segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Teu Olhar



O Teu Olhar

"Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!"

Florbela Espanca, in a “Mensageira das Violetas”

“Pedro e Inês”é uma pintura em tela de 73x92 cm que retrata a sedução entre dois jovens num jardim. São muitas as histórias que se podem contar sobre o relacionamento humano e as ondas de felicidade ou as tragédias que envolvem. Aqui parti da alusão histórica para construir uma imagem onde as formas e cores procuraram gerar um ambiente paradisíaco. A pintura é isso mesmo: sedução e fantasia. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras extraídas de textos judaicos:

“São os olhos que dizem o que o coração sente.”

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Um ano depois




O tempo foge. Foge sempre quando olhamos para o passado. Tudo parece andar demasiado depressa quando desejamos viver mais o presente e a vida. Nem para todos é assim. Para alguns, bem pelo contrário, os dias são eternamente longos. Até as horas. Até os minutos. Depende do que queremos no instante ou no percurso do caminhar em busca do significado da existência. Depende de cada um. O tempo é sempre o mesmo. As horas duram o que duram de igual modo. Nós não. Umas vezes tudo parece certo. Mas só raras vezes. E sempre assim será. Felizmente. Ou talvez não.

Estas telas são apenas algumas feitas no espaço de um ano. Foi muito trabalho. Foi pouco trabalho. Umas vezes correu bem. Outras, como acontece muito comigo, não podia ser pior. É o meu desencontro com a vida, com a história, e com tudo que transforma os meus dias umas vezes curtos, outros, bem longos. Eu queria tanto mostrar tanto , tanto. Mas não sou capaz. Sou vencido pela preguiça, pela incapacidade de criar mais e sempre tendo como desculpa: o tempo. O tempo, esse, tem o seu tempo. História da Minha Pintura.


E vos deixo com as palavras de Carlos Drummond de Andrade



Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes.”


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Eu sou do tamanho do que vejo



"Eu Sou do Tamanho do que Vejo
Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver."


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VII"
Heterónimo de Fernando Pessoa


“Um dia no campo” é uma tela de 80x100 cm em que inicio, de novo, a representação da natureza onde as cores dominam a composição num eterno jogo de múltiplas formas e de cambiantes cromáticos. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Johann Goethe in “Natureza e Arte.”:


“A natureza e a arte parecem afastar-se, mas antes que o pensemos já elas se encontraram.”

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mãe e filho




Quando Eu For Pequeno


“Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono…”

De José Jorge Letria


Na História da Arte o tema da “Mãe e Filho” é eternamente recorrente. A “Pietá” de Miguel Ângelo; as “Madonas” renascentistas; Picasso e o período azul; Almada com inúmeros desenhos com mães e filhos e tantos outros, tantos outros. A arte é o reflexo da vida e sempre o elo umbilical constará como forma de analisar - através dos diferentes domínios artísticos - a maravilhosa relação entre seres que estão unidos pelos afectos e pelo sangue. Felizmente que é assim. E porque somos como somos os artistas retratam infinitamente este modo de estar, de conviver, de amar, e de dar sentido à vida. Uma mãe é uma mãe. Amor de mãe é único. E ter um filho é ter uma responsabilidade para os dias todos. Quantas histórias, quantos episódios, quantas dores, quantas alegrias neste relacionamento? E porque é tão abrangente procurei, também eu, retratar uma mãe e um filho comungando um momento igual a tantos outros mas que é sempre muito vivido e amado.

“ O pequeno-almoço” tela de 73x92 cm é uma cena doméstica onde o uso da perspectiva e os diferentes cromatismos acentuam a profundidade e dominam esta composição, cheia de linhas de muitas orientações, na busca da ilusão do espaço. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Sófocles in "Fedra":

Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida.”

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Fragmentos







A análise de tudo é fragmentada. Qualquer simples episódio é analisado através da síntese do facto em si. Tudo, mas mesmo tudo, é apenas uma parcela da realidade. Por mais criterioso que seja o julgamento fica muito por dizer e por considerar. É mesmo assim. Apenas interessa o que é fundamental ou tido por necessário. E a verdade, tantas vezes, é bem diferente do juízo final e da consideração social. É este o nosso mundo. No passado e no presente.

Estas imagens fazem parte de uma pintura que fiz em tempos idos. Cada um destes elementos falam por si e dizem muito, no entanto, porque são apenas parcelas dizem pouco da globalidade, desta tela de 81x100 cm que narra uma atmosfera oriental e um momento vivencial tão comum em muitos meios citadinos. A arte e a vida devem ser vistas no seu conjunto e não apenas em esporádicos episódios como é comum, aqui e em muito lado, nos dias de hoje. Infelizmente. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras do padre António Vieira:

“Para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessárias obras.”

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Perdidos e achados




Perder e encontrar é sempre bom. Há uma sensação quase de alívio e de bem-estar. Também há quem encontre sem ter perdido nada. Encontrar o que não lhe pertence tem outro sabor: desinteresse, gula ou pena. Do que não gostamos pouco queremos saber; ter mais é um mal dos gananciosos, sobretudo se apenas se pretende ter, e, ter mais, mesmo que seja indevidamente; quando entramos no calvário dos outros sentimos dó e acompanhamos a dor da perda. Há de tudo, para todos os gostos, neste mundo de perdidos e achados. Tudo mesmo.


Perder ou encontrar qualquer coisa é tão normal. Sempre fui um desencontrado com tudo. Nunca sei onde deixo os mais banais objectos. Penso (erradamente) que só me devo preocupar com valores maiores. É um puro engano. Perde-se concentração e sentido de orientação. Eu sou assim. E, talvez, por isso gosto de pintar temáticas onde a incerteza está presente. A minha pintura é o melhor retrato deste modo de registar as fraquezas, em que “perdidos e achados” são a expressão maior deste meu modo de ver e sentir o que me cerca.


Esta tela marca mais uma etapa desta série pictórica que está a chegar ao fim. A representação feminina no espaço fechado irá dar lugar ao exterior onde a verdura campestre e o azul dos céus ocuparão um lugar de destaque fugindo, assim, deste hermético casulo que tem sido a característica dominante dos meus últimos trabalhos.

Esta tela (81X100cm) é um confronto de cores e luzes numa perspectiva psicológica do estar e do ser num contexto, aqui num retrato: “Mara.” História da Minha Pintura.


Recordo hoje as palavras de Clarice Lispector:


“Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando.”

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Retratos







Quando nos olhamos procuramos sempre ver o lado bom de nós próprios. Os outros, por amizade, cortesia, inveja, ou cinismo encontram uma outra dimensão daquilo que somos, ou parecemos ser. Ninguém reúne o consenso quer do positivismo, quer da maledicência. Há sempre alguém que encontra algo para contrariar e qualificar. Somos pois uma mistura de conceitos, de valores, de expressões. Para uns é valorizado o lado estético; para outros a dimensão humana, o carisma, a inteligência, isto e aquilo, ou, bem vistas as coisas todos temos, ou não, um pouco de tudo. Para o bem ou para a desgraça.

Na História da Arte muitos foram os auto-retratos deixados pelos artistas. As imagens aí estão: umas em pedra, outras em tela, outras em vídeo, outras em fotografia e outras, até, criadas pelo imaginário colectivo. É fácil reconhecer, em muitos casos, quem foram os autores das obras e, nem imaginamos como eram fisicamente os seus criadores. Quem conhece um pouco de pintura reconhece as obras de Matisse, de Bonnard ou de Modigliani, no entanto, pode desconhecer, em absoluto, a fisionomia de cada um deles. Hoje, graças sobretudo à fotografia e às suas características técnicas, uma imagem traduz com fidelidade a realidade, embora, ela, agora, mais que nunca, possa ser transfigurada. E curioso é que não associamos, muitas vezes, as obras à fisionomia e até ao sexo. A obra de arte é assim um produto que transporta consigo muitas interrogações entre o acto de fazer, os seus artistas e a sua natureza. História da Minha Pintura.


E vos deixo com as palavras de Florbela Espanca:


“ Um retrato é apenas a ideia aproximada de uma pessoa. A graça de um sorriso, o olhar, a expressão e tudo quanto para mim é a beleza, não pode verdadeiramente existir num retrato.”