domingo, 28 de setembro de 2014

Compasso de espera




  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
João Alfaro

Estudos prévios, 2014

 Desenhos em tela de 120x80 cm, feitos de 22 a 27 de Setembro

 
 
 

Foi uma semana muito complicada. Não tive tempo para pintar. Tudo me ocupa e nada me resta. Para a pintura, claro. Mas há mais vida que espera por mim. Com gente dentro, de quem muito gosto. Procuro corresponder aos meus anseios pictóricos, contudo, não consigo conciliar a vontade com a temporalidade. E os anos passam. A vida também. E lá se vai o desígnio. Começo a aceitar a inevitabilidade da incapacidade de não produzir o sonhado. Ou não fosse o sonho uma aspiração de virtuais desejos. E por aqui me arrasto. Entre a resignação e a paixão.

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Jean Jacques Rousseau:

 

 "A consciência é a voz da alma, as paixões são a voz do corpo."

 


sábado, 20 de setembro de 2014

Mercados

 
 






 
 









Este é o meu mundo de eleição. Aqui, neste enquadramento, onde as variáveis da produção das artes plásticas se mostram, me sinto como um peixe na água. Contudo, nem sempre gosto. As propostas, genericamente, são muitas e, naturalmente, desencontradas, donde, muito não é do meu agrado. E acontece sempre. O que fica, sobretudo, é o ponto de encontro das gentes e dos seus propósitos. Num espaço global cada vez mais pequeno, onde tudo se sabe, a arte é o reflexo da contemporaneidade, desde que as propostas artísticas estejam consentâneas com a realidade do nosso tempo. Mas nem sempre assim é. Há quem fique agarrado ao passado, mas o que interessa é o presente, e este deve ser o propósito maior de um artista: edificar a obra plástica como imagem do seu tempo.

 

As novas tecnologias vieram revolucionar o mundo em todas as vertentes. Agora novos produtos e novos modos de produção transformaram o panorama artístico por completo. Há quem saiba tirar partido do que é oferecido pela modernidade e outros não, porque não aproveitam os processos de execução; porque não divulgam nas redes sociais; porque ficaram pelo passado que não volta; porque ficam pelas modas, de vida curta, como todas as modas, diga-se. Opções.
 
 
 
E grande era a curiosidade em ver a exposição de arte agora patente numa das principais artérias de Lisboa. Com uma organização diferente dos habituais mentores do gosto e da estética contemporânea nacional, desta feita, outras pessoas, outros interesses por detrás deste sempre negócio da venda e da compra de objetos, que uns chamam arte e outros nem tanto, gerou polémica entre os tradicionais galeristas. 
 
Esperava ver mais variedade, mais visitantes e mais modernidade nas propostas. Tudo muito regionalista. Afinal, quase só, um olhar sobre um país visto pelos seus artistas com a singularidade da alma russa. Alguns outros expositores, mas muito pouco para encantar. Todavia, nas muitas feiras de arte que visitei a diversidade é tanta, com propostas, algumas até ridículas, mas entendidas apenas como chamamento, o que em arte é sempre importante, mas aqui o propósito foi outro, ou não fosse o mercado uma montra de escolha múltipla.
 
 


domingo, 14 de setembro de 2014

Espuma e só espuma

 
 
 




João Alfaro
“Banho III”, 2014
Pintura sobre tela de 120x80 cm
 
 
 
O significado muda com a circunstância. De uma criança não se espera o comportamento de um adulto; de um responsável não se perdoa o desleixo por dá cá aquela palha; de uma referência social se aceita tudo ou coisa nenhuma. Depende. Do momento. Da plateia.
 
Quanta desgraça por um palmo de terra? . Quanta mentira por um nevoeiro desejo? . Quanta tormenta e mortandade por miragens utópicas? . O que fica são terras ao abandono, passado o tempo da conquista; casas vazias sem conserto; perdidos infindos sem rumo. Tudo é espuma e só espuma. Com a voragem do tempo o importante é apenas a simplicidade do estar. E mais nada, porque a espuma é o denominador comum na vida. De tanto sonho, de tanto querer, de tanto do tanto se descobre que afinal quase tudo é espuma, sendo o mais importante a vulgaridade do estar bem connosco e com os outros que nos servem de apoio, nos melhores momentos e nos outros também. E basta um olhar, uma palavra, um sorriso. O resto é espuma e só espuma.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Huges Lamennais, in “Miscelânia Religiosa e Filosófica”:
 
 
"Não apreciamos bem nos outros senão as qualidades que julgamos possuir.


domingo, 7 de setembro de 2014

Há dias felizes

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

João Alfaro

 
Pinturas sobre tela em execução

 
 

 
 
 

Todos os dias aparecem as notícias que são já norma: desgraças e fatalidades com fartura. Entre os perigos reais e os imaginados os dias passam. Com a cabeça dentro da areia ou pensando nas questões caminhamos, ora sonhando com “libertárias” burkas, ora com apocalipses da natureza ou tormentas sem fim. Que venha o diabo, porque de santos ando eu farto. Sei é que nascem e morrem pessoas e sonhos. E há dias felizes. Também.

 

 

Porque não acredito nas preces nem nos santinhos e nas suas historietas de fantasiar, desta ou qualquer outra religião, me deixo levar por aquilo que há de mais sagrado em mim: o amor; porque é bom, maravilhosamente bom a esperança na vida; porque é encantador ver nascer e crescer quem nos conquista com ternura e afeto o coração; porque só com projetos acalentadores se consegue fazer mais e melhor, mesmo que outros digam que não; porque ainda não me deixei levar pelo desencanto, aguardo sempre ansioso, os novos raios de luz, ao quero conceber, quase diariamente, novos projetos. E amanhã é outro dia.

 

 

 

E vos deixo com as palavras de José Luís Nunes Martins, in “Filosofias, 79 Reflexões”:

 

"Ninguém busca a felicidade, o que todos procuramos é uma razão para sermos felizes... por entre todas as que nos fazem sofrer."

 
 


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A fantasia não morreu




 
“Banho II”: 1º dia.
Pintura sobre tela de 120x80 cm, em execução
 
 
 
“…Todo o tempo é composto de mudança….”
 
Luís de Camões.
 
 
 
 
Por muito que me custe aceitar o mundo muda, não de acordo com os meus valores, nem com a minha fantasia. Eu - confesso - deixo-me arrastar pela penúria do imaginário, onde o melhor possível acontece, sem as tragédias e os malfeitores do costume. É bom mergulhar nos caminhos do maravilhoso e do fantástico, contudo, muitas vezes, vejo um malfadado amanhã, porque sou sempre descrente e espero ruindade, mesmo quando estou bem. O melhor mesmo é, entre os pingos da chuva, ir andando e fantasiando com o meu ofício: a pintura.
 
 
 
 
 
Agora, mergulhado num novo projeto, ou seja: preparando uma exposição para 2015, composta, à partida, por dez telas de 120x80 cm, com a temática subordinada ao tema do nu feminino, procuro criar obras que sejam apelativas e que correspondam a um olhar sobre a condição da mulher, dentro das quatro paredes da solidão, onde a beleza e o encantamento falam mais alto, numa tentativa de captar os variados momentos das múltiplas interrogações e desejos que percorrem o pensamento feminino.
 
 
 
 

E vos deixo com as palavras de Anatole France:
 
 "Uma coisa sobretudo dá atração ao pensamento dos homens: a inquietação. Um espírito que não seja ansioso irrita-me ou aborrece-me."

 
 


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Paredes de vidro


 
 


 
 
 
 
João Alfaro
“Banho I”, 2014
Pintura sobre tela de 120x80 cm
 
 
São as figuras públicas e os outros também. Hoje, pelas redes sociais, tudo se sabe e transparece, com alguma verdade e mentiras sem destino. É fácil dizer tudo de todos, e, do mesmo modo, qualquer um se expõe dizendo de si e dos seus. No limite, o direito à privacidade não faz sentido, quando enquadrado em contextos apelativos quanto à intimidade de cada um. Venha o diabo e escolha. Está tudo ligado. Todos sabem de todos. E de quase tudo. É o século XXI.
 
O que ontem era escandaloso, hoje é aceite sem manifestações contestatárias. Aqui. Do outro lado do mundo é bem diferente, mas aqui, no nosso cantinho, as normas são o que são, e os costumes o nosso saber viver, com mais ou menos censura nas posturas sociais. Mas nada importa. Tudo passa tão depressa e tantas coisas acontecem, que a memória se vai na hecatombe dos eventos. Tudo é espuma. Menos a arte do desejo.
 
“Banho I” é a primeira pintura de uma série em que a temática se debruça sobre a intimidade, que é comum a todos, mas que, no entanto, quando exposta, em paredes de vidro, a crítica da moral e dos bons costumes tem o lápis azul como referente máximo, ou não fosse a hipocrisia um modo de estar, mesmo em tempo de modernidade.
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Laurence Sterne que escreveu um dia:
 
"A censura é o imposto da inveja sobre o mérito."
 


sábado, 16 de agosto de 2014

Um ano depois

 
 
 


 
 
 
 
 
 

“Ofélia”, 2004
Aguarela sobre papel Canson, 30x30 cm
 
 
Os dias correm uns após outros e, quase sempre, com as rotinas do costume. Tudo parece igual hoje, como ontem foi e amanhã será o mesmo. Talvez. Talvez, porque, de um instante para o outro, tudo pode mudar. Da melancólica observância do nascer ao poente dos dias, basta um breve e inesperado episódio para marcar a diferença. Definitivamente. Foi assim, faz agora um ano. Na porta ao lado, nunca mais haverá o brilho esplendoroso nos olhares dado pela luz da felicidade. Resta a eterna lembrança. Sofrida. E muito. Como é trágica a amplitude dos amores que partem.
 
 
 
E vos deixo com "Hino ao amor", aqui, orquestrada por Andre Rieu.