sábado, 1 de novembro de 2014

Hábito meu







Quando chegava ao ateliê a primeira coisa que fazia era ligar o rádio. Hoje é o computador...para ouvir música, sobretudo. O ruído tão constante na tradicional audição radiofónica deixou de existir com a internet, permitindo, simultaneamente, outras opções na escolha dos temas e na abordagem à música, mais consentânea com o gosto pessoal do momento. Novos tempos estes. Eu, um dependente da musicalidade clássica, deixei, quase definitivamente, de ouvir vozes que me eram tão familiares na estação preferida. Agora a música está por minha conta, sem conversas intermédias, nem panfletários ou politólogos descontentes, de esgotar a paciência. O progresso também tem destas coisas. Boas, claro.
 
 
E aqui, na blogosfera, neste usual meio de devorar as notícias e os acontecimentos nuns breves instantes, ninguém tem tempo, nem que sejam apenas 3 ou 4 minutos para ouvir uma música, por mais bela que ela seja. Mas porque me cansei das conversas do costume e das lamentações de sempre dos textos e dos apontamentos dos internautas dependentes, quantas vezes me deixo levar pelo som de uma voz ou de um instrumento de excelência, enquanto me perco nos caminhos da pintura.



 
 
E vos deixo com a música de  Chopin, porque é um retrato de um hábito meu.




 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Tudo igual

 
 
 
 
 

Entre as dúvidas do costume e as certezas de sempre,
os dias correm.
Umas vezes diferentes, outros nem tanto.
Mas o que quero é o mesmo,
ou não fosse tudo tão simples e inóspito,
neste descobrir de raridades e de coisa nenhuma,
onde apenas resta a amizade antiga e o sonhar que persiste,
com a crueza da fatalidade,
do saber estar em todo o lado e em lado nenhum.
 
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Leonardo da Vinci, in "Tratado da Pintura":
 
 
"A pintura é uma poesia que se vê e não se sente, e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê."
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


sábado, 18 de outubro de 2014

Marta

 
 
 

 
 
 
João Alfaro
“Marta”,2014
Pintura sobre tela de 120x80cm
 
 
Na procura pela narrativa pictórica, que seja apelativa e que consiga despertar encanto e interrogação, os meus dias se esgotam. Adoro tentar captar a singularidade de cada um dos que se cruzam no meu trabalho, como se fosse um investigador do sagrado, em busca do elixir da beleza e da perenidade. Eu bem tento, mas os deuses não me fazem companhia. O que eu sei, felizmente, é que tenho um sonho, um caminho, um desígnio. Poderá ser só meu e partilhado por poucos outros, mas encontrei um modo de significância, que é pouco e é tanto. E me vou bastando. Umas vezes sorrindo mais, outras meditando dos meandros e seus vícios, na encruzilhada das rotas, em que do nada nasce ou morre um destino.
 
Em 1995, enquanto descobria a magia da capital britânica, encontrei numa feira - das muitas que Londres oferece ao turista - uma gravura de uma pintura que me persegue desde então e que desconheço a autoria. Era o retrato de uma mulher nua, de pele muito clara, rosa pálido, numa cama com lençois brancos, sombreados em cinzas múltiplos. A harmonia cromática numa paleta parca de cores mas, em simultâneo, rica de matizes e de tons era de uma beleza deslumbrante, num jogo de sombras tépidas e de uma luz única. Desde então várias foram as tentativas para captar a essência visual que tanto me fascinou, nesse verão. “Marta” é, mais uma vez, o resultado desse deambular pelo passado.
 
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Vinicius de Morais:
 
 
"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."
 


domingo, 12 de outubro de 2014

Planear

 
 
Tomar, 2014

 
 
 
 
Tomar, 2002
Pintura sobre tela, 50x70 cm
 
 
 
 
 
 

 
 
É preciso planear com tempo uma exposição. A razão principal é, neste mercado sem mercado e sem público, mostrar aos interessados (que ainda há) o que se faz num determinado momento, como razão plausível e motivadora, para que a persistência em continuar a trabalhar seja constante, mesmo perante a indiferença do público e de outros agentes, característica dominante, sobretudo, nas artes plásticas.
 
Eu bem sei que na imensidão de tanta produção dita cultural não há paciência, nem capacidade para absorver tudo. Os projetos são muitos e tão diversificados, que a dúvida sobre a seriedade é uma questão permanente e legítima. Entre os pingos da chuva vou caminhando, sempre na mesma senda. Umas vezes mais crente, outras nem tanto. O importante mesmo é acreditar que vale a pena.
 
Cada exposição é uma ocasião única: o espaço, a temática e a circunstância geram entre si um diálogo que é a razão maior para alguém se expor. Mostrar o que faz, como faz e porque faz é, por si, um modo de comunicar um ideal, num determinado momento. Em 2015 na cidade de Tomar irei mostrar o que agora ando a fazer para que me julguem, ou não fosse a vida um caminhar de muita crítica pelas ações e pelas omissões.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Leonardo da Vinci, que escreveu:
 
 "Não desprezes a pintura, pois estarás a desprezar a contemplação apurada e filosófica do universo."


sábado, 4 de outubro de 2014

Nada de novo

 
 
 
 
 
 
João Alfaro
“Banho III”, 2014
Pintura sobre tela de 120x80 cm
 
 
 
Nada de novo. Os dias são quase sempre iguais, embora umas vezes pareçam mais luzidios, e outros nem tanto. Tudo depende do olhar. Do pensamento, melhor dizendo. Ou do desejo. Ou da imaginação. Ou do querer. Ou de outra coisa qualquer. O tempo passa entretanto, entre as tarefas diárias, as obrigações do costume e as esperanças de sempre. Amanhã é outro dia e logo se verá. Pois.
 
 
 
 
Eu bem sei que a obrigação é inovar, construir algo de sublime e acalentador. Na fantasia, sobretudo. No usual das rotinas que constituem quase a globalidade do estar, tudo é bem diferente. A criatividade dá lugar aos lugares-comuns e à banalidade dos gestos, atitudes e desfechos previsíveis. Felizmente que ao inverno sucede sempre o verão mas, o bem não dura sempre e, o calor que traz consigo a luz, agora, está a perder a intensidade que aquece a alma, com o final do veraneio, significando que o inverno está a chegar e, com ele as noites longas e as angústias do costume. Mas basta de lamentações, porque o que gosto mesmo é de cada novo dia: ele é a luz, a esperança, o desejo de pintar, de partilhar amizades e contemplar o que me resta, o que me deixa feliz. Pois.
 
 
E vos deixo com palavras in “Textos Judaicos” segundo David Luzzato Samuel:
 
"O homem não é julgado pelas suas opiniões, mas pelos seus atos."

domingo, 28 de setembro de 2014

Compasso de espera




  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
João Alfaro

Estudos prévios, 2014

 Desenhos em tela de 120x80 cm, feitos de 22 a 27 de Setembro

 
 
 

Foi uma semana muito complicada. Não tive tempo para pintar. Tudo me ocupa e nada me resta. Para a pintura, claro. Mas há mais vida que espera por mim. Com gente dentro, de quem muito gosto. Procuro corresponder aos meus anseios pictóricos, contudo, não consigo conciliar a vontade com a temporalidade. E os anos passam. A vida também. E lá se vai o desígnio. Começo a aceitar a inevitabilidade da incapacidade de não produzir o sonhado. Ou não fosse o sonho uma aspiração de virtuais desejos. E por aqui me arrasto. Entre a resignação e a paixão.

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Jean Jacques Rousseau:

 

 "A consciência é a voz da alma, as paixões são a voz do corpo."

 


sábado, 20 de setembro de 2014

Mercados

 
 






 
 









Este é o meu mundo de eleição. Aqui, neste enquadramento, onde as variáveis da produção das artes plásticas se mostram, me sinto como um peixe na água. Contudo, nem sempre gosto. As propostas, genericamente, são muitas e, naturalmente, desencontradas, donde, muito não é do meu agrado. E acontece sempre. O que fica, sobretudo, é o ponto de encontro das gentes e dos seus propósitos. Num espaço global cada vez mais pequeno, onde tudo se sabe, a arte é o reflexo da contemporaneidade, desde que as propostas artísticas estejam consentâneas com a realidade do nosso tempo. Mas nem sempre assim é. Há quem fique agarrado ao passado, mas o que interessa é o presente, e este deve ser o propósito maior de um artista: edificar a obra plástica como imagem do seu tempo.

 

As novas tecnologias vieram revolucionar o mundo em todas as vertentes. Agora novos produtos e novos modos de produção transformaram o panorama artístico por completo. Há quem saiba tirar partido do que é oferecido pela modernidade e outros não, porque não aproveitam os processos de execução; porque não divulgam nas redes sociais; porque ficaram pelo passado que não volta; porque ficam pelas modas, de vida curta, como todas as modas, diga-se. Opções.
 
 
 
E grande era a curiosidade em ver a exposição de arte agora patente numa das principais artérias de Lisboa. Com uma organização diferente dos habituais mentores do gosto e da estética contemporânea nacional, desta feita, outras pessoas, outros interesses por detrás deste sempre negócio da venda e da compra de objetos, que uns chamam arte e outros nem tanto, gerou polémica entre os tradicionais galeristas. 
 
Esperava ver mais variedade, mais visitantes e mais modernidade nas propostas. Tudo muito regionalista. Afinal, quase só, um olhar sobre um país visto pelos seus artistas com a singularidade da alma russa. Alguns outros expositores, mas muito pouco para encantar. Todavia, nas muitas feiras de arte que visitei a diversidade é tanta, com propostas, algumas até ridículas, mas entendidas apenas como chamamento, o que em arte é sempre importante, mas aqui o propósito foi outro, ou não fosse o mercado uma montra de escolha múltipla.