cores suaves e um fundo quase transparente formam este conjunto de pinceladas oblíquas e paralelas entre si e, propositadamente, bem dispersas, para criar uma dinâmica visual que origine uma uniformidade textural. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Henry Miller:

“Cada momento é de ouro se o soubermos reconhecer como tal.”