segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

2015

 
 





2014 já lá vai. Foi ontem, mas parece que não. Tudo se transforma e esquece em tão pouco tempo… Como é breve e insignificante o viver dos dias e dos anos. Mas, é mesmo neste rodopiar de episódios sucessórios que, a história da insignificância se faz, rumo às utopias, tragédias e dramas. Foi um ano bom, para mim. Viajei. Dei um salto a Itália e andei por Espanha. Como sempre, faço das viagens uma descoberta, em busca do encantatório segredo que a arte me transmite. É com ela que encontro paz e serenidade, sobretudo, contemplando as obras dos outros. E por isso viajo tanto e pinto outro tanto.

 

2015 ainda mal começou mas, como sempre, idealizo objetivos a curto prazo e, para este ano, tenho em mente alguns projetos que passam essencialmente por pintar e não, como seria expectável, conceber estratégias de divulgação e exposição. Ainda vivo muito com o propósito de fazer, fazer e fazer mais, porque, a liberdade temporal é um bem que tem um limite próprio, sem outro modo útil que não seja aproveitar cada instante, como se fosse o último. Eu bem sei que neste caminhar há tanto para inquietar e deslumbrar, mas como não sei mudar o mundo, utilizo as armas que tenho na mão: a pintura.

 

 

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Nimier , Roger:

 

 

“Um homem sem projetos é o inimigo do género humano. “

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Sonho meu

 
 
 






João Alfaro

“Sonho meu”, 2014

Pintura sobre tela de 80x120 cm

 

 

 

 

Não há nada a fazer. Serei sempre assim. Já não tenho idade para mudar, porque preciso do sonho para acreditar, mesmo não acreditando. De tanto sonhar, paradoxalmente, o tempo passou sem sonhos, nem ilusões, num contraditório modo de ser e estar, porque os pés sempre estiveram assentes no chão, e os sonhos foram e são apenas momentos, nas viagens que o arrastar do pensamento conduz. De tanto crer e descrer se faz um caminho que acaba por traduzir o procurado, com muita ilusão e fantasia, que é a base sólida para continuar a querer fazer mais e mais, neste labiríntico processo de andar entre os pingos da chuva, num conflito em que a razão é a parte menor de tanta dúvida.

 

 

 

E com medos percorro as etapas, num saboroso saber ficar com as armas que tenho, que me deixam feliz por julgar saber como usufruir muito com o pouco que é tanto. E pinto tanto que quero mais ainda, como se a solução e as dúvidas todas estivessem na junção das cores numa tela, porque é assim que os meus sonhos acontecem e se realizam em prazerosos momentos.

 

 

E vos deixo com as palavras de Cesare Pavese, in “Mestiere di Vivere”:

 

“O louco tem inimigos. O sonhador tem-se apenas a si próprio.”

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Boas Festas



 
 
 
João Alfaro
"Bilhete", 2014
Pintura sobre tela de 80x70 cm
 
 
 
 
Natal é tempo de dizer o mesmo sem que as palavras se cansem e as esperanças se esgotem. Uns partiram e outros chegaram na roda da vida, que reúne e torna a dimensão humana na quantificação da grandeza e da pequenez, pelas atitudes ou pela falta delas, em momentos decisórios que cada um tem de tomar nos caminhos que a vida comporta. Quanto é bom olhar e ver que há, entre montanhas e vales, enormes planícies onde se percebe que vale a pena acreditar, entre os desencontros e as procuras, porque é na luta constante que está o segredo para que todos os dias sejam dias de Natal.
 
 
E vos deixo com as palavras de Manuel Bocage:
 
“Vós suspirais pela posse
Das externas perfeições;
Vós cobiçais os deleites,
Eu cobiço os corações.”


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

2014




 
 
 
 
 
 
 


 
 
 

 
 
 
O ano de 2014 aproxima-se do fim e é chegada a altura de olhar, com olhos de ver, o que foi feito, porque foi feito e como foi feito o caminho e as opções. Na pintura, na minha pintura, há um desassossego permanente, em busca do elixir da beleza e do encanto, que me foge, contudo e inevitavelmente, ano após ano. Mas eu sei que irei sempre perseguindo o sonho, por muito agreste e longínquo que ele seja, porque não consigo viver sem sonhar, dado que, das maravilhas que a vida comporta, nada melhor que criar um imaginário, onde reina a nossa determinação e, é ela que nos alenta para continuar na senda, que é, neste caso específico, a procura permanente pela afirmação da identidade e do reafirmar que vale a pena lutar pelos ideais e pelas paixões, mesmo que em rotas sem fim e sem vislumbres paradisíacos.
 
 
 
 
Estes foram alguns dos trabalhos pictóricos que fiz em 2014, tendo por base como tema a beleza humana e, sobretudo, o meu olhar sobre a magia encantatória da mulher. Foi um ano cheio de encontros, de novas oportunidades, de esperanças, de desejos, e, sobretudo, de elos comunicativos entre pontes diferentes, que julgava estarem longe de mim, mas que, porque o mundo artístico é fértil em episódios marcantes, muito ainda tenho para viver de momentos certamente recordáveis. Importante mesmo é que o tempo passa e sempre vou conseguindo arranjar meios e processos que me ajudam a querer fazer mais, continuadamente mais. Felizmente.
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Simone de Beauvoir:
 
"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente."


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Censura

 
 
 
 
 
 
 
 

João Alfaro

“Tânia”, 2014

Pintura sobre tela de 60x50 cm

 

 




Enquanto as burkas não chegam a arte se exprime sem limites, aqui, mas um dia tudo pode mudar e, este modo de olhar e ver o mundo será diferente, neste meu imaginário pensar sobre a mudança dos tempos, porque se vencer o fundamentalismo, que tantos querem negar mesmo perante todas as evidências, a vida será outra coisa qualquer, sem a música que tanto gosto, nem a pintura que é uma paixão que trago comigo.
 
 
 

O medo está instalado quando se olha para os números e para a evolução da mentalidade reinante. De tanto lutar por ideais no pressuposto da justeza da condição humana, agora se assiste a fenómenos de um retrocesso civilizacional, segundo um juízo de valor que transporta consigo um secular viver.

 

 Da abolição de múltiplas censuras, se chegou ao patamar da naturalidade do ver, saborear e conviver com o corpo, forma expressiva tão latente na arte ocidental, onde a nudez é um modo de relatar a verdade do estar e que agora tenho procurado ilustrar, porque sou um ocidental que gosta de viver aqui, sem censuras, distante dos mexericos mas, sobretudo, longe das burkas e de tudo o que elas significam.

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa, in “Livro do Desassossego”:

 
 
 

 "Por mais que dispamos o que vestimos, nunca chegamos à nudez, pois a nudez é um fenómeno da alma."



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Espelho do instante

  
 
 
 
 
 
 
 

João Alfaro

“Espelho do instante”, 2014

Pintura sobre tela de 120x80 cm

 

 

 

O espelho dá a imagem do instante. E só desse instante, ou seja: numa linguagem fria e insensível tudo se resume à imagem de um momento, por mais filosóficas e teóricas análises, desemboca na simplicidade e crueza da fatalidade, o olhar para o espelho e ver segundo o que queremos nesse instante. É só isso, todavia, marcante quando se olha e não se gosta do que se vê. Naquele instante ou, pior ainda, pela vida inteira. Tudo muda e até a nossa imagem do instante. O que fica é a aparência do momento, que o tempo leva nas lembranças. E, das muitas imagens que o espelho reflete, há sempre o desejo que ele traduza cânones de beleza contemporânea ou estados de alma aprazíveis, mas entre a verdade e a mentira há o lado real e verdadeiro do instante. Contra factos não há argumentos…

 

 

 

 

Na procura constante do apelativo modo de pintar, surge, agora, na minha temática, a representação feminina em que muito da intimidade e da beleza se vislumbra por olhares do instante, que só o espelho é capaz de dizer quem é como, naquele instante.

 

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Epicteto:

 

 
"As pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas."

 


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Noites Longas

 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

“!00 Anos de Jazz”

Nana Sousa Dias

Artspace João Carvalho

 
 

Do melhor que a memória recorda, ficam sempre episódios que definem a personalidade e a determinação de cada um, quando um homem se põe a pensar. O tempo desfaz a verdade dos factos deixando apenas a penumbra deles e da verdade sentida no instante. Mas há sempre tanto na nostalgia que muito fica perdido nas calendas do sentir e do gostar. Por mim, com a mutação dos desejos, o leque do melhor se circunscreve a poucos círculos de interesse. Do que gosto, agora, é, sobretudo, da simplicidade do conviver, por oposição, naturalmente, à solidão e ao mau pensar.

 

 A música tem o condão de fazer a ponte entre dois mundos, onde de um lado está a mensagem, quantas vezes angustiante mas inevitavelmente bela, e, do outro, a criação de ritmos que mexem com necessidades corporais do sentir a musicalidade. E, porque tenho, ultimamente, pelas novas amizades, um relacionamento próximo com artistas do campo musical, muito é o meu viver com o maravilhoso mundo da arte dos sons

 

 

Recordo hoje as palavras de Robert Browning que disse:

 

  "Quem ouve música, sente a sua solidão / de repente povoada."

 
 
 
 

E vos deixo com música de jazz, aqui, depois de uma noite longa.