sábado, 25 de maio de 2013

As voltas que o mundo dá





 
 
"Abraço", 2013
 
Pintura sobre tela com 60cm de diâmetro
 
 
 
 
 
 
Desenho, 2013
Estudo Prévio


 
 
Em criança estudei sempre em colégios. Confesso que não guardo recordações para ilustrar. Hoje, quando olho para o passado, fico surpreso perante o esquecimento de tanto. Ou a penumbra dos factos, melhor dizendo. A realidade é sempre o que queremos considerar e julgar, segundo os nossos valores. Tudo toma a forma de acordo com as conveniências. Do momento. Ou de uma vida. A nossa.
 
Caminhar é o destino. Com mais ou menos pomba e circunstância. E sempre desejando que se cumpra o ritual da passagem geracional, para que faça algum sentido  este andar por aqui. Tudo isto, para dizer que, por muitas voltas que o mundo dê, o tempo traça o destino dos horários biológicos e, com ele, se vai o melhor e o pior de nós.
 
Os ciclos da vida trazem e levam. Agora, outro momento chegou e, com ele, vou virar outra página. Episódios privados que a pintura vai contar, para memória futura, porque pintar é descrever a realidade vivida, sentida, com cores, formas e muita fantasia. Com prazer e sem ressentimentos.
 
 
 
 
Quando eu morrer levo comigo a incerteza de quem sou.


domingo, 19 de maio de 2013

Dançar é uma festa




 
 





 
 
 
 
Não sei dançar. Mas gostava. Em adolescente, na comunidade onde vivia, o bailarico era sábado sim, sábado sim. Toda a gente rodopiava num frenesim de alegria e encanto. Mas eu não. Desgostosamente assistia, porque cedo percebi que não seria capaz de envolver o corpo na musicalidade que a dança obriga, restava-me, pois, ver dançar. E é o que faço com gosto, ainda hoje. O tango é, para mim, a excelência da dança de salão. As vestes e as posturas abrasivas de sexualidade, envoltas numa vaidade, contagiam os demais. Sempre que posso vejo os festivais onde a dança é a razão. Mais tarde vi (no cinema) o Rudolf Nureyev e fiquei rendido à magia da dança clássica. A corporalidade em movimento sugerindo formas e sentimentos é de uma beleza encantatória só ao alcance de alguns. Resta-me (naturalmente) fruir o bailado e as danças dos outros.
 
Ainda num passado recente estive num evento muito cerimonioso com graduados e colunáveis. Tudo funcionou dentro do restrito espírito do protocolo até chegar o momento da dança. Depois foi só vê-los na alegria expressiva que a libertinagem mágica do movimento rítmico exige e... lá se foi todo o protocolo.
 
Porque me deixo encantar pela dança, procuro pintar essa atmosfera de magia que a conjugação dos dançarinos me cativa. As telas que hoje mostro foram pintadas em 2006 depois de ter visitado o Caramulo e de ter estado num casamento.
 
E vos deixo com as palavras de Saramago, in “Cadernos de Lanzarote”:
 
“Nenhum dia é festivo por ter nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fôssemos nós a «fazê-lo» diferente.”


domingo, 12 de maio de 2013

Mas





 
 
 
"Olhar", 2013
 
Pintura sobre tela
 
 
 

Mas. Mas lá vamos nós rumo a Lisboa para mais uma jornada ritual. De carro, entre conversas de tudo e de coisa nenhuma, o que queremos é conviver e transformar aquelas horas num festim de fantasia e de ilusão, esquecendo a crise social e todos os males do mundo. Chegados  ao Centro Comercial do costume, onde nos espera a observância dos encantos, das lojas de relógios, dos livros e, naturalmente, do melhor que Deus criou. Depois é o restaurante, o mesmo, e entre frases feitas e sabores da Serra da Estrela, a noite do espetáculo espera por nós. Umas vezes tudo corre bem, outras nem tanto. Fica sempre o salutar convívio que é coisa rara nos dias de hoje. E da amizade em especial. Outros eventos terão lugar num futuro breve. E tudo acaba num fogo-fátuo. Até os momentos bons. Sobretudo estes.

 
 
 
 

Mas do que eu gosto mesmo é de música. Do belo canto. Da ópera. Quando as luzes se apagam, no teatro, e a cortina do palco abre, mostrando toda a luminosidade, numa envolvência cromática e sonora, tendo por base, quase sempre, um libreto onde a tragédia da vida e dos seus desencantados amores predomina, a emoção é outra. E o encanto também. Aqui me sinto num outro ambiente onde, em vez dos gritos, dos dislates e dos insultos pelos pontapés na bola, se ouvem os cânticos dos sopranos ou dos baixos, numa harmonia que me encandeia e me transporta pelo Olímpo. Mas aqui sou outro, sendo eu mesmo.

 

 

 

 

E vos deixo com as palavras de Edward Forster:

 

“As emoções são intermináveis. Quanto mais as exprimimos, mais maneiras temos de as exprimir.”

 
 
 
 


domingo, 5 de maio de 2013

O dia de todas as mães

 
 
 
 
 
 
 
“Mãe e Filho”, estudo prévio
Pastel de óleo sobre papel,2013
 
 
Hoje é o dia de todas as mães. Não tenho palavras, nem sapiência para falar delas. Por muito que queira falta-me tanto para contar o que gostaria de expressar. Depois de ter lido na juventude “A Mãe” de Gorky e de, mais tarde, ter ouvido declamar Eugénio de Andrade sobre  o mesmo tema, eu, neste meu telegráfico modo de descrever o mundo e as suas gentes, só consigo encontrar lugares-comuns para falar de quem tanto gosto.
 
 
 
É um  vendaval indescritível de posturas e ações o amor de uma mãe.
 É o porto de abrigo que não existe em outro lugar.
É um amor próprio para todo o sempre, desde o primeiro instante até ao último suspiro.
É o aconchego quando se quer um refúgio.
É o calor humano que cala e consente, mesmo quando tudo se desmorona.
É um pedaço de nós.
 É aquele olhar sempre doce, até, nos momentos difíceis.
É a voz da sensibilidade.

É o toque do amor.
É a dor que não se apaga quando partem.
E partem sempre.
 
 
E vos deixo com as palavras de Paolo Mantegazza:
 
“Nenhum filho pagou o tributo de reconhecimento que deve à sua mãe.”


domingo, 28 de abril de 2013

O velho e o novo

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

O meu pai era inventivo. Arranjava e criava tudo que fosse elétrico e motorizado:  ele era o esquentador; a bomba da água; a torradeira; a mota; tudo, tudo. E eu, domingo sim, domingo sim,  era obrigado a servir de ajudante.  Detestava. Não gostava nada daquele rosário mergulhado em fios, óleos, parafusos e afins. E admirava-o tanto. Sempre achei a criatividade e o engenho como um fascinante mundo novo. E hoje, quando me recordo dele, percebo bem a sua herança. Sempre detestei mexer no ferro, seus derivados e associados mas, pelo contrário, tenho um gosto pela madeira. Não sei se é pela textura, pelo cheiro, pela configuração, pela presença ambiental. E me tornei fazedor de insignificâncias utilizando a madeira como material de recurso. Para um pintor, um cavalete é um instrumento de trabalho:  deve ser sólido e funcional  e, por isso, construí, em tempos idos, alguns para me servirem de acordo com os meus desejos pictóricos, de então. Agora, estou diferente: tenho outra conceção do tempo, do trabalho e ... da preguiça  também. Comprei, recentemente, um novo cavalete: mais moderno, mais ergonómico, mais perfeito. E me lembrei do meu pai. Mais uma vez.  Acontece tanto.
 
 
E vos deixo com as palavras de Cesare Pavese, in “Il Mestiere di Vivere”:
 
“Chega uma época em que nos damos conta de que tudo o que fazemos se transformará em lembrança um dia. É a maturidade. Para alcança-la, é preciso já ter lembranças.”


domingo, 21 de abril de 2013

Falar para as paredes






"Afrodite", 2013
Pintura sobre tela de 81X100 cm





Gosto muito do exercício físico. Sempre gostei. Agora, graças a uma conjuntura (tudo acontece por associação de factos) pratico, regularmente, corrida de corta-mato. Os meus amigos do atletismo levam-me por montes e vales, quer faça sol, chuva, vento, frio ou calor. Nada é desculpa para não correr longas distâncias, enquanto se saboreia o ar dos campos, as suas paisagens e se medita sobre este mundo e o outro. Como me sinto feliz, nestes momentos, porque nada é mais salutar que usufruir dos prazeres simples que a vida comporta. A sensação de liberdade e de domínio das nossas capacidades físicas é o complemento da excelência. O pior é quando pensamos nas outras coisas, naquelas em que apesar dos enormes sacrifícios e dedicação extrema, apenas conseguimos que a nossa voz seja ouvida pelas paredes e o trabalho se reduza a um vazio comunicativo. Acontece muito. Nada melhor, pois, que correr. Atrás do sonho. Ou do engano.






E vos deixo com as palavras de Sebastien-Roch Chamfort:

“Há duas coisas a que temos de nos habituar, sob pena de acharmos a vida insuportável: são as injúrias do tempo e as injustiças dos homens.”

domingo, 14 de abril de 2013

A Vida Continua





 
 
 
 
“Encantos Privados”, 2013
Pintura sobre tela de 81X100 cm
 
 
 
Todos os dias acontecem coisas. Todas importantes. Para uns sim, para os restantes nem tanto. Morre-se de fome, de tristeza e de melancolia. Festeja-se a vitória num campo de futebol; os noivos acalentam esperança; e as crianças alegram o futuro. É esta a roda da vida. Uns partem de vez e outros nascem. Entre lágrimas, de sofrimento e de felicidade, a vida corre. Amanhã é outro dia.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de André Gide, in “Os Moedeiros Falsos”:
 
“Na vida, nada se resolve, tudo continua. Permanecemos na incerteza; e chegaremos ao fim sem sabermos com o que podemos contar.”