segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Tertúlia Pictórica

 
 
 
 








Quando as palavras se cansam de dizer o mesmo, as conversas deixam de fazer sentido e o fim do dialogar é a solução final, embora o terminar seja um lancinante modo de dizer adeus. Mas, entre o vazio do conversar e o querer comunicar, há uma distância oceânica, que o tempo faz justiça.

 

Hoje, por convite de um amigo de longa data, vou estar num breve encontro de pessoas que fazem do prazer pictórico uma entrega pelo devaneio e pela fantasia da criação. Entre os sonhos do gostar de fazer bem e o resultado, a distância é medida, quase sempre, pela dimensão estelar da incapacidade de atingir o pretendido, mas o pior é nada fazer para contrariar as montanhas herculanas e, por isso, tanto esforço é o melhor caminho para tentar vencer, mesmo quando não só as palavras se cansam, mas também o tempo se esgota e a crença esmorece. O melhor mesmo é nunca desistir, mesmo que tudo aparentemente seja negro, porque há, sempre, dias radiosos.

 

Pintar é, sobretudo, um estar: tudo se silencia; tudo fica imóvel; tudo deixa de ser real para se passar para outra dimensão, que é a razão principal para tanta entrega de tantos. E é o que vou dizer nesta tertúlia, onde o descrever do tempo a pintar, se traduz num passeio pelas memórias que são recordações do estar.

 

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Simônides de Ceos, citado em Plutarco, in “Obras Morais, a glória dos atenienses”:

 

"A pintura é poesia silenciosa, a poesia é pintura que fala."





segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Enquanto o Natal não chega

 
 
 
 
 
 
 
Enquanto o Natal não chega os dias correm, mas agora já com o pensamento, de vez em quando, no significado da quadra natalícia e em tudo o que ela envolve. É a festa, sobretudo, com aqueles que nos são próximos e de quem gostamos e que queremos continuar no tempo e na memória, a comungar ideias e projetos, que me inspira e me dá alento. É um espírito diferente, onde o que conta é o olhar pelo lado bom, que une e faz esquecer o pior que há nos sete pecados mortais. Mas isso é outra história, com caminhos tristes que fazem parte da marcha dos dias e das vidas. E é bom saber viver momentos especiais. Como aqueles que só o Natal traz consigo.
 
 
 
 
Os meus dias são feitos quase sempre de solidão e de música escolhida a gosto, porque a pintura exige concentração e isolamento, com a luz e a ambiência própria, de quem faz da arte das cores uma opção gratificante do estar e do ser. É, no cruzamento entre os dois mundos compostos de fraternidade e de comunhão, com gente dentro e solidão que, pela exigência do trabalho, passo o tempo querendo construir um imaginário que seja apelativo. Eu tento, confesso. Mas o destino tem destas coisas: não se pode ter tudo. Mas procuro. Sempre. Dias felizes. Também.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Álvaro de Campos:
 
“Gostava de gostar de gostar.”


sábado, 1 de novembro de 2014

Hábito meu







Quando chegava ao ateliê a primeira coisa que fazia era ligar o rádio. Hoje é o computador...para ouvir música, sobretudo. O ruído tão constante na tradicional audição radiofónica deixou de existir com a internet, permitindo, simultaneamente, outras opções na escolha dos temas e na abordagem à música, mais consentânea com o gosto pessoal do momento. Novos tempos estes. Eu, um dependente da musicalidade clássica, deixei, quase definitivamente, de ouvir vozes que me eram tão familiares na estação preferida. Agora a música está por minha conta, sem conversas intermédias, nem panfletários ou politólogos descontentes, de esgotar a paciência. O progresso também tem destas coisas. Boas, claro.
 
 
E aqui, na blogosfera, neste usual meio de devorar as notícias e os acontecimentos nuns breves instantes, ninguém tem tempo, nem que sejam apenas 3 ou 4 minutos para ouvir uma música, por mais bela que ela seja. Mas porque me cansei das conversas do costume e das lamentações de sempre dos textos e dos apontamentos dos internautas dependentes, quantas vezes me deixo levar pelo som de uma voz ou de um instrumento de excelência, enquanto me perco nos caminhos da pintura.



 
 
E vos deixo com a música de  Chopin, porque é um retrato de um hábito meu.




 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Tudo igual

 
 
 
 
 

Entre as dúvidas do costume e as certezas de sempre,
os dias correm.
Umas vezes diferentes, outros nem tanto.
Mas o que quero é o mesmo,
ou não fosse tudo tão simples e inóspito,
neste descobrir de raridades e de coisa nenhuma,
onde apenas resta a amizade antiga e o sonhar que persiste,
com a crueza da fatalidade,
do saber estar em todo o lado e em lado nenhum.
 
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Leonardo da Vinci, in "Tratado da Pintura":
 
 
"A pintura é uma poesia que se vê e não se sente, e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê."
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


sábado, 18 de outubro de 2014

Marta

 
 
 

 
 
 
João Alfaro
“Marta”,2014
Pintura sobre tela de 120x80cm
 
 
Na procura pela narrativa pictórica, que seja apelativa e que consiga despertar encanto e interrogação, os meus dias se esgotam. Adoro tentar captar a singularidade de cada um dos que se cruzam no meu trabalho, como se fosse um investigador do sagrado, em busca do elixir da beleza e da perenidade. Eu bem tento, mas os deuses não me fazem companhia. O que eu sei, felizmente, é que tenho um sonho, um caminho, um desígnio. Poderá ser só meu e partilhado por poucos outros, mas encontrei um modo de significância, que é pouco e é tanto. E me vou bastando. Umas vezes sorrindo mais, outras meditando dos meandros e seus vícios, na encruzilhada das rotas, em que do nada nasce ou morre um destino.
 
Em 1995, enquanto descobria a magia da capital britânica, encontrei numa feira - das muitas que Londres oferece ao turista - uma gravura de uma pintura que me persegue desde então e que desconheço a autoria. Era o retrato de uma mulher nua, de pele muito clara, rosa pálido, numa cama com lençois brancos, sombreados em cinzas múltiplos. A harmonia cromática numa paleta parca de cores mas, em simultâneo, rica de matizes e de tons era de uma beleza deslumbrante, num jogo de sombras tépidas e de uma luz única. Desde então várias foram as tentativas para captar a essência visual que tanto me fascinou, nesse verão. “Marta” é, mais uma vez, o resultado desse deambular pelo passado.
 
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Vinicius de Morais:
 
 
"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."
 


domingo, 12 de outubro de 2014

Planear

 
 
Tomar, 2014

 
 
 
 
Tomar, 2002
Pintura sobre tela, 50x70 cm
 
 
 
 
 
 

 
 
É preciso planear com tempo uma exposição. A razão principal é, neste mercado sem mercado e sem público, mostrar aos interessados (que ainda há) o que se faz num determinado momento, como razão plausível e motivadora, para que a persistência em continuar a trabalhar seja constante, mesmo perante a indiferença do público e de outros agentes, característica dominante, sobretudo, nas artes plásticas.
 
Eu bem sei que na imensidão de tanta produção dita cultural não há paciência, nem capacidade para absorver tudo. Os projetos são muitos e tão diversificados, que a dúvida sobre a seriedade é uma questão permanente e legítima. Entre os pingos da chuva vou caminhando, sempre na mesma senda. Umas vezes mais crente, outras nem tanto. O importante mesmo é acreditar que vale a pena.
 
Cada exposição é uma ocasião única: o espaço, a temática e a circunstância geram entre si um diálogo que é a razão maior para alguém se expor. Mostrar o que faz, como faz e porque faz é, por si, um modo de comunicar um ideal, num determinado momento. Em 2015 na cidade de Tomar irei mostrar o que agora ando a fazer para que me julguem, ou não fosse a vida um caminhar de muita crítica pelas ações e pelas omissões.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Leonardo da Vinci, que escreveu:
 
 "Não desprezes a pintura, pois estarás a desprezar a contemplação apurada e filosófica do universo."


sábado, 4 de outubro de 2014

Nada de novo

 
 
 
 
 
 
João Alfaro
“Banho III”, 2014
Pintura sobre tela de 120x80 cm
 
 
 
Nada de novo. Os dias são quase sempre iguais, embora umas vezes pareçam mais luzidios, e outros nem tanto. Tudo depende do olhar. Do pensamento, melhor dizendo. Ou do desejo. Ou da imaginação. Ou do querer. Ou de outra coisa qualquer. O tempo passa entretanto, entre as tarefas diárias, as obrigações do costume e as esperanças de sempre. Amanhã é outro dia e logo se verá. Pois.
 
 
 
 
Eu bem sei que a obrigação é inovar, construir algo de sublime e acalentador. Na fantasia, sobretudo. No usual das rotinas que constituem quase a globalidade do estar, tudo é bem diferente. A criatividade dá lugar aos lugares-comuns e à banalidade dos gestos, atitudes e desfechos previsíveis. Felizmente que ao inverno sucede sempre o verão mas, o bem não dura sempre e, o calor que traz consigo a luz, agora, está a perder a intensidade que aquece a alma, com o final do veraneio, significando que o inverno está a chegar e, com ele as noites longas e as angústias do costume. Mas basta de lamentações, porque o que gosto mesmo é de cada novo dia: ele é a luz, a esperança, o desejo de pintar, de partilhar amizades e contemplar o que me resta, o que me deixa feliz. Pois.
 
 
E vos deixo com palavras in “Textos Judaicos” segundo David Luzzato Samuel:
 
"O homem não é julgado pelas suas opiniões, mas pelos seus atos."