segunda-feira, 20 de junho de 2011

Nada de novo










Há quem viva na expectativa de um milagre; da vinda de um D. Sebastião; de um ideal. E há os outros: aqueles que desistiram de acreditar, e, estes são os eternos derrotados de hoje, de ontem e de amanhã, porque apenas querem que tudo fique igual, todos os dias. Eu não. Eu preciso de ter sonhos para continuar nesta labuta diária que é pintar o que vai dentro de mim, que é tão só a procura da serenidade. E mais nada. E mais nada.

Estas obras por muito desencontradas que sejam são – a meu ver – o retrato de um sentido e de um desejo de estar e sentir, aqui e agora, ontem como hoje e, talvez, para sempre. História da Minha Pintura.

E termino com as palavras de Agostinho da Silva, in “Parábola da Mulher de Loth “:

“O ideal da vida deve ser acima de tudo a serenidade.”

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Tempos de mudança



Nestes tempos de mudança, cujo caminho está mais cheio de incertezas que convicções, tudo gira numa constante angústia de deveres e valores sem sentido. O certo de ontem é a desordem de hoje. Todo o tempo é de mudança. Sempre foi. Aceitar este princípio é a grande questão, no entanto, o mundo pode e deve mudar, mas não a qualquer preço. Como acontece hoje muito. Infelizmente.

Esta tela é o retrato de um espaço onde tudo parece estar no sítio certo, bem longe das convulsões que gravitam por todo o lado e que quebram este silêncio e esta tranquilidade, que é o saborear do saber viver sem os desejos dos sete pecados mortais. É tão fácil estar longe estando tão perto e vice-versa. E porque é assim, a minha caminhada pictórica é um imenso mar de descrições sobre este meu processo de olhar, analisar, contemplar e viver. Aqui procurei transmitir, como sempre faço, o que me motiva e me leva a acreditar que vale a pena pintar, mesmo que tudo me passe ao lado. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Jean de La Fontaine:


“E cada um acredita, facilmente, no que teme e no que deseja.”

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O momento




Hoje não se fala de outra coisa. Hoje é a notícia do momento. Hoje vive-se na expectativa, uns com a esperança e outros com o desencanto. Amanhã será diferente. Depois é a normalidade que trará o olhar da verdade com a crueza factual. Até lá respira-se entre intervalos de dúvidas e de medos. Como sempre nas histórias há quem perca e quem se aproveite para ganhar muito. Depois de amanhã tudo ficará diferente. Obviamente. Agora é apenas um momento com pouca História, porque o importante mesmo nunca é o instante vivido, mas o que fica desse instante. Dos instantes maiores. E só desses.

A pintura é uma descrição de um tempo que, embora narrando a realidade, está sempre muito para além do instante. É mais História e menos curiosidade momentânea de episódios sem futuro; é mais a substância e menos o fait-divers. E porque assim é, é menos cativante para tantos, todavia, acaba por ser a expressão de um tempo e de um modo sem os adereços da superficialidade. Felizmente.


Estas pinturas são o relato que procura englobar um estar e sentir que se distancia de outros processos analíticos de viver e comentar, apenas porque o importante -para a arte - é a dimensão humana e não caprichos e dizeres sem conteúdo. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Montesquieu:

“Quanto menos os homens pensam, mais eles falam.”

segunda-feira, 30 de maio de 2011

In loco




Estar presente, ver com os próprios olhos, apreciar o momento, olhar e dimensionar o tempo e o modo fazem toda a diferença. Assistir aos acontecimentos, sentir o pulsar das coisas, estar lá, viver as situações por vontade própria ou, até, por acaso, geram um sentimento que nenhum relato, filme ou fotografia conseguem igualar. E quando se fala de arte percebe-se bem a diferença entre ver directamente ou visualizar por outros meios técnicos. A arte é mais sentida no contacto directo, tal como tudo na vida. Viver as situações é sempre o que melhor traduz sentimentos e desejos. In loco.

Estas imagens ilustram vários trabalhos que aguardam o momento oportuno para serem vistos, in loco, quando houver oportunidade e interesse. Agora apenas são pinturas que se amontoam neste mar de obras que, como acontece hoje muito, fazem parte da imensidão criativa gerada pelo acreditar de que vale a pena fazer, mesmo que nunca venham a ter qualquer reconhecimento, mas a arte é, em primeira instância, a criação e só depois a apreciação do louvor ou da ferocidade crítica ou, pior ainda, o ingrato e profundo desconhecimento público da sua existência. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de de Simone de Beauvoir:

“É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente.”

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Histórias e histórias




Cada pintura tem a sua história. Onde, como e porquê estão sempre na feitura de um trabalho. Este pode ser apenas mais um e, no entanto, deve conter a razão maior: paixão. Só com entrega absoluta ao que fazemos se pode ir mais longe e fazer toda a diferença. Afinal é tão simples encontrar o caminho certo: verdade. Apenas com seriedade no modo de trabalhar, com afinco, com rigor e persistência se consegue continuar na luta, porque é preciso galgar obstáculos continuamente. Continuamente, ou não fosse arte e vida uma descoberta de batalhas eternas. Felizmente.

Gosto e muito de estar rodeado de gente com histórias e histórias, e, é desse compêndio de vivências que vou buscar a temática para a minha obra pictórica, que é um rosário de sensibilidades onde, através da estética, procuro traduzir o que penso e sinto do mundo que me rodeia. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Friedrich Schiller, in Resignação:

“A história do mundo é o julgamento do mundo.”

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Rotina quebrada



O fascinante e o inquietante é a dúvida sobre o dia seguinte ou, até, o instante imediato. De repente tudo pode mudar. Ninguém tem certezas sobre o destino de cada momento, mas mesmo assim, com tantas interrogações e, neste andar na corda bamba que é o viver, esquecemos a nossa fragilidade existencial. E, porque queremos acreditar numa dimensão humana transcendente, vamos construindo novos mundos e novas esperanças com muitas normas e objectivos. Tudo corre bem com a rotina do costume, todavia, tudo deixa de fazer sentido, quando os sonhos e as expectativas nada valem, perante a realidade cruel que é o fim dos projectos de vida, tal como os concebemos no imaginário do maravilhoso e do fantástico. Tragicamente é assim. É sempre assim. Infelizmente.

Nesta teia de muitos interesses e finalidades a importância das coisas é sempre relativa de acordo com o momento e a circunstância. Pintar, para mim, agora, tem outra dimensão e outro alcance enquanto acto de motivação e de acalento. Para levar a cabo este meu modo de estar bem comigo e com o mundo preciso que o trabalho tenha exigência diária para que os meus sonhos façam sentido, nos bons e maus momentos. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa, in carta a Miguel Torga, 1930:




“Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade….”

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Último dia




Eu Queria Ter o Tempo e o Sossego Suficientes

Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Esta tela ficou concluída ao sétimo dia. A representação do espaço e a postura da figura ilustram a temática: “ A mulher e o lar”. Como sempre procuro que a minha pintura tenha harmonia cromática através de formas e cores e, em simultâneo, seja amplamente comunicativa e tenha junto dos fruidores uma memorização tipificada. Para chegar ao que pretendo luto em busca dos ideais estéticos, que fogem muito da minha paleta. Felizmente, sou teimoso mas, confesso, não encontro alternativas tão aliciantes quanto o prazer que o acto pictórico me dá diariamente, enquanto modo de trabalho e, por isso, farei da arte uma parte de mim, até ao último dia. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Marcel Proust:

“O sono é como uma outra casa que poderíamos ter, e onde, deixando a nossa, iríamos dormir.”