terça-feira, 23 de agosto de 2016

Últimos dias


















Está quase a acabar mais uma exposição minha de pintura. É sempre uma ansiedade o antes e o durante. Depois fica um vazio e uma saudade. Pintar é desnudar um pouco de nós, porque é um trabalho exigente, de muita solidão e expectativas desmesuradas. E, porque, pintar é, sobretudo, acreditar que vale a pena ter outros valores e outros sentimentos, que não passam pelos interesses materiais, nem pelos desejos animalescos do ser, mas apenas descrever um modo de pensar o presente olhando o futuro, com o silêncio e a especulação da imagem que o tempo consome, numa incógnita que só o futuro sabe.







Sabe sempre a pouco o resultado final, mas é preciso compreender o que interessa no momento e apoquenta cada um de nós. Há tanta trivialidade consumista do tempo e das preocupações, que a arte, toda ela, feita com a paixão de sempre, é apenas um expressivo modo de comunicar de uns para alguns.







O espaço é lindo e como chamariz, no exterior do edifício, um enorme cartaz com a imagem de uma das pinturas, tornando, assim, visível, a todos que por ali passam, uma obra pictórica que é um olhar sobre a temática do evento. O que chama a atenção nos espectáculos é a sonoridade dos intervenientes, que nas artes plásticas não têm estatuto para mover multidões, excepto nas grandes capitais, quanto mais nas pequenas urbes lusas que pouco ultrapassam os 30 000 habitantes, em média.







Confesso que me sinto feliz por ter tido oportunidade de mostrar a quem quis ver alguns dos meus trabalhos recentes, que agora terão diferentes destinos e já não voltarão a contar a história do meu olhar sobre a postura feminina na intimidade.



Esta mostra só foi possível graças à Câmara Municipal de Tomar que gentilmente cedeu o espaço e disponibilizou as condições logísticas. Ao escolher os meses de julho e agosto foi com o intuito de mostrar aos muitos visitantes que a cidade recebe nesta altura do ano o meu trabalho. As contas fazem-se depois....







E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa:




“A Minha Arte é Ser Eu”.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A vida é um sopro
















Neste sopro do viver, onde tanto acontece - como mostra a imagem das múltiplas exposições de pintura que fiz -, os dias correm para uns com a palpitação de novas vivências e expectativas futuras, enquanto para outros é mais do mesmo, sem chama nem esperança.





Um dia, outro dia e mais outro; uma semana, outra e outra; os meses, assim como os anos chegam e logo partem. É mesmo um sopro a vida: tão frágil e tão ambiciosa. Sorrisos, amores, palpitações, sonhos, desilusões, desencontros e tragédias compõem o ramalhete descritivo de cada um, com modos de olhar e sentir bem diferentes, porque cada caso é um caso, e só quem está no convento sabe o que lá vai.




Aquele olhar, aquela voz, aquela esperança, aquela virtude e aquele futuro, quando partem de vez, deixam uma dor que nem o tempo consome, restando a força e a determinação para continuar, porque o mundo roda até ao suspiro final. Para todos. Há tristezas e tristezas, umas infinitas outras apenas dores que o tempo e as circunstâncias apagam. Um ano passou, outro mais e outro ainda, mais outros virão. Resta a saudade e a memória.




Mudamos tanto, tanto, tanto. Ora o sonho é um, ora a esperança é outra. O que nos aproxima hoje pode ser a razão para o afastamento amanhã, e a solução é procurar um sabor apelativo do gostar, porque somos -sempre fomos- pequeninos, embora, momentaneamente, julgados gigantes.




Olhando para o meu trajeto pictórico, apenas possível por tanta crença e determinação na luta por um ideal, apesar dos momentos menos bons e da frieza dos factos, foi um caminho de entrega e amor, com muito sonhar à mistura. O resto pouco importa.








E vos deixo com as palavras de Virgínia Woolf:




“ A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata.”

















quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Perdidos e achados









João Alfaro



Aguarela, 2007






Andei a arrumar o meu acervo onde guardo uma parte das obras que faço e que, como é normal com todos os artistas, se acumulam pelos espaços e se espalham pelos cantos e recantos. E foi neste reorganizar que encontrei obras que a memória esquece com o tempo. Tanto trabalho feito com dedicação e sonhos que hoje pouco ou nada querem dizer, porque somos outros na mudança e na circunstância.






O que faço com a minha pintura é aquilo que em determinada fase me parece importante, neste dialogar onde o silêncio é de ouro e a comunicação se faz pela especulação da imagem, e que é o significado das mensagens plásticas sem narrativas literárias, onde importa apenas o discurso da essência da significância. Formas, cores, sombras, luzes, texturas,  poses, são afinal uma teia de pensares que se reduzem a tão pouco, quando apenas se olha sem se ver e acontece tanto nas exposições, onde (parece) que o mais importante é aparecer e marcar presença pelas variadas razões que fazem da vivência um jogo de interesses e oportunidades.





O que apraz registar é o saborear das obras que fazem parte de mim e transportam consigo um código de conduta de um tempo e de um modo, numa eterna busca. O resto pouco importa, porque tudo é tão pouco, e o pouco é muito, quando um homem se põe a pensar.










E vos deixo com as palavras de Osho, in “Intimidade”, líder espiritual indiano nascido em 1931 e falecido em 1990 e que disse um dia:






“ A vida é uma busca – uma busca constante, uma busca desesperada, uma busca sem esperança, uma busca de algo que não sabe o que é....”

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A minha arte é ser eu.
















Gosto do exercício físico, concretamente,  corrida matinal pelos campos, saboreando o ar com o cheiro dos eucaliptos; gosto da minha música que é uma tonalidade clássica de sons; gosto de pintar porque me transporta para a magia da fantasia. Gosto de muitas outras coisas, muito comuns ao normal dos mortais, mas é vivendo estas três realidades que me transporto para devaneios. Não gosto da solidão e estou quase sempre na solidão, porque a pintura me obriga e a música também. É no viver de prazeres franciscanos que me realizo, fazendo do pouco muito e do muito quase nada. Sei que cada dia é sempre uma esperança e um sonho de conceber algo novo, mesmo que tudo diga que não. E sempre, sempre com a arte das cores. Agora em Tomar, na Casa dos Cubos, mais uma exposição de pintura e já a trabalhar para outro evento a realizar em outubro, com novas obras, onde a mulher é a razão primeira do encantamento, pelas melhores razões, mas nem sempre...





E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa que um dia escreveu , in inéditos:





“A Minha Arte é Ser Eu”.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Deixem-me sonhar














João Alfaro 


Exposição de pintura "No feminino"




Casa dos Cubos, Tomar

De quarta-feira a domingo, das 15:00 às 18:00 horas, até 28 de agosto








É verão e as temperaturas assustam. Neste rectângulo peninsular o importante agora é usufruir do tempo, do espaço e das suas gentes, esquecendo, obviamente, o lado inquietante dos muitos males que coexistem e, que mais cedo ou mais tarde, nos batem à porta. Agora o mais importante é saborear a alegria que o calor nos dá, esta paz lusa e olhar a beleza de um país encantador.



Depois de mais um atentado do crescendo islâmico e, perante a apatia confrangedora dos ocidentais, eu que adoro este modo de vida a norte do mediterrâneo, sabendo como acabou o império romano, constato que os caminhos do apogeu e da queda são agora tão visíveis e contemporâneos.




Nas muitas viagens que fiz por essa Europa, vi tanto de belo concebido por grandes mestres, que agora são escondidas as suas obras, para não chocar as mentes perversas de outros políticos ( a sul do mediterrâneo). Enfim... angélicas criaturas que, perante a nudez em pedra das esculturas ou pinturas renascentistas, ficam traumatizadas... 





Agora, mais do que nunca, gosto de pintar a nudez, sobretudo da mulher, com a representação dos comportamentos mais banais e sensíveis da intimidade. Dou tanto de mim, nesta entrega pictórica, como se fosse impositivo deixar o meu testemunho para as gerações futuras, perante a queda iminente da cultura ocidental, porque tudo ficará estilhaçado, como se apenas fosse importante acreditar em doutrinas de manuais de dúbia leitura e não nos Homens. 









E vos deixo com as palavras do filósofo alemão Friedrich Nietzche




“Vivemos num tempo em que a civilização periga morrer por meio da civilização.”

terça-feira, 5 de julho de 2016

Casa dos Cubos



















João Alfaro
"No Feminino", Pintura
Casa dos Cubos, Tomar 2016





A Casa dos Cubos em Tomar, que se ergue numa antiga fábrica,  foi reconstruída e transformada num espaço polivalente, destinado essencialmente a exposições temporárias.  E, porque há locais que nos atraem e cativam logo no primeiro instante, é com enorme satisfação que vejo trabalhos meus expostos aqui. O labiríntico e anacrónico jogo das cores e formas, numa espacialidade mergulhada na luz só por si geram um gostar de estar ali. Nada melhor que mostrar a minha pintura num ambiente tão singular e contemporâneo, onde a arquitetura arrojada se confronta com a temática milenar da representação figurativa do nu feminino.





Agora, mais do que nunca, gosto de colocar o meu trabalho em locais que sejam pontes de passagem, onde a beleza do espaço se articula com a pintura que faço. Aqui, apresento retratos da beleza da mulher, em momentos intimistas e serenos, num ambiente e num tempo de sol e luz, durante o mês de julho e agosto, porque sei que um mar de turistas visita a cidade e descobre os melhores e singulares espaços. Nada melhor que mostrar a tantos mais um vislumbre da pintura que me preenche, razão para continuar andando e mostrando num solitário modo de ser e estar.







E vos deixo com as palavras do poeta  Rainer Maria Rilke:




“ As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas.”

terça-feira, 28 de junho de 2016

No Feminino











Tomar 2016 é um momento especial para mim. Cidade com passado e uma arquitectura própria das pequenas urbes, cheia de visitantes de outras fronteiras europeias, preenche o meu imaginário de me deixar mostrar na pintura.




“No Feminino” é mais uma exposição que faço e, como todas as outras, procuro sempre apresentar um conjunto de obras que se enquadrem no espaço e, que estejam articuladas no projecto pictórico, que fazem parte do meu caminhar artístico. Os anos passam, as ideias também, mas o apêgo à arte e   toda envolvência aumenta sempre, como se fosse um elixir da existência, cada vez mais determinado e consistente. Por entre os pingos da chuva faço o meu caminho, que é apenas um solitário modo de gostar, de saborear quanto é bom ser pintor, num tempo de tanto desencontro com o tempo e suas gentes.




O que eu sei é viver o momento e só o momento. A minha pintura é o retrato do momento, porque o tempo tem um tempo que nunca se repete. Gosto de retratar momentos únicos, serenos, intimistas, sensuais e, sobretudo, como pintor que sou, um construtor de imagens perenes. Creio, convictamente, que apesar das modas e dos comportamentos e significados que o tempo define, há sempre momentos únicos que nada apagam, razão para tentar mostrar o meu olhar pela preciosidade de um instante, onde a beleza e a verdade sentida devem prevalecer. Sou assim: não ando agarrada à moda, que também é componente do presente temporal, mas eu apenas me deixo guiar  somente pelo sentir.






E vos deixo com as palavras do filósofo, poeta e ensaísta  Agostinho da Silva:



“A vida, para a vida, é sempre longa; mas para a arte é sempre breve; só quando se não faz nada há sempre tempo.”




quarta-feira, 15 de junho de 2016

Arte intimista













Escolhi esta tela como imagem de referência da próxima exposição de pintura que vou realizar, a partir do dia 1 de Julho, em Tomar, na Casa dos Cubos. Pinto, agora, a beleza feminina, tentando captar os momentos mágicos e solitários da magia que define cada um e, essencialmente, em momentos especiais, que são muitas vezes tão banais, mas carregados de simbolismo e, sobretudo, daqueles gestos únicos que gostamos tanto... ou, por causa deles, nos afastamos para sempre. Mas isso são outras histórias de vida, que a arte capta ou deveria destacar para questionar, porque é esse o seu papel, mas os tempos são outros, neste meu olhar.






Cada época tem os interesses maiores, que não são, de modo nenhum, os mais significativos e primordiais. Nada, ou quase nada, é como gostaríamos, porque o sentido crítico ou a postura negativista do estar transforma o bom em mau, o óptimo em execrável. É a falta de memória e  o dizer mal de tudo como se o sol fosse quente e radioso no inverno ou vice-versa. Nunca se está no sítio certo,  na hora correcta  e na plenitude do gostar.






É esta angústia, este eterno maldizer, este esconder e deixar a nu tanto oportunismo e inconsistência que arte procura levantar questões, mas os tempos são outros, porque sempre serão de insatisfação no mosaico heterogéneo de interesses e valores. Eu apenas me revelo no gostar da beleza que a mulher dá na pureza dos momentos mais simples e, provavelmente, mais sentidos e belos do ser e estar.







E vos deixo com as palavras do poeta e novelista russo Boris Pasternak que escreveu o livro “Doutor. Jivago” que li na minha adolescência e me fez olhar o mundo de um outro modo:







“A arte serve a beleza, e a beleza é a felicidade de possuir uma forma, e a forma é a chave orgânica da existência; tudo o que vive deve possuir uma forma para poder existir, e, portanto, a arte, mesmo a trágica, conta a felicidade da existência.”

terça-feira, 7 de junho de 2016

Assinatura














Cada trabalho é concluído e identificado com a assinatura. Esta acaba por ser também um símbolo, uma imagem de marca, não pelo conteúdo, mas pela forma. Escondida muitas vezes na imensidão da tela e, habitualmente, ( no meu caso ) no canto inferior direito ou esquerdo, pretende ser apenas o reconhecimento autoral. Em caso de dúvida, o nome é o meio certo para a sinalização do criador de cada trabalho. Acontece também que quase sempre é apenas um pequeno elemento que passa despercebido, porque o importante é a qualidade da obra e o que a pintura significa, e não o nome do autor... mas há os que gostam ( e muito) de sobressair a identificação. Feitios...







Junto da assinatura coloco também a data da conclusão e no reverso faço o mesmo, juntando a data precisa da assinatura, com o dia certo, e indicando sempre o nome da pintura. É o modo que uso para visualizar o desenvolvimento do trabalho anual. Tempos houve em que registava em diferentes suportes cada obra. Agora porque a internet é uma janela abertura ao mundo e, porque também é,  o processo mais simples de mostrar o que faço, é a fórmula por excelência que uso. Fica lá tudo. Cada vez estou mais longe dos papéis, que apenas me servem para desenhar e desenhar.







Num tempo novo, em que a tecnologia substitui os hábitos seculares, paradoxalmente, agarro-me à pintura tradicional – papéis e telas – embora utilize processos contemporâneos de trabalho, mas ciente que vivo uma realidade cada vez mais distante ou, eu não fosse eu um longínquo errante.







E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa que escreveu in “Carta a Miguel Torga, 1930”:





” Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade....”



quarta-feira, 1 de junho de 2016

A voz do desejo











“Natureza XII/XII”
Pintura sobre tela de 60 X 100 cm






Chegou ao fim esta primeira série de doze telas sobre a temática da natureza. Outras se seguirão. Eu trabalho sempre explorando várias vertentes do mesmo tema, até reunir o conjunto que mereça alguma apreciação. Como é hábito meu, as obras precisam de muito trabalho prévio, de estudos múltiplos para alcançar a meta pretendida. É sempre tão difícil chegar a bom porto, o que torna, paradoxalmente, mais aliciante ainda a luta e a persistência. Se fosse fácil- e a pintura, pode ser um território de facilitismos - não estaria ainda aqui, neste maravilhoso pesquisar enfatizado, como se fosse o melhor dos mundos, longe, portanto, de tanto e de tantos. É, no entanto, este rigor laboral e esta exigência que me prende a viver deste modo tão celibatário e, em simultâneo, tão cheio de emoções e de sonhares. E vale a pena, porque o caminho de cada um é o encontro do sonho e da realidade.







Pintar é, sobretudo, um estar isolado horas a fio, onde apenas a música (trabalho sempre com melodias clássicas) é a companhia certa. Pontualmente um ou outro imprevisto quebra a monotonia. Quanto mais tempo pinto, mais tempo preciso de pintar e só paro quando uma voz me chama. Uma voz celeste que o tempo não esquece. Nunca.



E vos deixo com as palavras de Steve Jobs:




“Se estás a trabalhar em algo excitante e do qual tu gostas mesmo muito, não precisas de ser pressionado para ter mais resultados. A tua própria visão puxa-te para a frente.”



segunda-feira, 23 de maio de 2016

No sítio certo















João Alfaro

“Natureza XI”, 2016
Pintura sobre tela de 50 x 120 cm






Há um lugar para tudo: nos mais nobres ou funestos locais; ora engrandecidos pela beleza e historial do espaço e da magia encantatória que existe em momentos e em circunstâncias; ora  no esquecimento ou num qualquer horripilante lugarejo. É assim com tudo, até com as pessoas: enaltecidas ou propositadamente esquecidas.




Uma pintura, por muito afecto e carinho com que foi feita (creio que acontece muito com toda a gente que pinta), tem sempre que ficar em algum lugar. Como é normal arrumada num canto e é fácil perceber porquê. Não há paredes para sustentar tanta produção que se faz em todo o lado. São muitos os que tanto produzem e nunca conseguem mostrar a entrega e o amor dedicado ao trabalho artístico. Mas há os outros: aqueles que o tempo passa e a obra fica para gerações futuras usufruírem do imaginário de um tempo e de um modo. É entre estes dois mundos que o artista vagueia. Mas primeiro é preciso trabalhar muito, sempre com verdade e entrega absoluta, como é o amor, porque de amor se trata. Depois outras contingências farão os caminhos do esquecimento ou da glorificação. Mas isso é outra conversa, para outro momento.





Agora, neste meu caminhar, a preparar telas para um espaço previamente concebido. Resta-me aguardar para ver se o que faço terá ou não algum impacto depois de tanta entrega e amor, obviamente..







E vos deixo com as palavras do escritor inglês que viveu de 1874 a 1965 , William Maugham:





“A arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade.”

terça-feira, 17 de maio de 2016

Estados de alma










João Alfaro



“Auto-retrato”, 2016
Pastel de óleo e lápis de cor sobre cartolina.






Uns dias sorrindo, outros nem tanto, outros ainda mergulhado nos pensamentos negros ou coloridos é o viver de todos, agora e sempre.








E vos deixo com as palavras de Florbela Espanca:



“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!.”



quarta-feira, 11 de maio de 2016

O meu caminhar







João Alfaro


“Natureza X”, 2016


Pintura sobre tela de 60 x 100 cm







Cada novo desafio é uma procura. O objetivo é criar plasticamente uma imagem que seja apelativa, coerente com o percurso individual e integrada nos modelos contemporâneos da arte. É muito difícil fazer seja o que for de inovador, mas todos os dias há sempre grandes novidades na ciência e na técnica, que transformam a vida das pessoas com o surgimento de meios novos, que se pretendem facilitadores no viver. Basta pensar nas novas tecnologias da informação e o que isso implica no comportamento social. A arte acompanha as constantes mudanças, quer com a introdução de novos materiais de apoio e de incorporação nas obras, quer com a envolvência global e troca de informação entre todos os agentes criadores e fruidores.




Ciente da necessidade de fazer parte de um tempo – o tempo presente, porque não há outro – e de pintar dentro do espírito da inovação e dos processos mais recentes, porque  repisar nas mesmas teclas e repetir o que outros já fizeram não faz sentido, nem é atraente, todavia, é bom também destacar a coerência e o lado cativante no caminhar e nos propósitos que cada um escolhe. Eu escolhi o prazer de lidar com os materiais, saborear todo o processo e ter o controle absoluto e único no fazer.  Sem pressa nem fantasias. Outros não.



Pintar a natureza e obter resultados tão similares a tantos de outras épocas, não é de modo nenhum inovar, é apenas um usufruir do prazer da concepção. Só isso. Agora ainda numa fase de estudo, embora sejam telas de alguma dimensão, tudo o que estou a fazer  é um iniciar para outros patamares e objetivos bem diferentes, daí este meu eterno fascínio pelo espalhar as cores numa superfície, independentemente das tendências da moda. Para breve a amostragem num espaço sui generis.




E vos deixo com as palavras do ensaísta e romancista argentino Ernesto Sábato que escreveu:







“As modas são legítimas nas coisas menores, como o vestuário. No pensamento e na arte, são abomináveis.”

terça-feira, 3 de maio de 2016

Quando











Quando a folha branca continua branca;

 quando a tela não muda de cor e persiste na tonalidade original;

 quando os dias passam e tudo fica igual;

quando querendo mudar tanto, nada muda;

 quando se quer colorir os dias e a pintura não nasce;

 quando o supérfluo é suficiente para a desculpa do não realizar;

quando o branco continua branco, talvez um dia mude de cor.

Talvez.




E vos deixo com as palavras do compositor, comediógrafo, escritor, dramaturgo e crítico  Bernard Shaw:



“Os espelhos são usados para ver a cara. A arte, para ver a alma.”

domingo, 24 de abril de 2016

Não são cravos não






“Natureza X” , 2016


Pintura sobre tela de 54 X 81 cm




Aquele adolescente que viu chegar, aqui, o dia que mudou a vida de todos, é hoje outro. O país também. E muito. As ideias fantasiosas de um amanhã cheio de luminosidade vieram apenas demonstrar que a natureza humana ora esquece, ora deturpa, ora mitifica isto e aquilo. Da esperança ao desencanto foi o que aconteceu, e,  ao ver, com olhos de ver, tanto oportunismo, tanta injustiça, tanta hipocrisia, tanta falsidade, tanto bofetear este povo, que deu cartas ao mundo, sereno e sensato,  e que lá vai lutando, apesar de  resignado muitas vezes, apoiando os seus heróis ideológicos, que apenas são capas para ocultar a verdade escondida nas sociedades secretas, transversais aos partidos onde ,realmente, se traça o destino de todos. É tão bom gritar alto o que nos vai na alma, sem constrangimentos e sem medos. Mas difícil é acreditar, quando já não se acredita. Amanhã é outro dia e talvez renasça a esperança. Talvez. Com gente mais séria, solidária, onde a justiça não seja um emaranhado de labirínticos caminhos; a educação um espaço de debate e aprendizagem e não um território de subserviência à libertinagem; a segurança um valor maior e não com a sua inversão. Enfim, um país feliz e não, como acontece hoje, tanta gente sem esperança, apesar de tudo de bom e sublime que foi feito nestas quatro décadas e que nos orgulha a todos.







 Não são cravos não. Indiferente à grandeza e à miséria dos homens a primavera chega todos os anos cheia de cores, cheiros e formas, enchendo os campos silvestres num frenesim de vida e azáfama animal. Como observador basta-me a paleta e a pintura surge naturalmente como reflexo do vivido e sentido. Esta série de doze telas sobre a natureza nasceu pela necessidade da descoberta constante e da procura persistente, porque viver é pesquisar. Sempre. Ou não fosse a arte um caminho de interrogação e de esperança.






E vos deixo com as palavras da escritora e filósofa francesa  Simone de Beauvoir que um dia disse:





“Em todas as lágrimas há uma esperança.”








segunda-feira, 18 de abril de 2016

Pelos caminhos do costume







“Natureza VII e VIII”
Pintura sobre tela de 30 x 100 cm cada




Por onde agora ando, o que faço, como vejo o que me cerca, acaba por constar na minha pintura. Ela é o retrato dos caminhos do costume. Com gente dentro, mesmo que seja a ausência a maior presença. Pelos meus caminhos procuro sempre olhar o lado belo da aparência. Ou é uma nuvem, mesmo muito carregada e anunciadora de um tempo agreste, todavia com cores vibrantes; ou é o vento que move o arvoredo e deixa ver as tonalidades escondidas quando o sol brilha ; ou é a chuva que cria espaços novos com a água que corre aqui e ali. Tenho um modo de ver e olhar para as coisas não como elas são, mas somente pintura em movimento com pessoas e espaços. Quero-me afundar neste deixar andar. Pouco mais espero das emoções da alma, apenas desejo saborear o pintar, comungar e deixar correr os dias, sempre na procura de novas propostas pictóricas. Basta-me pouco. Quase nada. E é tanto.



Agora, de novo, numa azáfama tenho de pintar doze telas para um espaço preconcebido, num tempo breve. O tema é a natureza, referência constante na história da arte. O que me fascina neste pintar diário é o surgimento de iniciativas que me levam a descobrir novos caminhos aliciantes. Como é bom. Sempre numa entrega obsessiva tudo caminha para o costume.






E vos deixo com as palavras do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche que um dia disse:



“Temos a arte para não morrer da verdade.”

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Quando um artista morre









Homenagem póstuma ao artista António Galvão






Quando um artista morre resta a saudade dos seus e um espólio para outros vindouros. Na escrita, nos espectáculos de palco, nas artes plásticas, no cinema e em todo o lado, fica o rasto da passagem dos que, pela paixão e entrega, criaram um mundo de fantasia e esperança, em que a morte física é apenas uma etapa até ao esquecimento final.



Quando um artista morre é lembrado o percurso e o conteúdo da mensagem de tanta energia comunicativa que a arte transporta. Fazem-se homenagens, colocam-se placas aqui e ali, flores, lágrimas e um vazio.



Quando um artista morre deixa uma marca neste universo de insignificância, que é a eterna procura do significado da nossa existência e o porquê dela.



Quando um artista morre, na catalogação da sua obra, surgem uns e outros circundando ora no silêncio e no afastamento, ora na presença e comunhão do legado. Venha o diabo e escolha o bom do mau, o péssimo do maravilhoso, o criador do repetitivo.



Quando um artista morre é porque nos deixou não deixando, ou deixando morreu antes do tempo. Mas amanhã é outro dia e, talvez, surja um outro artista e outros caminhos pela descoberta dos mistérios da vida.



E, vos deixo com as palavras do filósofo e escritor francês, que viveu no século XVIII, Jean Jacques Rousseau:




“Morro aos poucos em todos aqueles que gostam de mim.”

segunda-feira, 4 de abril de 2016

5/12










João Alfaro

Pinturas sobre tela ( primeiros esboços)




Agora tenho em mãos um novo projecto que é, como todos os outros no domínio pictórico, um desafio que se traduz em pintar, para um espaço belíssimo, doze telas em que a temática é a natureza, para que faça sentido a relação entre a arte e o enquadramento envolvente. Por breves instantes tive de interromper a temática que agora predomina na minha pintura e que surgiu também de um desafio que me foi apresentado então. Do que gosto mesmo é de ir desbravando caminhos numa eterna procura, para que faça sentido e seja aliciante o esforço e a dedicação, porque, tal como na vida, a monotonia é o que nos destrói e nada melhor que procurar e procurar sempre novos desafios, mesmo sabendo que tudo deixa um rasto, e na pintura uns temas conduzem a outros, como acontece no dia a dia.


Quando me é proposto um trabalho procuro sempre, até chegar ao objecto final, fazer muitos estudos e provas extras, porque só assim se consegue aperfeiçoar o pretendido. Fica, no entanto, sempre em mim um sentimento de inquietude e de não ter atingido o desejado. Sou assim. Entre as dúvidas, os medos e a certeza o que fica é o momento e o sonho.




E vos deixo com as palavras da poetisa Florbela Espanca, que um dia escreveu:



“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!”

segunda-feira, 14 de março de 2016

Continuar é o caminho











Mais uma exposição da minha pintura que chega ao fim. Num espaço polivalente, onde a expressividade plástica tem obviamente lugar, no intuito único de captar novos públicos, a minha aposta atual é mostrar como a pintura se enquadra em ambientes diferenciados, daí a razão para ter escolhido o Atrás das Artes, onde em simultâneo se realizaram dois eventos musicais, num salutar convívio entre as artes e os fruidores.

Para breve duas outras exposições estão já marcadas para o próximo verão e outono em cidades diferentes, com outras obras (algumas ainda por acabar) e que, como é temática recorrente agora, procuram descrever o meu olhar pela beleza feminina.

Recebi muito recentemente uma proposta para uma exposição em Lisboa, que irei pintar de acordo com o tema solicitado: o banho. É o desafio constante que me move e me faz caminhar e continuar sempre, mesmo sabendo quanta ingrata é tanta apatia e indiferença, mas só se chega mais longe com trabalho, muita persistência e crença. Eu adoro pintar e isso me aconchega. Muito.


E vos deixo com as palavras do escritor francês Valéry Larbaud, que um dia disse:


“A arte é ainda a única forma suportável da vida; é o maior prazer, e o que se esgota menos depressa.“



segunda-feira, 7 de março de 2016

Enquanto dura
















Sempre que faço uma exposição a inquietude domina o meu espírito. O contínuo desejo de usufruir da contemplação das obras ordenadas num ambiente novo e, alvo da observação de outros, mais os juízos de valor díspares sobre o meu trabalho, fazem-me sair do meu casulo, da toca que é o meu abrigo protetor. A arte só faz sentido se for abrangente e  visualizada por muitos mais. Eu bem tento chegar a tantos, mas os caminhos são íngremes e dependentes de outros interesses, contudo, confesso: basta-me o que me basta. Tenho dito.



Até 16 de março, em Torres Novas, no Atrás das Artes.



E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa  in, “Carta a Miguel Torga, 1930”:



“ Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade.”