sábado, 15 de março de 2014

Diálogos sem fim

 
 



João Alfaro



Pinturas em tela a expor no Centro Cultural Mário Viegas em Santarém no mês de Maio

 

 

Nas noites longas há muita conversa, riso com fartura, música, cantares desafinados e os sabores gastronómicos da ocasião são a norma, nos pontos de encontro. De tanto dizer, entre os convivas, o que importa sempre não é o conteúdo do que se descreve nas palavras perdidas, porque o que conta, em momentos especiais, é apenas a companhia e a razão do encontro. À volta da mesa se acham os predicados todos para os diálogos sem fim, que se esquecem com facilidade, muitas vezes, mas que deixam a ilustração do momento e o seu significado. Como é bom partilhar ocasiões simbólicas que valem tanto, tanto, que muito do dorido se esvai, enquanto dura a festa dos instantes.

 

 

 

Nos diálogos privados a conversa adquire outro estatuto, quando o interesse é a proximidade dos afetos, porque cada palavra é carregada de intenção e, todos os pormenores posturais adquirem conotações, que definem o caminho ou o seu termo. Com muita gente ou na sombra tudo roda no mesmo sentido, pois é apenas a companhia de alguém que se deseja, no diálogo enriquecido com muito palavreado ou, apenas, a sugestão gestual.

 

 

Porque a pintura é um retrato de um sentir e a expressão do olhar envolvente, o que faço é registar os que me são próximos, como na temática destas duas telas, onde procuro sugerir os muitos diálogos do relacionamento social.

 

 

 

 

E termino recordando as palavras de Jean Jacques Rousseau que disse um dia:

 

"Os homens a quem se fala não são aqueles com quem se conversa."

sábado, 8 de março de 2014

Túnel do tempo

 
 
 
 

 
João Alfaro
“Encontro”, 2013
Pintura sobre tela, 50X50 cm
 
 
 


 
 
João Alfaro
“Menina estás à janela”, 2012
Pintura sobre tela, 50X50 cm
 
(Pinturas a expor no Centro Cultural Mário Viegas em Santarém)
 



Depois de tantos dias cinzentos, frio quanto baste e chuva em abundância, sabe bem deixar (em casa) a roupa invernosa e ir para a rua, em busca de leveza e luz. Muita luz diga-se. E é isso que agora faço, mesmo que o percurso seja o igual de todos os dias, com os encontros do costume e os queixumes dos mesmos nas conversas de conveniência. É a natureza no seu melhor a dizer quanto é bela a vida da observância das pequenas coisas, que constituem o maravilhoso e fantástico da magia solarenga dos dias.

 

No túnel do tempo, que é a travessia de cada um, sobra sempre o desejo de realizar algo de novo que seja apelativo e elevatório da dimensão do querer. Mas é preciso lutar e não desistir. Vejo, todavia, tantos quebrando e maldizendo, no entanto, no mar dos perdidos, encontro sempre alguém que acredita e acalenta novas esperanças e alento. E os dias se sucedem. Hoje é o dia da mulher. Que seja um dia de muitos sóis.

 

Para Maio uma exposição, dando significado à entrega e ao desejo da afirmação do existir.

 
 
 

E vos deixo com as palavras de William Shakespeare que disse um dia:

 

“É lícito aspirar ao que não se pode alcançar.”

domingo, 2 de março de 2014

Encontros felizes

 
 
 

 
 
 
Antero Guerra e Cristina Troufa
Artspace João Carvalho, Gouxaria (Alcanena), 2014
 
 
Conheci o Antero nos anos oitenta, depois, por razões profissionais, os nossos caminhos foram outros e, pela magia que as novas tecnologias permitem, com o clicar de um botão, voltámos a encontrar-nos, tantos anos depois. Em boa hora, diga-se.
 
A razão primeira foi a pintura. O motivo que nos fez voltar a conviver foi, de novo, o amor pela arte. E, é este gostar de conviver na procura do belo estético, como complemento da magia que a vida comporta, que acontecem mutações no estar e na esperança. De um quase celibato pintar, pelo acaso de um reencontro, vivo agora rodeado de artistas e novas gentes, num frenesim de acontecimentos que o tempo dirá de sua justeza. Confesso que adoro este conviver, mesmo sabendo que nem tudo que luz é ouro, mas é pela procura que se chega ao encontro. Com fantasia, também. E consciência, sobretudo.
 
A roda dos amigos é variada no tempo e nas circunstâncias. Os pontos de proximidade ou de afastamento fazem-se pelo desejo, pela necessidade, ou pela obrigação, de dar resposta a interesses comuns. Agora, o que quero mesmo, neste virar de páginas do desenrolar da vida, é conviver com os que sentem o desejo de edificar novas expressões culturais. E pouco mais.
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Vinicius Moraes que escreveu:
 
 
"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fogo- fátuo

 
 
 

 
 
 
João Alfaro
 
“Jéssica”, 2014
Pintura sobre tela, 80X80 cm
 
 
Confesso que detesto esperar. O tempo para mim é um valor incomensurável, porque ele não se repete, nem volta para trás. Eu, com o passar dos anos e com mais consciência de que os dias devem ser aproveitados ao máximo, para a realização das tarefas julgadas necessárias e oportunas, sem dar ao vento as horas do destino, procuro que cada instante seja valorizado e, por isso, não me dou bem com quem me faz esperar ou não cumpre com o prometido horário pré-estabelecido. Há tanto onde consumir o escasso tempo, sem o perder na insignificância da espera, que me basto: com os meus livros, a minha música, a pintura, os amigos certos e a minha esperança.
 
 
 
“Jéssica” é uma pintura de um tempo. De alguém que tem a beleza e o encanto da juventude, mas que vai ficando diferente a cada segundo, como todos os demais; no entanto, porque os caminhos da presunção são o que são, se deseja que a caminhada seja longa na procura e no encontro. Agora, fixada a imagem de um momento, há toda uma história para contar, que os dizeres irão enriquecer com as verdades e a fantasia. Amanhã outro trabalho me aguarda, para ilustrar o que os dias me deixam relatar, e espero não desperdiçar cada instante vivido, porque julgo ter tanto ainda por contar picturalmente, mesmo que sejam apenas ilusórios devaneios cromáticos.
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Guimarães Rosa:
 
 
 "Esperar é reconhecer-se incompleto."
 
 
 
 
 


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Mais do mesmo

 
 
 
 
 
 
João Alfaro
“Aria”, 2014
Pintura sobre tela de 80 X 80 cm
 
 
 
 
Não sei se é este pensamento imbuído do espírito do “Velho do Restelo”,que me deixa nesta angústia de ver mais do mesmo. Apesar de tantos esforços e de tanta retórica quase nada mudou: ele é o futebol; ele é a música ora de estridentes sonoridades, ora de lamechas sem fim; ele é a libertinagem; ele é o presente desencontrado. Neste cantinho é o que eu observo. Agora. Sem vivalma não é preciso construir mais espaços públicos; nem passeios; nem jardins; nem cicloturismos; nem piscinas; nem pavilhões; nem bibliotecas; nem mais nada. É preciso sim edificar imaginários. Reclamar sempre e exigir. Protestar. Vociferar nem que seja por dá cá aquela palha, porque, por onde vou, só vejo o vazio dos espaços, o desleixo no betão, nas estradas, nas ruelas, na linguagem. Importante mesmo é que há futebol amanhã e depois, “música pimba” para os mais velhos, e, rock com fartura para a juventude. Como estou feliz. O meu médico (otorrino) também.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Henri Lacordaire:
 
“O desânimo é a morte da virilidade.”


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Último Olhar




 
 
 

Momentos da exposição de pintura e escultura “Nu Eterno” no Artspace João Carvalho.

 
 
 
 
 
Depois do trabalho realizado, no ateliê, chega (chegou, neste caso) o momento de mostrar, publicamente, o que foi feito. Olhar,  in loco, é muito diferente da visão distante das imagens que a fotografia ou um outro qualquer meio visual reprodutivo dá. Com a pintura há um universo de visualizações, que, só a presença física perante a obra pictórica ilustra cabalmente a dimensão estética e o perfecionismo ou não do autor, e, também, a relevância da proximidade com a obra é um dado insofismável.
 
Depois chega o momento em que tudo acaba e o que conta é a etapa seguinte. A vontade de fazer mais, conceber outros projetos e idealizar novos caminhos é a razão principal para continuar. Com altos e baixos se faz o trajeto. Umas vezes o esperado é conseguido, outras, naturalmente, ficam longe os objetivos pretendidos. Seguir em frente sempre foi o meu lema, afinal, a incerteza é a única constante, neste ondular em que acreditar é a única esperança. Brevemente numa outra galeria com outras obras. Como sempre acreditando.



 
 
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Jean de La Fontaine que disse um dia:
 
 
 
“E cada um acredita, facilmente, no que teme e no que deseja.”
 
 
 
 
 


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Está a acabar.



 
 
 
 
 
 
 
 
Tanta ansiedade; tanto desejo; tanta expectativa; tanto de tanto e está a acabar: a exposição de pintura e escultura “Nu Eterno” no Artspace João Carvalho, na Gouxaria, depois de três meses em exibição. As imagens falam por si sobre o que foi este trabalho conjunto, das minhas pinturas e das esculturas do João Carvalho. Muita gente; um outro conceito expositivo, onde diferentes artes se misturam, na procura de bem receber e acalentar novos públicos, no propósito de fazer da arte um bem ao alcance de todos.
 
 
E já começo a conceber outra amostra, para que em Maio exponha, em Santarém, mais um parecer sobre a condição humana, neste meu modo de olhar os outros através da pintura, que é a essência do meu dizer. Confesso que é sempre muito estimulante ter um projeto de vida que seja catalisador dos anseios e fantasias, pois, sem eles tudo parece mais cinzento, e, nada melhor que colorir os dias e os sonhos com cores harmoniosas, mesmo que muito seja apenas ilusão do querer.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Nelson Mandela que disse, numa carta a Makhava Ntini em 2009:
 
“Qualquer pessoa pode elevar-se acima das suas circunstâncias e alcançar sucesso, caso se dedique e tenha entusiasmo pelo que faz.”