quarta-feira, 1 de junho de 2016

A voz do desejo











“Natureza XII/XII”
Pintura sobre tela de 60 X 100 cm






Chegou ao fim esta primeira série de doze telas sobre a temática da natureza. Outras se seguirão. Eu trabalho sempre explorando várias vertentes do mesmo tema, até reunir o conjunto que mereça alguma apreciação. Como é hábito meu, as obras precisam de muito trabalho prévio, de estudos múltiplos para alcançar a meta pretendida. É sempre tão difícil chegar a bom porto, o que torna, paradoxalmente, mais aliciante ainda a luta e a persistência. Se fosse fácil- e a pintura, pode ser um território de facilitismos - não estaria ainda aqui, neste maravilhoso pesquisar enfatizado, como se fosse o melhor dos mundos, longe, portanto, de tanto e de tantos. É, no entanto, este rigor laboral e esta exigência que me prende a viver deste modo tão celibatário e, em simultâneo, tão cheio de emoções e de sonhares. E vale a pena, porque o caminho de cada um é o encontro do sonho e da realidade.







Pintar é, sobretudo, um estar isolado horas a fio, onde apenas a música (trabalho sempre com melodias clássicas) é a companhia certa. Pontualmente um ou outro imprevisto quebra a monotonia. Quanto mais tempo pinto, mais tempo preciso de pintar e só paro quando uma voz me chama. Uma voz celeste que o tempo não esquece. Nunca.



E vos deixo com as palavras de Steve Jobs:




“Se estás a trabalhar em algo excitante e do qual tu gostas mesmo muito, não precisas de ser pressionado para ter mais resultados. A tua própria visão puxa-te para a frente.”



segunda-feira, 23 de maio de 2016

No sítio certo















João Alfaro

“Natureza XI”, 2016
Pintura sobre tela de 50 x 120 cm






Há um lugar para tudo: nos mais nobres ou funestos locais; ora engrandecidos pela beleza e historial do espaço e da magia encantatória que existe em momentos e em circunstâncias; ora  no esquecimento ou num qualquer horripilante lugarejo. É assim com tudo, até com as pessoas: enaltecidas ou propositadamente esquecidas.




Uma pintura, por muito afecto e carinho com que foi feita (creio que acontece muito com toda a gente que pinta), tem sempre que ficar em algum lugar. Como é normal arrumada num canto e é fácil perceber porquê. Não há paredes para sustentar tanta produção que se faz em todo o lado. São muitos os que tanto produzem e nunca conseguem mostrar a entrega e o amor dedicado ao trabalho artístico. Mas há os outros: aqueles que o tempo passa e a obra fica para gerações futuras usufruírem do imaginário de um tempo e de um modo. É entre estes dois mundos que o artista vagueia. Mas primeiro é preciso trabalhar muito, sempre com verdade e entrega absoluta, como é o amor, porque de amor se trata. Depois outras contingências farão os caminhos do esquecimento ou da glorificação. Mas isso é outra conversa, para outro momento.





Agora, neste meu caminhar, a preparar telas para um espaço previamente concebido. Resta-me aguardar para ver se o que faço terá ou não algum impacto depois de tanta entrega e amor, obviamente..







E vos deixo com as palavras do escritor inglês que viveu de 1874 a 1965 , William Maugham:





“A arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade.”

terça-feira, 17 de maio de 2016

Estados de alma










João Alfaro



“Auto-retrato”, 2016
Pastel de óleo e lápis de cor sobre cartolina.






Uns dias sorrindo, outros nem tanto, outros ainda mergulhado nos pensamentos negros ou coloridos é o viver de todos, agora e sempre.








E vos deixo com as palavras de Florbela Espanca:



“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!.”



quarta-feira, 11 de maio de 2016

O meu caminhar







João Alfaro


“Natureza X”, 2016


Pintura sobre tela de 60 x 100 cm







Cada novo desafio é uma procura. O objetivo é criar plasticamente uma imagem que seja apelativa, coerente com o percurso individual e integrada nos modelos contemporâneos da arte. É muito difícil fazer seja o que for de inovador, mas todos os dias há sempre grandes novidades na ciência e na técnica, que transformam a vida das pessoas com o surgimento de meios novos, que se pretendem facilitadores no viver. Basta pensar nas novas tecnologias da informação e o que isso implica no comportamento social. A arte acompanha as constantes mudanças, quer com a introdução de novos materiais de apoio e de incorporação nas obras, quer com a envolvência global e troca de informação entre todos os agentes criadores e fruidores.




Ciente da necessidade de fazer parte de um tempo – o tempo presente, porque não há outro – e de pintar dentro do espírito da inovação e dos processos mais recentes, porque  repisar nas mesmas teclas e repetir o que outros já fizeram não faz sentido, nem é atraente, todavia, é bom também destacar a coerência e o lado cativante no caminhar e nos propósitos que cada um escolhe. Eu escolhi o prazer de lidar com os materiais, saborear todo o processo e ter o controle absoluto e único no fazer.  Sem pressa nem fantasias. Outros não.



Pintar a natureza e obter resultados tão similares a tantos de outras épocas, não é de modo nenhum inovar, é apenas um usufruir do prazer da concepção. Só isso. Agora ainda numa fase de estudo, embora sejam telas de alguma dimensão, tudo o que estou a fazer  é um iniciar para outros patamares e objetivos bem diferentes, daí este meu eterno fascínio pelo espalhar as cores numa superfície, independentemente das tendências da moda. Para breve a amostragem num espaço sui generis.




E vos deixo com as palavras do ensaísta e romancista argentino Ernesto Sábato que escreveu:







“As modas são legítimas nas coisas menores, como o vestuário. No pensamento e na arte, são abomináveis.”

terça-feira, 3 de maio de 2016

Quando











Quando a folha branca continua branca;

 quando a tela não muda de cor e persiste na tonalidade original;

 quando os dias passam e tudo fica igual;

quando querendo mudar tanto, nada muda;

 quando se quer colorir os dias e a pintura não nasce;

 quando o supérfluo é suficiente para a desculpa do não realizar;

quando o branco continua branco, talvez um dia mude de cor.

Talvez.




E vos deixo com as palavras do compositor, comediógrafo, escritor, dramaturgo e crítico  Bernard Shaw:



“Os espelhos são usados para ver a cara. A arte, para ver a alma.”

domingo, 24 de abril de 2016

Não são cravos não






“Natureza X” , 2016


Pintura sobre tela de 54 X 81 cm




Aquele adolescente que viu chegar, aqui, o dia que mudou a vida de todos, é hoje outro. O país também. E muito. As ideias fantasiosas de um amanhã cheio de luminosidade vieram apenas demonstrar que a natureza humana ora esquece, ora deturpa, ora mitifica isto e aquilo. Da esperança ao desencanto foi o que aconteceu, e,  ao ver, com olhos de ver, tanto oportunismo, tanta injustiça, tanta hipocrisia, tanta falsidade, tanto bofetear este povo, que deu cartas ao mundo, sereno e sensato,  e que lá vai lutando, apesar de  resignado muitas vezes, apoiando os seus heróis ideológicos, que apenas são capas para ocultar a verdade escondida nas sociedades secretas, transversais aos partidos onde ,realmente, se traça o destino de todos. É tão bom gritar alto o que nos vai na alma, sem constrangimentos e sem medos. Mas difícil é acreditar, quando já não se acredita. Amanhã é outro dia e talvez renasça a esperança. Talvez. Com gente mais séria, solidária, onde a justiça não seja um emaranhado de labirínticos caminhos; a educação um espaço de debate e aprendizagem e não um território de subserviência à libertinagem; a segurança um valor maior e não com a sua inversão. Enfim, um país feliz e não, como acontece hoje, tanta gente sem esperança, apesar de tudo de bom e sublime que foi feito nestas quatro décadas e que nos orgulha a todos.







 Não são cravos não. Indiferente à grandeza e à miséria dos homens a primavera chega todos os anos cheia de cores, cheiros e formas, enchendo os campos silvestres num frenesim de vida e azáfama animal. Como observador basta-me a paleta e a pintura surge naturalmente como reflexo do vivido e sentido. Esta série de doze telas sobre a natureza nasceu pela necessidade da descoberta constante e da procura persistente, porque viver é pesquisar. Sempre. Ou não fosse a arte um caminho de interrogação e de esperança.






E vos deixo com as palavras da escritora e filósofa francesa  Simone de Beauvoir que um dia disse:





“Em todas as lágrimas há uma esperança.”








segunda-feira, 18 de abril de 2016

Pelos caminhos do costume







“Natureza VII e VIII”
Pintura sobre tela de 30 x 100 cm cada




Por onde agora ando, o que faço, como vejo o que me cerca, acaba por constar na minha pintura. Ela é o retrato dos caminhos do costume. Com gente dentro, mesmo que seja a ausência a maior presença. Pelos meus caminhos procuro sempre olhar o lado belo da aparência. Ou é uma nuvem, mesmo muito carregada e anunciadora de um tempo agreste, todavia com cores vibrantes; ou é o vento que move o arvoredo e deixa ver as tonalidades escondidas quando o sol brilha ; ou é a chuva que cria espaços novos com a água que corre aqui e ali. Tenho um modo de ver e olhar para as coisas não como elas são, mas somente pintura em movimento com pessoas e espaços. Quero-me afundar neste deixar andar. Pouco mais espero das emoções da alma, apenas desejo saborear o pintar, comungar e deixar correr os dias, sempre na procura de novas propostas pictóricas. Basta-me pouco. Quase nada. E é tanto.



Agora, de novo, numa azáfama tenho de pintar doze telas para um espaço preconcebido, num tempo breve. O tema é a natureza, referência constante na história da arte. O que me fascina neste pintar diário é o surgimento de iniciativas que me levam a descobrir novos caminhos aliciantes. Como é bom. Sempre numa entrega obsessiva tudo caminha para o costume.






E vos deixo com as palavras do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche que um dia disse:



“Temos a arte para não morrer da verdade.”