quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Janela Indiscreta

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Uma exposição de pintura é sempre uma janela aberta, indiscreta, sem dúvida. Está lá tudo: não são precisas palavras, nem sons, e nada fica oculto pela imaginação do querer descobrir, o que o artista tem para dizer, através dos caminhos da arte.
 
Para memória futura fiz este vídeo que é uma associação de obras com uma temática própria, definidora de um tempo e de um modo de olhar e ver o mundo. Se a frieza e o distanciamento silenciosos parecem caracterizar o meu viver, a pintura, acho eu, pelo contrário, traduz a verdade sem as máscaras e os trejeitos sociais. E há tanto para contar sobre a beleza e o encantamento, que nunca o tempo basta para o muito que outros querem conviver, mas porque só se vive uma vez e o tempo tem as regras que tem, os prazeres possíveis traduzem-se maioritariamente no apego às artes, que são o meu refúgio e alimento, que é, afinal, a tradução da simplicidade do viver, com a sensação que há um testemunho que ficará para vindouros, sem os vícios e defeitos mil do presente, mas apenas com o registo do que fica, que é o amor pela arte e pelas pessoas singelas, neste viver de janelas indiscretas.
 
 
E, porque se recorda, agora, os oitenta anos do falecimento de Fernando Pessoa, vos deixo com um poema, do “Livro do Desassossego”:
 
“Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.”
  
 


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Fim da linha

 
 
 
 
 
 
 
 

João Alfaro, 2015
Prendas de Natal
 
 
 
O Natal está a chegar. Todos os anos esta quadra é um mar de esperança: uns convictos, outros nem tanto. Há que acreditar e continuar naquilo que nos move, mesmo que, aparentemente, tudo indique que o sonho acabou. De sonhares se fazem os dias e se constroem os desejos. Realizáveis ou não a vida passa. As memórias ficam. E do que me lembro é esta persistência em continuar, mesmo que por caminhos solitários e em túneis sem luz, mas eu sou assim: vou por aí, continuamente.
 
 
 
Mais uma exposição a acabar. O trabalho foi imenso. A entrega quase absoluta. O resultado: o costume. Não espero nada de novo. Em lado nenhum. Surpreso fico quando no marasmo chega a esperança e a luz dos meus olhos. Depois tudo fica igual ao mesmo de sempre. Amanhã é outro dia. Com mais memórias, alegrias e lembranças que o tempo não esquece. Por aquilo que não fui capaz me penitencio, mas a realidade é a possível e não a sonhada. Haverá, provavelmente, outras exposições, todavia o expectável é o habitual. Nada vai mudar, porque deixei de me mudar. É o fim da linha. Da minha, claro.
 
 
 
E, vos deixo com as palavras do escritor, autor, ensaísta, poeta e naturalista americano do século XIX Henry David Thoreau, que um dia disse:
 
 
 
“Se os homens se detivessem a observar apenas as realidades, e não se permitissem ser enganados, a vida, comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou as histórias das Mil e Uma Noites.”


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

EXPOSIÇÃO PINTURA - MODELOS - JOÃO ALFARO





 
Os dias são negros, e outros mais se esperam. A próxima hecatombe é apenas um espaço de tempo. É dramático viver nesta angústia, neste desconfiar, neste medo. É o momento presente. A vida, contudo, continua entre os pingos da chuva. Amanhã logo se vê. E no meio da dor há o caminhar. Neste limbo que é só meu, me entrego num refúgio. Nada mais sei fazer. Talvez por isso mesmo prefiro cingir-me ao círculo ínfimo, e, esperar que nada de mau aconteça. Fantasias.
 
 
E é neste panorama de tristeza e inquietação que a rota dos eventos tem a sua marcha. Mais uma exposição agora em Alcanena, enquanto preparo uma outra para o próximo ano, mas até ao final do mês de novembro “Modelos” a quem quiser ver os meus mais recentes trabalhos.
 
E vos deixo com as palavras do escritor francês do século XX Antoine de Saint- Exupéry, que um dia disse:
 
“Sei que só há uma liberdade: a do pensamento.“

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Mais uma exposição

 
 
 



 

 
 
“Modelos” exposição de pintura e desenho
Até 29 de novembro
Galeria Municipal Maria Lucília Moita, Alcanena
 
 
De novo mostro trabalhos recentes. É mais uma exposição onde procuro, como sempre, dar a conhecer momentos do meu percurso pictórico. Agora foi uma homenagem às pessoas que me acompanham, no feminino, realçando a beleza da mulher, como é tradição na cultura ocidental, que muito prezo e defendo.
 
As exposições são um ponto de encontro, também, de amigos e conhecidos, em que a arte é o mote e razão para mostrar quem é quem. Num momento de grande inquietação social, o que procuro criar é uma obra que realce o melhor que há em cada um na privacidade dos gestos simples e rotineiros dos dias, sem o outro lado do sofrimento, nem das dores que as teias envolventes cobrem uns e outros.
 
Com os muitos silêncios e olhares as minhas obras querem ser registos e interrogações de posturas, modos de ser e estar, num enquadramento onde o importante é a singularidade de cada um. Mas cabe a cada observador analisar de acordo com os propósitos que são pessoais. A mim, só me resta agradecer a todos os que se cruzam no meu caminho artístico e dizer: obrigado.
 
 
 
E vos deixo com as palavras ditas pelo padre António Vieira no século XVII:
 
O uso de ver tem fim com a vida, o apetite de ser visto não acaba com a morte.”
 


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Modelos

 
 
 

 
 
 
 


 
 
 
 
 

Mais uma exposição para dar continuidade ao desejo de mostrar, aos que me seguem, as últimas obras. Como sempre procuro singularizar cada evento, porque o espaço, o tempo e o propósito variam, donde, é fundamental, para mim, mostrar as múltiplas vertentes do meu trabalho.

 
 

 As circunstâncias do momento, o conhecimento do meio artístico, os  diferentes interesses que rodeiam os meandros da arte não deixam margem de dúvida, sobre o oportunismo de uns e de outros. O nosso tempo é bem definidor das conveniências e das motivações apelativas. As artes plásticas não são, por norma, galvanizadoras de eventos mundanos, exceto em circunstâncias especiais, que envolvem sempre gente de outras órbitas. Eu faço o meu caminho. E isso me basta.
 
 
 A partir de sábado um conjunto abrangente de retratos que, mais uma vez, é uma homenagem no feminino a algumas das pessoas que carinhosamente me serviram de modelos. A todas elas o meu muito obrigado.
 
 

 

 

E vos deixo com as palavras do poeta e diplomata francês  do século XX Saint-Jonh Perse que um dia disse:

 

“Os nossos caminhos são inumeráveis, mas incertas são as nossas estadias. “

 


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Rotina

 
 

 
 






 
 
 
João Alfaro, 2015
Desenhos sobre papel Canson
 
 
 
 
Quando o calor se vai chegam os dias cinzentos e a atmosfera do sentimento transforma-se. Gosto de ver pessoas e cores e movimento e vozes e desejos. E tantas outras coisas. Mas a chuva vem e tudo fica diferente: as pessoas fogem, o cinzento domina, e a solidão conquista espaço e tempo. Na rotina dos dias procuro sempre adquirir um brilho e, por isso, o meu trabalho pictórico é uma procura permanente, numa aliciante descoberta que me abraça na vontade de continuar crente em imaginários, enquanto a tormenta acontece, com o deixar de ir por aí ,e, ficar na rotina...
 
Mesmo que tudo seja igual, há o meu olhar que é só meu, e que procuro, através da pintura, deixar um registo da banalidade que é, também, encantador e sublime quando um homem olha para uma mulher e vê quanta é bela a presença feminina, nos gestos mais supérfluos do correr dos dias, nos momentos banais ou enfatizados.
 
Agora a preparar uma nova exposição em que a dominante temática é a representação feminina, sobretudo, através da expressividade  gestual nos episódios rotineiros que, relatam posturas íntimas do viver, e que eu transformo em pintura e em desenho.
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras ditas no século XVII num sermão pelo padre António Vieira:
 
 
“Não há coisa tão preciosa, e tão útil, que continuada não enfade.”
 


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Tempo Contado

 
 
 
 
João Alfaro
 "Banho", 2015 ( em construção)
Desenho a grafite sobre papel canson 59x42 cm  
 
 
 
 
 
 
É um dado absoluto: o tempo está sempre a contar. Melhor dizendo: a descontar. Por outras palavras: a vida – a nossa – tem um tempo contado. Não se compra, nem se vende. Só teoricamente. Em vez de estar aqui forçado, se tenho outros proventos, posso usufruir de outras paisagens, de vivências aprazíveis, de paradisíacos desejos momentâneos. Isso é tempo. Consumido num gostar de estar. Mas não mais do que isso. A verdade temporal, por muito que doa, é um mistério da vida. É sempre curta, mesmo para aqueles que se arrastam. E são muitos. Mesmo sapientes da precaridade tudo gira como se fosse crescente e proveitoso o dia de amanhã. É a esperança no milagre da felicidade, no acreditar que vale a pena, mesmo que muito nebulosos sejam os caminhos, mas, felizmente que há este rasto de força interior para dar a volta e, seguir em frente à procura da paz, nem que ela seja, afinal, um conto mal contado, como o tempo.
 
 
 
Há tanto caminho e mais caminhar e, no entanto, o tempo tem um tempo. Ou se chega a tempo ou nunca se chega, porque o tempo é outro, de outros e não nosso. Só nosso. Prisioneiro me sinto, incapaz de estar em tanto lado. É tudo uma opção de vida com muito amor ou sem ele, talvez, porque o tempo é tempo contado.
 
 
E vos deixo com as palavras da romancista francesa, do século XX,  Anais Nin que um dia disse:
 
“O único transformador, o único alquimista que muda tudo em ouro, é o amor. O único antídoto contra a morte, a idade, a vida vulgar, é o amor. “