segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

2014




 
 
 
 
 
 
 


 
 
 

 
 
 
O ano de 2014 aproxima-se do fim e é chegada a altura de olhar, com olhos de ver, o que foi feito, porque foi feito e como foi feito o caminho e as opções. Na pintura, na minha pintura, há um desassossego permanente, em busca do elixir da beleza e do encanto, que me foge, contudo e inevitavelmente, ano após ano. Mas eu sei que irei sempre perseguindo o sonho, por muito agreste e longínquo que ele seja, porque não consigo viver sem sonhar, dado que, das maravilhas que a vida comporta, nada melhor que criar um imaginário, onde reina a nossa determinação e, é ela que nos alenta para continuar na senda, que é, neste caso específico, a procura permanente pela afirmação da identidade e do reafirmar que vale a pena lutar pelos ideais e pelas paixões, mesmo que em rotas sem fim e sem vislumbres paradisíacos.
 
 
 
 
Estes foram alguns dos trabalhos pictóricos que fiz em 2014, tendo por base como tema a beleza humana e, sobretudo, o meu olhar sobre a magia encantatória da mulher. Foi um ano cheio de encontros, de novas oportunidades, de esperanças, de desejos, e, sobretudo, de elos comunicativos entre pontes diferentes, que julgava estarem longe de mim, mas que, porque o mundo artístico é fértil em episódios marcantes, muito ainda tenho para viver de momentos certamente recordáveis. Importante mesmo é que o tempo passa e sempre vou conseguindo arranjar meios e processos que me ajudam a querer fazer mais, continuadamente mais. Felizmente.
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Simone de Beauvoir:
 
"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente."


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Censura

 
 
 
 
 
 
 
 

João Alfaro

“Tânia”, 2014

Pintura sobre tela de 60x50 cm

 

 




Enquanto as burkas não chegam a arte se exprime sem limites, aqui, mas um dia tudo pode mudar e, este modo de olhar e ver o mundo será diferente, neste meu imaginário pensar sobre a mudança dos tempos, porque se vencer o fundamentalismo, que tantos querem negar mesmo perante todas as evidências, a vida será outra coisa qualquer, sem a música que tanto gosto, nem a pintura que é uma paixão que trago comigo.
 
 
 

O medo está instalado quando se olha para os números e para a evolução da mentalidade reinante. De tanto lutar por ideais no pressuposto da justeza da condição humana, agora se assiste a fenómenos de um retrocesso civilizacional, segundo um juízo de valor que transporta consigo um secular viver.

 

 Da abolição de múltiplas censuras, se chegou ao patamar da naturalidade do ver, saborear e conviver com o corpo, forma expressiva tão latente na arte ocidental, onde a nudez é um modo de relatar a verdade do estar e que agora tenho procurado ilustrar, porque sou um ocidental que gosta de viver aqui, sem censuras, distante dos mexericos mas, sobretudo, longe das burkas e de tudo o que elas significam.

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa, in “Livro do Desassossego”:

 
 
 

 "Por mais que dispamos o que vestimos, nunca chegamos à nudez, pois a nudez é um fenómeno da alma."



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Espelho do instante

  
 
 
 
 
 
 
 

João Alfaro

“Espelho do instante”, 2014

Pintura sobre tela de 120x80 cm

 

 

 

O espelho dá a imagem do instante. E só desse instante, ou seja: numa linguagem fria e insensível tudo se resume à imagem de um momento, por mais filosóficas e teóricas análises, desemboca na simplicidade e crueza da fatalidade, o olhar para o espelho e ver segundo o que queremos nesse instante. É só isso, todavia, marcante quando se olha e não se gosta do que se vê. Naquele instante ou, pior ainda, pela vida inteira. Tudo muda e até a nossa imagem do instante. O que fica é a aparência do momento, que o tempo leva nas lembranças. E, das muitas imagens que o espelho reflete, há sempre o desejo que ele traduza cânones de beleza contemporânea ou estados de alma aprazíveis, mas entre a verdade e a mentira há o lado real e verdadeiro do instante. Contra factos não há argumentos…

 

 

 

 

Na procura constante do apelativo modo de pintar, surge, agora, na minha temática, a representação feminina em que muito da intimidade e da beleza se vislumbra por olhares do instante, que só o espelho é capaz de dizer quem é como, naquele instante.

 

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Epicteto:

 

 
"As pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas."

 


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Noites Longas

 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

“!00 Anos de Jazz”

Nana Sousa Dias

Artspace João Carvalho

 
 

Do melhor que a memória recorda, ficam sempre episódios que definem a personalidade e a determinação de cada um, quando um homem se põe a pensar. O tempo desfaz a verdade dos factos deixando apenas a penumbra deles e da verdade sentida no instante. Mas há sempre tanto na nostalgia que muito fica perdido nas calendas do sentir e do gostar. Por mim, com a mutação dos desejos, o leque do melhor se circunscreve a poucos círculos de interesse. Do que gosto, agora, é, sobretudo, da simplicidade do conviver, por oposição, naturalmente, à solidão e ao mau pensar.

 

 A música tem o condão de fazer a ponte entre dois mundos, onde de um lado está a mensagem, quantas vezes angustiante mas inevitavelmente bela, e, do outro, a criação de ritmos que mexem com necessidades corporais do sentir a musicalidade. E, porque tenho, ultimamente, pelas novas amizades, um relacionamento próximo com artistas do campo musical, muito é o meu viver com o maravilhoso mundo da arte dos sons

 

 

Recordo hoje as palavras de Robert Browning que disse:

 

  "Quem ouve música, sente a sua solidão / de repente povoada."

 
 
 
 

E vos deixo com música de jazz, aqui, depois de uma noite longa.
 
 
 
 
 



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Tertúlia Pictórica

 
 
 
 








Quando as palavras se cansam de dizer o mesmo, as conversas deixam de fazer sentido e o fim do dialogar é a solução final, embora o terminar seja um lancinante modo de dizer adeus. Mas, entre o vazio do conversar e o querer comunicar, há uma distância oceânica, que o tempo faz justiça.

 

Hoje, por convite de um amigo de longa data, vou estar num breve encontro de pessoas que fazem do prazer pictórico uma entrega pelo devaneio e pela fantasia da criação. Entre os sonhos do gostar de fazer bem e o resultado, a distância é medida, quase sempre, pela dimensão estelar da incapacidade de atingir o pretendido, mas o pior é nada fazer para contrariar as montanhas herculanas e, por isso, tanto esforço é o melhor caminho para tentar vencer, mesmo quando não só as palavras se cansam, mas também o tempo se esgota e a crença esmorece. O melhor mesmo é nunca desistir, mesmo que tudo aparentemente seja negro, porque há, sempre, dias radiosos.

 

Pintar é, sobretudo, um estar: tudo se silencia; tudo fica imóvel; tudo deixa de ser real para se passar para outra dimensão, que é a razão principal para tanta entrega de tantos. E é o que vou dizer nesta tertúlia, onde o descrever do tempo a pintar, se traduz num passeio pelas memórias que são recordações do estar.

 

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Simônides de Ceos, citado em Plutarco, in “Obras Morais, a glória dos atenienses”:

 

"A pintura é poesia silenciosa, a poesia é pintura que fala."





segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Enquanto o Natal não chega

 
 
 
 
 
 
 
Enquanto o Natal não chega os dias correm, mas agora já com o pensamento, de vez em quando, no significado da quadra natalícia e em tudo o que ela envolve. É a festa, sobretudo, com aqueles que nos são próximos e de quem gostamos e que queremos continuar no tempo e na memória, a comungar ideias e projetos, que me inspira e me dá alento. É um espírito diferente, onde o que conta é o olhar pelo lado bom, que une e faz esquecer o pior que há nos sete pecados mortais. Mas isso é outra história, com caminhos tristes que fazem parte da marcha dos dias e das vidas. E é bom saber viver momentos especiais. Como aqueles que só o Natal traz consigo.
 
 
 
 
Os meus dias são feitos quase sempre de solidão e de música escolhida a gosto, porque a pintura exige concentração e isolamento, com a luz e a ambiência própria, de quem faz da arte das cores uma opção gratificante do estar e do ser. É, no cruzamento entre os dois mundos compostos de fraternidade e de comunhão, com gente dentro e solidão que, pela exigência do trabalho, passo o tempo querendo construir um imaginário que seja apelativo. Eu tento, confesso. Mas o destino tem destas coisas: não se pode ter tudo. Mas procuro. Sempre. Dias felizes. Também.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Álvaro de Campos:
 
“Gostava de gostar de gostar.”


sábado, 1 de novembro de 2014

Hábito meu







Quando chegava ao ateliê a primeira coisa que fazia era ligar o rádio. Hoje é o computador...para ouvir música, sobretudo. O ruído tão constante na tradicional audição radiofónica deixou de existir com a internet, permitindo, simultaneamente, outras opções na escolha dos temas e na abordagem à música, mais consentânea com o gosto pessoal do momento. Novos tempos estes. Eu, um dependente da musicalidade clássica, deixei, quase definitivamente, de ouvir vozes que me eram tão familiares na estação preferida. Agora a música está por minha conta, sem conversas intermédias, nem panfletários ou politólogos descontentes, de esgotar a paciência. O progresso também tem destas coisas. Boas, claro.
 
 
E aqui, na blogosfera, neste usual meio de devorar as notícias e os acontecimentos nuns breves instantes, ninguém tem tempo, nem que sejam apenas 3 ou 4 minutos para ouvir uma música, por mais bela que ela seja. Mas porque me cansei das conversas do costume e das lamentações de sempre dos textos e dos apontamentos dos internautas dependentes, quantas vezes me deixo levar pelo som de uma voz ou de um instrumento de excelência, enquanto me perco nos caminhos da pintura.



 
 
E vos deixo com a música de  Chopin, porque é um retrato de um hábito meu.