segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Projetos




Idealizar é um bem que ultrapassa a realidade e que nos faz viver outros mundos e outras vidas. É muito mau quando se perde a noção dos limites e da verdade. É péssimo quando a mentira passa a ser a própria existência. É catastrófico quando tudo se desmorona num mar de calamidade e de destruição. É excelente quando se abrem portas para construir e alcançar outros patamares de felicidade e bem-estar. A fronteira entre projetar bem ou mal depende de nós e só de nós. Sempre.

Esta imagem é representativa do meu modo de trabalhar. Tenho uma ideia pictórica e depressa passo para a tela desenhando. Depois surgem outros projectos e o interesse inicial em realizar a pintura previamente concebida fica na lista de espera. Umas vezes por pouco tempo. Outras não. Demoram anos. E, como acontece muitas vezes, apenas passou de um desejo que outros interesses mais relevantes definitivamente impediram que se tornasse realidade… e as telas, por pintar, continuam a aumentar. A aumentar. A aumentar História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Roger Nimier que disse:

“Um homem sem projetos é o inimigo do género humano.”

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Acabar




Acabar é sempre sinónimo de um fim. De uma conclusão. De qualquer coisa que chegou ao seu termo. Acabar é finalizar um percurso, uma actividade, um acontecimento, um momento, um destino. E há dois lados a analisar: um é o princípio elementar de que o que começa tem de acabar. O outro é o significado desse termo. Para uns é um final feliz. Se é só para uns significa que há sempre alguém que não fica feliz com o fim de qualquer coisa. Acabar é, grosso modo, o desfecho final de tudo que forma a nossa vida. Com alegrias. E tragédias também.


Esta tela de 81x100cm predominantemente com cores frias, onde os azuis e verdes dominam a composição, tem na horizontalidade a expressão maior em termos formais.”Espelho de água” (nome deste trabalho pictórico) faz parte da série, onde a representação da natureza se mistura com a figura humana, numa procura simbiótica de harmonia e beleza. História da Minha Pintura.


E termino com as palavras de Maquiavel, in “Histórias Florentinas”:

“O que tem começo, tem fim.”

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Começar




Começar é, em muitos casos, uma incógnita sobre o que virá depois. Por muito que se calcule; por muitas conjecturas; por muitos exames prévios; por muitas previsões e estudos; por muito que se faça para imaginar o futuro – ele – é, eternamente, uma incerteza. Há sempre imponderáveis a surgir no percurso de uma obra, de uma vida, de um caminho por mais simples que ele seja. Felizmente que é assim, embora gostássemos de saber antecipadamente. A incógnita, a dúvida, a incerteza, o mistério acabam por ser, afinal, o fruto desejado, porque verdadeiramente o que nos atrai é o desconhecido e, por essa razão, iniciamos tantos projectos com a incerteza crendo, contudo, que chegaremos lá, só porque começamos..

É sempre assim que começo a pintar. Gosto de escolher uma cor para a base da pintura; dividir o espaço em quadrículas para que as proporções e a utilização da régua e do esquadro funcionem melhor; desenho com formas simples apenas para colocar os elementos na composição. Depois é que começa o nascimento das cores. E a incerteza também. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Jean Paul Sartre:
“Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.”

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Quando vier a Primavera




Quando vier a Primavera

“Quando vier a Primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim…”

Excerto do poema de Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos
Heterónimo de Fernando Pessoa


As cidades cresceram gerando betão e alcatrão em todo o lado e sufocando com tanto carro, gente e barulho a vida das pessoas. E surgiram como um oásis -no meio de tanta construção - os jardins, também eles um modo controlado de gerir a natureza. Nos dias de hoje tudo é planeado: plantas, árvores, formas e cores. E é pelo desejo de fugir de tanto bulício que se vai ao jardim. As crianças brincam, os adolescentes criam os espaços romanceados e, os outros, encontram o silêncio e o ar puro( possível) que procuram. É pois, nesta atmosfera mista de natural e artificial que, na ilusória vivência, se convive com a natureza nas cidades. Aos domingos. E só aos domingos…

Esta pintura “Jardim Encantado”, em tela, de 73x92 cm, é um retrato de um espaço inventado onde a natureza humana se mistura com a beleza das flores numa procura e numa comunhão de formas e cores. É assim este meu modo de olhar o mundo e procurar o encanto e a formosura fugindo ilusoriamente de tanto betão, tanta injustiça e tanto desencanto. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Jean Jacques Rousseau:

“A natureza nunca nos engana; somos nós sempre que nos enganamos.”

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Os dois horizontes




“Dois horizontes fecham nossa vida:
Um horizonte, - a saudade
Do que não há de voltar,
Outro horizonte, - a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, - sempre escuro, -
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro…”


De Machado de Assis, in “Crisálidas”


Arte é fingimento; é ilusão; é fuga; é invenção. História da Minha Pintura.


E vos deixo com as palavras de Paul Valéry in “Tal Qual”:

"espaço é um corpo imaginário, como o tempo é um movimento fictício."

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Teu Olhar



O Teu Olhar

"Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!"

Florbela Espanca, in a “Mensageira das Violetas”

“Pedro e Inês”é uma pintura em tela de 73x92 cm que retrata a sedução entre dois jovens num jardim. São muitas as histórias que se podem contar sobre o relacionamento humano e as ondas de felicidade ou as tragédias que envolvem. Aqui parti da alusão histórica para construir uma imagem onde as formas e cores procuraram gerar um ambiente paradisíaco. A pintura é isso mesmo: sedução e fantasia. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras extraídas de textos judaicos:

“São os olhos que dizem o que o coração sente.”

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Um ano depois




O tempo foge. Foge sempre quando olhamos para o passado. Tudo parece andar demasiado depressa quando desejamos viver mais o presente e a vida. Nem para todos é assim. Para alguns, bem pelo contrário, os dias são eternamente longos. Até as horas. Até os minutos. Depende do que queremos no instante ou no percurso do caminhar em busca do significado da existência. Depende de cada um. O tempo é sempre o mesmo. As horas duram o que duram de igual modo. Nós não. Umas vezes tudo parece certo. Mas só raras vezes. E sempre assim será. Felizmente. Ou talvez não.

Estas telas são apenas algumas feitas no espaço de um ano. Foi muito trabalho. Foi pouco trabalho. Umas vezes correu bem. Outras, como acontece muito comigo, não podia ser pior. É o meu desencontro com a vida, com a história, e com tudo que transforma os meus dias umas vezes curtos, outros, bem longos. Eu queria tanto mostrar tanto , tanto. Mas não sou capaz. Sou vencido pela preguiça, pela incapacidade de criar mais e sempre tendo como desculpa: o tempo. O tempo, esse, tem o seu tempo. História da Minha Pintura.


E vos deixo com as palavras de Carlos Drummond de Andrade



Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes.”