segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Dois anos depois

 
 
 
 
João Alfaro
"João"
Desenho, grafite sobre cartolina de 34x24 cm
 
 
 
 

“Não, não quero mais gostar de ninguém porque dói. Não suporto mais nenhuma morte de ninguém que me é caro. Meu mundo é feito de pessoas que são as minhas – e eu não posso perdê-las sem me perder.”
 
Clarica Lispector in “A Descoberta do Mundo“
 
 
Dois anos depois, entre as brumas da memória, há tanto para recordar; uns sem medo e outros definitivamente diferentes. Receosos e perdidos perante a fragilidade da vida, os que tanto presenciaram no centro do vulcão a tragédia humana, os dias sucedem-se, com os momentos banais e o querer encontrar distrações do pensar, porque só no devaneio se suporta a ausência. E nada mais resta senão compreender quem somos, donde viemos e para onde vamos. Pelo meio o mais desejado é o que nos faz mais mal: o amor.
 
 
 
E vos deixo com a voz de José Afonso e “Balada de Outono”.
 
 
 
 


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Curvas e contracurvas

 
 



João Alfaro
“Selene”, 2015
Pintura sobre tela de 80 x 120 cm
 
 
 
Nas muitas voltas que o mundo dá cada novo dia é um enigma, mesmo que quase tudo seja sempre expectável, ou não fosse a rotina o usual dos dias. Com o acreditar que é preciso lutar para que o amanhã se transforme positivamente, o trabalho é a fonte da realização e do sonhar também. Estar ocupado, dar um sentido, uma determinação e uma significância ao que andamos a fazer neste tempo e neste espaço, mergulhado nos devaneios das especulações sobre a importância da vida e o que ela é neste domínio e nos hipotéticos patamares de eternidade, faz parte do querer simbolizar um pedaço de história, pelas melhores razões. Mas a memória se vai e o que ela tem de verdade é apenas um olhar que tudo muda. Hoje a leitura é diferente de tudo o que lá vai, e será outra coisa qualquer num outro tempo com outras gentes. Nada de extraordinário, porque mudam-se os tempos e mudam-se as vontades.
 
 
Eu só quero pintar, como se todo o resto fosse tão distante e nada mais tivesse importância. É terrível pensar assim. Mas só pintando julgo dizer tanto. Já não gosto de me apresentar publicamente e discursar. Detesto. Confesso. Hoje ando a fugir de tanto que foi o meu passado. Apenas quero-me cingir ao meu mundo das artes plásticas, como se a brevidade do andar neste caminho da vida fosse para acabar já amanhã.
 
 
“Selene” é apenas um nome que simboliza a beleza feminina, tanto do meu agrado e tema recorrente agora no meu trabalho, porque do muito que há neste mundo de disparidades, nada melhor que o gostar. Entre as curvas e contracurvas que a procura transporta na ânsia do caminho idealizado, o melhor é amar.
 
 
E vos deixo com as palavras que um dia Máximo Gorky disse:
 
“Procura amar enquanto vives. Não se encontrou nada de melhor.”
 
 


E amanhã como será ?




 


 

João Alfaro

“Selene”, 2015

Pintura sobre tela de 80x120 cm (em construção)

 

Amanhã não sei como estará o desenvolvimento deste trabalho. Felizmente. É a incerteza do evoluir da pintura que me fascina, mesmo que isso signifique sempre, mas mesmo sempre, muito procurar, com as dúvidas constantes e o saber que jamais conseguirei chegar ao pretendido. O tempo passa e por muita dedicação e entrega tudo parece ter os resultados do costume e a mesma insatisfação de todos os dias. Nada muda, apenas a consciência latente do quão difícil é percorrer caminhos impregnados de tanta interrogação. Mas não sou de desistir, bem pelo contrário, cada vez mais me deixo enlear no maravilhoso mundo que é produzir pelo prazer do fazer, sem que haja outro objetivo senão de querer ir por aí num imaginário de fantasia, em que o observar é o fulcral para o que me interessa, como se todo o resto fosse apenas insignificante, e a pintura o alimento da vida. Da minha. Obviamente.

 

A sensualidade e a beleza são condimentos do desejo, da vaidade, do gostar de estar bem, que é muito do que retrato, onde as personagens se extasiam nos jogos do encantamento. Aqui, mais uma vez, tento pintar o lado intimista com os considerandos que hoje comungam os valores estéticos deste tempo de tanta dúvida.

 

 

 

Recordo hoje as palavras de Leonardo  de Vinci, genial artista e cientista que um dia disse:

 

 

“O conhecimento torna a alma jovem e diminui a amargura da velhice. Colhe, pois, a sabedoria. Armazena suavidade para o amanhã. “

 

 
 


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Brevemente


 






Não sei se é da irreverência e do desassossego constante, que me persegue em busca de nova figuração, o que sei é que vou, mais uma vez, desenhar compulsivamente, porque me conheço e irei descobrir outros caminhos, que é o procuro, para que se mantenha a chama ardente da paixão artística, razão para tanta entrega, neste meu querer, pois é o melhor que tenho para alcançar, com as forças que me acompanham, apesar de tantos percalços e eternos desencontros, mas só sei que a solução está em continuar e acreditar até ao fim. E eu não sou de desistir. Nunca.

 

 

Quando era miúdo li as cartas do Van Gogh, do que ficou, registo a paixão pelo trabalho que ele ia fazendo e, sobretudo, a verdade enquanto homem. Foi um daqueles livros que me marcou e definiu a minha personalidade: entrega às paixões. Uma paixão é um momento doentio de exaltação, que é fundamental para o equilíbrio da monotonia quase permanente dos dias. De paixão em paixão se faz uma vida. A minha também. A pintura é uma delas (para mim), e é, onde posso mostrar o meu silêncio. O resto pouco importa. O mercado é o que é. Importante é ir fazendo e mostrando, agora aberto ao mundo, mesmo que só pela imagem virtual.

 

 

 

 

E vos deixo com as palavras que um dia Georg Hegel disse:

 

“Nada de grande se realizou no mundo sem paixão. “

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Depois da pausa






Pinturas a mostrar em Barcelona no espaço Caravela, em C de Manso 13, a partir de 25 de agosto
 
 

 
 
Pinturas a mostrar em Leiria no Teatro José Lúcio da Silva, em setembro e outubro
 



Depois da pausa e quase em simultâneo duas exposições de pintura: uma em Barcelona num espaço sui generis, e outra num teatro em Leiria. É uma aposta fora dos circuitos normais, com outros públicos e outros propósitos. Preciso de gente que olhe para o meu trabalho. É tempo de chegar perto de tantos outros, pelos acasos e vias enviesadas, numa busca por caminhos cheios de gente nova, em contraponto ao usual do vazio das galerias tradicionais, onde poucos – quase sempre os mesmos- olham o que tanto custou a criar, com a paixão de sempre e a entrega do costume, que é o meu timbre, apesar dos silêncios e do correr dos dias sem eira nem beira, na contemporaneidade artística.

 

 

 

Dois eventos que apenas ilustram um pedaço da minha história pictórica, que hoje é mais conhecida não pela observação direta, mas pela internet, que dá uma ideia aproximada mas que só em presença física frente a frente se descobrem outras características, que os segredos da arte transportam consigo. Não sei, também, confesso, lidar com o tempo, nem com os meandros inerentes aos circuitos comerciais, nem mesmo com o estar na multidão, donde expor é raro. E mais não digo. A pintura diz o resto.

 

 

 

E vos deixo com as palavras que um dia Pablo Picasso disse:

 

“A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade.”

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Cores de verão

 
 





















Tomar, 2015
Festa dos Tabuleiros
 
 
 
 
Festa é sinónimo de alegria, cor, música e gostar de estar. Os dias tristes e os pensamentos negros ficam para outros momentos. Quando um homem quer, procura o que há de mais cativante e encontra na expressão popular o genuíno do viver, comungando tradições e sentimentos caracterizadores de um povo, que é o que nos faz situar num espaço e num tempo que amamos, mesmo quando dizemos que não. Como tudo.
 
Gosto muito da cidade de Tomar. Tem uma história com gente dentro. Infelizmente, como em quase todo o lado as pessoas são cada vez menos, até nos centros históricos, mas nos dias de festa tudo muda e o pulsar deste povo aparece, transformando os espaços vazios e silenciosos em vividos e acalorados encontros de gente, com o melhor que há no conviver. Felizmente.
 
 
 
E vos deixo com as palavras que um dia escreveu António Lobo Antunes, em 2006 no Jornal de Letras:
 
 
 
 
“ Cada vez gosto mais de ser português e cada vez tenho mais orgulho no meu país. É-me insuportável ouvir dizer «somos um país pequeno e periférico». Para mim Portugal é central e muito grande. “


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Espuma, simplesmente espuma

 


 

 
 
João Alfaro
“Carmina”, 2015
Pintura sobre tela de 80 x120 cm
 
 
 
Entre o desejo e a realidade; entre a verdade e a imaginação; entre o sentir e a ausência, as etapas se fazem. Em todos elas fica o propósito. Pelas melhores razões ou pelos caminhos da serpente. Há o possível e o fantasiado. O resto é espuma, simplesmente espuma.
 
 
Dos amores que a vida traz e leva fica sempre tanto do vivido, acreditado ou não. E tudo se consome, entre a espuma dos dias.
 
 
Do nada surge a hecatombe, porque o muito se disfarça nos silêncios e olhares longínquos, que me levam a tentar retratar uns e outros, neste meu modo de olhar o mundo e constatar quanto é doce e belo um gesto simples, umas palavras breves, uns olhares furtuitos, pequenos episódios dos nossos. O resto é espuma, simplesmente espuma.
 
 
 
E vos deixo com as palavras que um dia o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez disse:
 
 
“A vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda.”