domingo, 21 de abril de 2013

Falar para as paredes






"Afrodite", 2013
Pintura sobre tela de 81X100 cm





Gosto muito do exercício físico. Sempre gostei. Agora, graças a uma conjuntura (tudo acontece por associação de factos) pratico, regularmente, corrida de corta-mato. Os meus amigos do atletismo levam-me por montes e vales, quer faça sol, chuva, vento, frio ou calor. Nada é desculpa para não correr longas distâncias, enquanto se saboreia o ar dos campos, as suas paisagens e se medita sobre este mundo e o outro. Como me sinto feliz, nestes momentos, porque nada é mais salutar que usufruir dos prazeres simples que a vida comporta. A sensação de liberdade e de domínio das nossas capacidades físicas é o complemento da excelência. O pior é quando pensamos nas outras coisas, naquelas em que apesar dos enormes sacrifícios e dedicação extrema, apenas conseguimos que a nossa voz seja ouvida pelas paredes e o trabalho se reduza a um vazio comunicativo. Acontece muito. Nada melhor, pois, que correr. Atrás do sonho. Ou do engano.






E vos deixo com as palavras de Sebastien-Roch Chamfort:

“Há duas coisas a que temos de nos habituar, sob pena de acharmos a vida insuportável: são as injúrias do tempo e as injustiças dos homens.”

domingo, 14 de abril de 2013

A Vida Continua





 
 
 
 
“Encantos Privados”, 2013
Pintura sobre tela de 81X100 cm
 
 
 
Todos os dias acontecem coisas. Todas importantes. Para uns sim, para os restantes nem tanto. Morre-se de fome, de tristeza e de melancolia. Festeja-se a vitória num campo de futebol; os noivos acalentam esperança; e as crianças alegram o futuro. É esta a roda da vida. Uns partem de vez e outros nascem. Entre lágrimas, de sofrimento e de felicidade, a vida corre. Amanhã é outro dia.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de André Gide, in “Os Moedeiros Falsos”:
 
“Na vida, nada se resolve, tudo continua. Permanecemos na incerteza; e chegaremos ao fim sem sabermos com o que podemos contar.”


domingo, 7 de abril de 2013

Os meus dias



 
 
 
 
"Caty", 2013
 Pintura sobre tela
 
 
 
 
 
 
 
Tinha acabado de estar com uns amigos numa conversa de café. Daquelas em que se contam episódios para rir e sem importância alguma para o mundo, mesmo que se digam cobras e lagartos dos políticos, dos safados e, obviamente, dos árbitros de futebol, dos encantos femininos e afins. Pouco depois, dei comigo, caminhando na calçada, enquanto saboreava o sol raro destes dias quase sempre chuvosos, e ia pensando na sorte de viver aqueles instantes: a amizade é de ouro; a luz solar uma dádiva dos deuses; o nosso café único. Tudo bom, exceto os impostos a pagar, a incerteza dos dias e as doenças que o tempo comporta. Não se pode ter tudo. Afinal o infinito nunca acaba e a ambição é um desejo crescente. Dito de outro modo: a vida é bela quando se olha para as coisas simples e se procura a beleza, o encanto e o amor. O problema é quanto tudo se complica e, a realidade é feita de amizades frágeis; o olhar se torna nebuloso; os afetos contextualizam outros valores. Enfim. Vidas. Felizes algumas delas. E amanhã volto a estar com os do costume. Com as conversas de sempre. Para não variar.
 
 
 
 

E vos deixo com um texto judaico extraído da “Máxima Rabínica”:
 
“Todos os dias, a nossa vida recomeça de novo.”

 
 
 
 
 
 
 


domingo, 31 de março de 2013

Semana Pascal

   
 
 
 
 
 
 
 
 
“Deusa do Sono”, 2013
Pintura sobre tela de 81x100 cm
 
 
Nesta semana em que o tema dominante é, deveria de ser (para os católicos) a morte e ressurreição de Cristo, é, para muitos deles, andar por sítios diferentes a fazer outras coisas, longe das igrejas, dos cemitérios e das procissões…. Quem meteu férias procurou destinos mais solarengos, que este nosso clima é, este ano, chuvoso e húmido até dizer chega. Eu, nesta quadra, por acaso, vi um filme na TV que mudou a minha semana: passei os dias ouvindo Beethoven e meditando em algumas questões dúbias do catolicismo. A morte sempre esteve muito presente em mim. Vi morrer muita gente. Quanto à ressurreição não sou de acreditar mas, que há defuntos que reaparecem, isso é verdade. E não se falou senão de um deles: do “estudante” de Paris.
 
Esta semana pintei, na minha torre de Babel, mais uma tela onde, na busca pelo belo e tendo como dominante o nu feminino, concebi “Deusa do Sono”, procurando revelar a mulher e os seus encantos, num eterno jogo entre o meu olhar e a postura da modelo que transmite a serenidade e os seus mistérios.
 
Boa Páscoa.
 
E vos deixo com a sonata “Für Elise “ de Beethoven.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


domingo, 24 de março de 2013

Confissões




 
 
 
 
“Sono Profundo”, 2013
Pintura sobre tela
 
 
Tenho uns amigos que escrevem maravilhosamente. Eles contam tudo. Questões privadas. Privadíssimas até. Eu leio sempre deliciado cada artigo nos seus respetivos blogs. São o meu alimento diário na leitura matinal. Os jornais já foram. Agora, neste constante tempo de mudança, a voz é não só do jornalista, mas também dos outros. Eu que desesperava, ler, em adolescente, o que os ardinas traziam, agora, esse estado de espírito morreu de vez. Os jornais dizem quase nada. Quando dizem. Tudo está diferente. O que me interessa não consta nas muitas (poucas) colunas de notícia. É no que escrevem os meus amigos que encontro a procura desejada. Eu bem sei que o que contam são os pequenos episódios diários, reveladores da expressão mais autêntica do sentido vivencial; ou são as inquietações do espírito perante os dilemas da atualidade, numa delícia descritiva de episódios sentidos, consentâneos com a paixoneta deste meu viver, nos dias de hoje. Já não me interessa ouvir o político A ou B. Fiquei farto e desiludido. E os dias passam.
 
 
Cada aurora é mais um que vivo comungando, sobretudo, com uma pessoa cujo amor é o maior do mundo. Um dia ela irá partir. E se eu cá estiver será certamente muito triste esse tempo. Tudo acaba. Até a vida de uma mãe.
 
E vos deixo com palavras, neste tempo Pascal, de Textos Bíblicos:
 
“A vista não se sacia de ver, nem o ouvido se farta de ouvir.”


domingo, 17 de março de 2013

Arte e Religião (I)

 
 
 
 
 
 
 
"Danie", 2013
Pintura sobre tela
 
 
 
 
 
Esta semana não se falou senão no novo Papa. E quase só do mesmo. As notícias são breves e repetitivas até ao próximo evento. Depois um outro acontecimento faz esquecer o passado recente. É, esta, a máquina trituradora da abordagem comunicativa que questiona os problemas nos dias de hoje. Desta feita foi a Igreja o alvo da notícia. Não pela sua ação no terreno mas, só, pela sucessão de uma cadeira de poder.
 
 
A igreja, entre os muitos caminhos trilhados no fundamentalismo inquisitorial ou no catolicismo divulgador dos ensinamentos da fé e da cultura, promoveu essencialmente na arte a escrita, a música, o canto, a arquitetura, a pintura, a escultura e as artes decorativas, como meio de espalhar os ensinamentos doutrinários, tendo hoje todo um passado que está aberto ao mundo para contemplação nos muitos edifícios que fazem parte do seu património. A arte ocidental não seria a mesma sem a orientação eclesiástica que se conhece. E, porque vivi sempre neste espaço judaico-cristão, o que faço, o que pinto é, somente, a continuação dos grandes mestres ocidentais. Noutra escala. Obviamente.
 
 
E vos deixo com as palavras de George Hegel, in “Lições de Estética”:
 
“O mais alto objetivo da Arte é o que é comum à Religião e à Filosofia. Tal como estas, é um modo de expressão do divino, das necessidades e exigências mais elevadas do espírito.”
 


domingo, 10 de março de 2013

Pensamentos Longínquos

 
 
 
 
 
 
 
“Pensamentos Longínquos”, 2013
Pintura sobre tela
 
Só nos zangamos com aqueles que nos são mais próximos. Os outros (que podemos não gostar mesmo nada) são apenas desaconchegos do espírito por razões culturais, religiosas, políticas ou, até, por pura inveja ou ignorância; mas quando ficamos feridos com os que conhecemos tudo tem outra tonalidade e, o desenlace tem o fim do costume, ou acaba mesmo mal. Tudo termina, mas no hiato da incerteza, as dores da discórdia são o alimento das angústias e da tristeza, que percorre um instante ou uma vida inteira. E acontece tanto. Por dá cá aquela palha. Também.
 
 
“Pensamentos Longínquos” é apenas um retrato. O resto é especulação ou não fosse a arte um labiríntico discurso inventivo.
 
 
 
E vos deixo com as palavras de Benjamin Franklin que disse um dia:
 
“A discórdia almoça com a abundância, janta com a pobreza, ceia com a miséria, e dorme com a morte.”