segunda-feira, 23 de março de 2015

O mundo é pequeno

 
 
 
 
 
 
João Alfaro
“Catharina”, 2015
Pintura sobre tela de 100x100 cm
 

Agora que a informação é imediata e atravessa o planeta permitindo que, em todo o lado, se saiba no instante seguinte o que vai acontecendo, é tão fácil conhecer outras realidades e outras gentes. A possibilidade de trocar interesses comuns é hoje banal e as distâncias são medidas não em quilómetros, mas em tempo. Comunicar é fácil, juntando, assim, pessoas tão díspares, mas que a tecnologia aproxima pela maravilha do diálogo, que vence as fronteiras por mais longínquas que elas sejam. É o nosso tempo. O lado bom da ciência e do aproveitamento global de um conhecimento científico que junta pelas melhores razões, e que, no entanto, traz consigo inevitavelmente o lado negro das tragédias.
 
Nunca como agora conheci tantos artistas e tanta diversidade cultural, graças à simplicidade de chegar às fontes de informação e simultaneamente dialogar com elas. E foi por esta via que muitos hoje fazem parte do meu trabalho e que são a razão para muito do que faço. “Catharina” surgiu por um acaso, fruto, sobretudo, desta amalgama de contactos que aparecem surgidos do nada e que podem tanto mudar no nosso estar. Felizmente que os dias são, quantas vezes, agradáveis surpresas. Obrigado Catharina e Aline.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Robert Green Ingersoll que disse um dia:
 
“Não há nada no mundo, nem recompensa, nem castigo, o que há são consequências.”  


segunda-feira, 16 de março de 2015

Retratar II

 
 
 
 
 

 

 
 
 
João Alfaro
Aguarelas, 2004
 
 
 
Fascina-me a captação pela imagem criada plasticamente, de episódios que a memória leva, mas que o registo artístico mantem no tempo e na lembrança. Há momentos mais singulares que outros, recordáveis, e, por isso mesmo, contemplativos, que originaram trabalhos diferenciados, na minha obra. Hoje recordo, ao ver aguarelas pintadas no passado, gente que um dia fez parte dos caminhos por onde andei. E tanto mudou. Na vida deles e na minha. Apenas as aguarelas pintadas desses momentos estão iguais, para memória futura. Por isso gosto tanto de retratar, porque com a constante mudança que é a vida de cada um, olhar um instante e transformá-lo numa análise introspetiva é a continuação do eterno jogo do passado ligado ao presente e, com elos ao futuro, que é o propósito basilar da arte. De hoje e de sempre.
 
 
 
 
 
Termino recordando, hoje, as palavras de Oscar Wilde, que um dia disse:
 
 
“Todos nós, sem exceção, passamos a vida à procura do segredo da vida. Pois bem: o segredo da vida reside na arte.“
 


segunda-feira, 9 de março de 2015

Retratar



 
 
 
João Alfaro
Aguarelas: “Retratos”.
 
 
Quando chega o momento de escrever, aqui, as dúvidas são sempre mais do que muitas, porque tenho um modo obsessivo de apenas querer consumir o meu tempo pintando, e não perdendo-me nas palavras e nas ideias breves, que são a substância da descrição dos dias. Apenas pretendo mostrar o lado que me fascina e conduz pelos caminhos da arte, razão deste blog. É um olhar sobre o maravilhoso e fantástico da envolvência apaixonante de construir uma figuração, que ilustre os interesses e a motivação maior, numa caminhada onde apenas o importante é narrar o prazer que pintar produz, sem que outras variáveis sejam consideradas ou relevadas, porque também há o desencanto e frustrações, mas eu prefiro o silêncio sobre o que me desgosta e apenas escrevo sobre o que me move apaixonadamente. O resto pouco interessa, porque de queixumes ando eu farto.
 
 
 
Encontrar é muito difícil, mesmo que a procura seja persistente, mas arte é um labiríntico procurar, onde apenas alguns se destacam, numa floresta de interesses e interessados. O importante é o momento mágico da criação, mesmo com os enganos todos e os ingénuos sonhos, porque criar traz consigo serenidade e acalanto. O resto não interessa. E por isso me envolvo tanto. Felizmente.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Oscar Wilde que escreveu um dia:
 
“Um retrato pintado com a alma é um retrato, não do modelo mas do artista. “


segunda-feira, 2 de março de 2015

Tempo e modo






Tenho um tempo e um modo que é resultante do apego à pintura, que tem o feitiço de me encantar e preencher com fantasia e ilusão esta minha caminhada, onde os dias ora parecem mais luzidios, ora são uma mistura de inquietação. Nunca há, nem haverá oportunidade para realizar todos os sonhos e vencer tantos desejos, mas sei que procuro, agora mais do que nunca, tentar que, dentro dos limites a que estou confinado, cada instante e cada momento seja apelativo, quer com a realidade vivida, quer com o vaguear que a memória transporta.

 

Houve um tempo em que desenhava quase compulsivamente. Fiz milhares de desenhos que tenho registados em blocos e que me serviam de inspiração para os temas que queria trabalhar, sendo, sobretudo, caracterizados por apontamentos rápidos, ou não fosse o meu tempo e o meu modo instantes prazenteiros.

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Nietzsche, que disse um dia, in “A Vontade do Poder”:

 

 

"Temos a arte para não morrer da verdade."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Dúvidas e certezas

 
 
 
 
 
 
 
 
 
João Alfaro
“Márcia”, 2015
Pintura sobre tela de 80x80 cm
 
 
 
 
Será sempre permanente, em mim,  este estado de alma em que as dúvidas e as certezas são uma constante, num jogo contínuo de juízos de valor instáveis. Na procura pela motivação maior, com o desejo expresso de plasticamente construir a singularidade que traduza um tempo e um modo, que se prolongue na especulação das análises e que seja, também, objeto de contemplação e fruição, me arrasto. Agora e sempre. Umas vezes mais crente e sorrindo, outras nem tanto, mas ciente que o caminho, por muito agreste ainda é, e será sempre, o melhor do momento, sem sofismas nem preconceitos, apenas e só com dúvidas, muitas mesmo, e as certezas do momento.
 
 
Agora, mais do que nunca, num tempo onde as ideologias se cruzam num conflito religioso de fundamentalismo e medos sem fim, com os preconceitos e os tabus que fizeram história, e que estão a regressar em muito lado, procuro, enquanto me deixarem, usar a liberdade para mostrar quanto é belo olhar e ver que a beleza é contemplativa, e que realça o melhor que há na valorização da autoestima, de quem sabe tirar partido do estar sem receio das censuras moralistas, que apenas traduzem ignorância e frustração.
 
 
“Márcia” interpreta , a meu ver, um modo de retratar a beleza, respeitando os valores maiores que me conduziram até aqui.
 
 
 
E vos deixo com as palavras que James Joyce disse um dia:
 
“Ninguém presta à sua geração maior serviço do que aquele que, seja pela sua arte, seja pela sua existência, lhe proporciona a dádiva de uma certeza. “
 
 
 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Carnaval é

 
 
 
 
 
 
 
 
 

É mentira desejada;
é popularucho sentido;
é fingimento assumido;
é dança estonteante;
é música sem pausa;
é festa sem tabus;
é fantasia hipócrita;
é ser outro, sendo o mesmo;
é carnaval e tudo parece "bem-mal"….
 
 
 
 
Recordo hoje as palavras de Virgílio Ferreira, in “Conta Corrente 5”:
 
“Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se. “


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Deusas do meu encanto














João Alfaro

“Deusa dos Bosques”, 2015

Pintura sobre tela, tríptico de 100x180 cm

 

 
 

Encontro no feminino muito do que gosto de pintar. Há tanto por descobrir na sensibilidade e na beleza da mulher, que a temática pictórica sobre a expressividade da natureza humana é inesgotável, naquilo que há de mais belo e verdadeiro. Por isso não me canso de retratar continuamente, agora que tenho outros processos e modos de intervenção. Cada novo trabalho é mais uma aposta, neste circuito de representação, onde o sentimento é a base e a origem.

 

Por muitas procuras que haja; por muito que queiramos dizer; por muito que gostemos fica sempre tanto para expressar o quanto é aquilo que sentimos. Falta sempre algo mais. Sempre. E, por faltar tanto, a pintura é o caminho sobre o olhar e o silêncio dos diálogos.

 

 

 

E vos deixo hoje com as palavras de Fernando Pessoa que disse um dia, in “Ideias Estéticas da Arte”:

 

 

“Só a arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes - tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte se vê, porque dura.”