terça-feira, 5 de julho de 2016

Casa dos Cubos



















João Alfaro
"No Feminino", Pintura
Casa dos Cubos, Tomar 2016





A Casa dos Cubos em Tomar, que se ergue numa antiga fábrica,  foi reconstruída e transformada num espaço polivalente, destinado essencialmente a exposições temporárias.  E, porque há locais que nos atraem e cativam logo no primeiro instante, é com enorme satisfação que vejo trabalhos meus expostos aqui. O labiríntico e anacrónico jogo das cores e formas, numa espacialidade mergulhada na luz só por si geram um gostar de estar ali. Nada melhor que mostrar a minha pintura num ambiente tão singular e contemporâneo, onde a arquitetura arrojada se confronta com a temática milenar da representação figurativa do nu feminino.





Agora, mais do que nunca, gosto de colocar o meu trabalho em locais que sejam pontes de passagem, onde a beleza do espaço se articula com a pintura que faço. Aqui, apresento retratos da beleza da mulher, em momentos intimistas e serenos, num ambiente e num tempo de sol e luz, durante o mês de julho e agosto, porque sei que um mar de turistas visita a cidade e descobre os melhores e singulares espaços. Nada melhor que mostrar a tantos mais um vislumbre da pintura que me preenche, razão para continuar andando e mostrando num solitário modo de ser e estar.







E vos deixo com as palavras do poeta  Rainer Maria Rilke:




“ As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas.”

terça-feira, 28 de junho de 2016

No Feminino











Tomar 2016 é um momento especial para mim. Cidade com passado e uma arquitectura própria das pequenas urbes, cheia de visitantes de outras fronteiras europeias, preenche o meu imaginário de me deixar mostrar na pintura.




“No Feminino” é mais uma exposição que faço e, como todas as outras, procuro sempre apresentar um conjunto de obras que se enquadrem no espaço e, que estejam articuladas no projecto pictórico, que fazem parte do meu caminhar artístico. Os anos passam, as ideias também, mas o apêgo à arte e   toda envolvência aumenta sempre, como se fosse um elixir da existência, cada vez mais determinado e consistente. Por entre os pingos da chuva faço o meu caminho, que é apenas um solitário modo de gostar, de saborear quanto é bom ser pintor, num tempo de tanto desencontro com o tempo e suas gentes.




O que eu sei é viver o momento e só o momento. A minha pintura é o retrato do momento, porque o tempo tem um tempo que nunca se repete. Gosto de retratar momentos únicos, serenos, intimistas, sensuais e, sobretudo, como pintor que sou, um construtor de imagens perenes. Creio, convictamente, que apesar das modas e dos comportamentos e significados que o tempo define, há sempre momentos únicos que nada apagam, razão para tentar mostrar o meu olhar pela preciosidade de um instante, onde a beleza e a verdade sentida devem prevalecer. Sou assim: não ando agarrada à moda, que também é componente do presente temporal, mas eu apenas me deixo guiar  somente pelo sentir.






E vos deixo com as palavras do filósofo, poeta e ensaísta  Agostinho da Silva:



“A vida, para a vida, é sempre longa; mas para a arte é sempre breve; só quando se não faz nada há sempre tempo.”




quarta-feira, 15 de junho de 2016

Arte intimista













Escolhi esta tela como imagem de referência da próxima exposição de pintura que vou realizar, a partir do dia 1 de Julho, em Tomar, na Casa dos Cubos. Pinto, agora, a beleza feminina, tentando captar os momentos mágicos e solitários da magia que define cada um e, essencialmente, em momentos especiais, que são muitas vezes tão banais, mas carregados de simbolismo e, sobretudo, daqueles gestos únicos que gostamos tanto... ou, por causa deles, nos afastamos para sempre. Mas isso são outras histórias de vida, que a arte capta ou deveria destacar para questionar, porque é esse o seu papel, mas os tempos são outros, neste meu olhar.






Cada época tem os interesses maiores, que não são, de modo nenhum, os mais significativos e primordiais. Nada, ou quase nada, é como gostaríamos, porque o sentido crítico ou a postura negativista do estar transforma o bom em mau, o óptimo em execrável. É a falta de memória e  o dizer mal de tudo como se o sol fosse quente e radioso no inverno ou vice-versa. Nunca se está no sítio certo,  na hora correcta  e na plenitude do gostar.






É esta angústia, este eterno maldizer, este esconder e deixar a nu tanto oportunismo e inconsistência que arte procura levantar questões, mas os tempos são outros, porque sempre serão de insatisfação no mosaico heterogéneo de interesses e valores. Eu apenas me revelo no gostar da beleza que a mulher dá na pureza dos momentos mais simples e, provavelmente, mais sentidos e belos do ser e estar.







E vos deixo com as palavras do poeta e novelista russo Boris Pasternak que escreveu o livro “Doutor. Jivago” que li na minha adolescência e me fez olhar o mundo de um outro modo:







“A arte serve a beleza, e a beleza é a felicidade de possuir uma forma, e a forma é a chave orgânica da existência; tudo o que vive deve possuir uma forma para poder existir, e, portanto, a arte, mesmo a trágica, conta a felicidade da existência.”

terça-feira, 7 de junho de 2016

Assinatura














Cada trabalho é concluído e identificado com a assinatura. Esta acaba por ser também um símbolo, uma imagem de marca, não pelo conteúdo, mas pela forma. Escondida muitas vezes na imensidão da tela e, habitualmente, ( no meu caso ) no canto inferior direito ou esquerdo, pretende ser apenas o reconhecimento autoral. Em caso de dúvida, o nome é o meio certo para a sinalização do criador de cada trabalho. Acontece também que quase sempre é apenas um pequeno elemento que passa despercebido, porque o importante é a qualidade da obra e o que a pintura significa, e não o nome do autor... mas há os que gostam ( e muito) de sobressair a identificação. Feitios...







Junto da assinatura coloco também a data da conclusão e no reverso faço o mesmo, juntando a data precisa da assinatura, com o dia certo, e indicando sempre o nome da pintura. É o modo que uso para visualizar o desenvolvimento do trabalho anual. Tempos houve em que registava em diferentes suportes cada obra. Agora porque a internet é uma janela abertura ao mundo e, porque também é,  o processo mais simples de mostrar o que faço, é a fórmula por excelência que uso. Fica lá tudo. Cada vez estou mais longe dos papéis, que apenas me servem para desenhar e desenhar.







Num tempo novo, em que a tecnologia substitui os hábitos seculares, paradoxalmente, agarro-me à pintura tradicional – papéis e telas – embora utilize processos contemporâneos de trabalho, mas ciente que vivo uma realidade cada vez mais distante ou, eu não fosse eu um longínquo errante.







E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa que escreveu in “Carta a Miguel Torga, 1930”:





” Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade....”



quarta-feira, 1 de junho de 2016

A voz do desejo











“Natureza XII/XII”
Pintura sobre tela de 60 X 100 cm






Chegou ao fim esta primeira série de doze telas sobre a temática da natureza. Outras se seguirão. Eu trabalho sempre explorando várias vertentes do mesmo tema, até reunir o conjunto que mereça alguma apreciação. Como é hábito meu, as obras precisam de muito trabalho prévio, de estudos múltiplos para alcançar a meta pretendida. É sempre tão difícil chegar a bom porto, o que torna, paradoxalmente, mais aliciante ainda a luta e a persistência. Se fosse fácil- e a pintura, pode ser um território de facilitismos - não estaria ainda aqui, neste maravilhoso pesquisar enfatizado, como se fosse o melhor dos mundos, longe, portanto, de tanto e de tantos. É, no entanto, este rigor laboral e esta exigência que me prende a viver deste modo tão celibatário e, em simultâneo, tão cheio de emoções e de sonhares. E vale a pena, porque o caminho de cada um é o encontro do sonho e da realidade.







Pintar é, sobretudo, um estar isolado horas a fio, onde apenas a música (trabalho sempre com melodias clássicas) é a companhia certa. Pontualmente um ou outro imprevisto quebra a monotonia. Quanto mais tempo pinto, mais tempo preciso de pintar e só paro quando uma voz me chama. Uma voz celeste que o tempo não esquece. Nunca.



E vos deixo com as palavras de Steve Jobs:




“Se estás a trabalhar em algo excitante e do qual tu gostas mesmo muito, não precisas de ser pressionado para ter mais resultados. A tua própria visão puxa-te para a frente.”



segunda-feira, 23 de maio de 2016

No sítio certo















João Alfaro

“Natureza XI”, 2016
Pintura sobre tela de 50 x 120 cm






Há um lugar para tudo: nos mais nobres ou funestos locais; ora engrandecidos pela beleza e historial do espaço e da magia encantatória que existe em momentos e em circunstâncias; ora  no esquecimento ou num qualquer horripilante lugarejo. É assim com tudo, até com as pessoas: enaltecidas ou propositadamente esquecidas.




Uma pintura, por muito afecto e carinho com que foi feita (creio que acontece muito com toda a gente que pinta), tem sempre que ficar em algum lugar. Como é normal arrumada num canto e é fácil perceber porquê. Não há paredes para sustentar tanta produção que se faz em todo o lado. São muitos os que tanto produzem e nunca conseguem mostrar a entrega e o amor dedicado ao trabalho artístico. Mas há os outros: aqueles que o tempo passa e a obra fica para gerações futuras usufruírem do imaginário de um tempo e de um modo. É entre estes dois mundos que o artista vagueia. Mas primeiro é preciso trabalhar muito, sempre com verdade e entrega absoluta, como é o amor, porque de amor se trata. Depois outras contingências farão os caminhos do esquecimento ou da glorificação. Mas isso é outra conversa, para outro momento.





Agora, neste meu caminhar, a preparar telas para um espaço previamente concebido. Resta-me aguardar para ver se o que faço terá ou não algum impacto depois de tanta entrega e amor, obviamente..







E vos deixo com as palavras do escritor inglês que viveu de 1874 a 1965 , William Maugham:





“A arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade.”

terça-feira, 17 de maio de 2016

Estados de alma










João Alfaro



“Auto-retrato”, 2016
Pastel de óleo e lápis de cor sobre cartolina.






Uns dias sorrindo, outros nem tanto, outros ainda mergulhado nos pensamentos negros ou coloridos é o viver de todos, agora e sempre.








E vos deixo com as palavras de Florbela Espanca:



“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!.”