segunda-feira, 9 de maio de 2011

Último dia




Eu Queria Ter o Tempo e o Sossego Suficientes

Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Esta tela ficou concluída ao sétimo dia. A representação do espaço e a postura da figura ilustram a temática: “ A mulher e o lar”. Como sempre procuro que a minha pintura tenha harmonia cromática através de formas e cores e, em simultâneo, seja amplamente comunicativa e tenha junto dos fruidores uma memorização tipificada. Para chegar ao que pretendo luto em busca dos ideais estéticos, que fogem muito da minha paleta. Felizmente, sou teimoso mas, confesso, não encontro alternativas tão aliciantes quanto o prazer que o acto pictórico me dá diariamente, enquanto modo de trabalho e, por isso, farei da arte uma parte de mim, até ao último dia. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Marcel Proust:

“O sono é como uma outra casa que poderíamos ter, e onde, deixando a nossa, iríamos dormir.”

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Porque









Porque quero dizer o que sinto.
Porque o importante é a condição humana.
Porque só a arte diz tanto.
Porque a pintura é o meu domínio.
Porque a paz, a harmonia e o sentido da vida, para mim, surgem com o meu trabalho.
Porque vivo acalentando sentimentos e desejos.
Porque tudo é tão breve.
Porque a arte é a minha paixão, pintor sou.


Estes trabalhos feitos, em momentos diferenciados, definem este meu modo de olhar o mundo, longe dos episódios esporádicos e de breve interesse, como sejam o casamento de um príncipe, ou a morte de um lunático, porque o importante, para mim, é descrever o que somos, e o que queremos ser e porque queremos ser. Tudo mais não passa de meros devaneios históricos. A arte deve ser a expressão dos valores supremos e só desses. E só desses. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Sophia de Mello Breyner e o excerto do poema “Porque” :



“Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não…”

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Hoje











As datas marcam episódios que são relevantes de acordo com os interesses de cada um. Para os portugueses ainda hoje diz muito o que se passou em 1974. O tempo, no entanto, apaga tudo e para as novas gerações o passado não lhes diz nada, porque não o viveram; porque o desconhecem em absoluto; porque não querem descortinar nem lhes interessa o que foi a vida dos pais ou avós. É sempre assim. Tudo é apenas bruma. Tudo passa num instante. O que era fundamental e que foi vivido com ardor, com convicção, com paixão, hoje, bem vistas as coisas, para muitos, foi um engano, uma loucura, uma estupidez, um sonho ou uma utopia. Os sentimentos maiores valem o que valem no momento certo e não mais que isso. E o que ontem era correcto, hoje, porque mudamos, tudo tem outra leitura, ou não fosse a vida, de todos, uma descoberta de certezas e enganos. E ainda bem.

A minha pintura tem sido uma caminhada de muitos enganos e poucas certezas. Creio firmemente que este meu modo de estar me leva por tantos enviesados percursos. Eu sou assim. Gosto de experimentar novas propostas pictóricas para tirar conclusões. Muito do que fiz, reconheço hoje, foi tempo perdido. Mas aqui estou com fé e determinação. O futuro dirá se fiz bem ou não, confesso, sinceramente, que é a paixão a condutora nesta minha caminhada da criação, mesmo remando contra a maré e contra moinhos de vento, mas vale a pena, quando a alma não é pequena. História da Minha Pintura.

E vos deixo com um excerto poético de Fernando Pessoa:

“… Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca…”













segunda-feira, 18 de abril de 2011

Diferentes emoções




Todos os dias temos emoções. O tempo, o vivido e, as agruras fazem-nos ter, perante os mesmos acontecimentos, emoções diferentes. Tudo pode ser igual, mas nós, porque estamos a mudar, todos os dias, reagimos perante a mesma realidade de modo diferente. E tudo acontece, grosso modo, porque a aprendizagem é uma constante e essa acontece, até mesmo, quando pensamos que já tudo está bem definido no nosso modo de ser e estar. Basta um acontecimento imprevisto para o nosso olhar mudar totalmente. O que ontem era certo, hoje, bem pelo contrário, é a dúvida permanente. Felizmente que assim é. A nossa vida é uma incerteza a cada instante, para o melhor e, obviamente, para aquilo que nunca desejamos, mas é esta incerteza que faz do viver uma força e um desejo de luta. E tudo porque o sonho comanda a vida.




Estas imagens retratam os cantinhos do meu espaço, onde as minhas pinturas pululam entre os objectos que fazem parte do meu viver e aquilo que é o meu modo de expressão. A pintura que faço é a forma que encontrei para dizer o que sinto e aquilo que considero importante, mesmo que a onda de interesse mercantilista seja bem diferente, ou não fosse este nosso tempo uma caminhada de muitos cruzamentos, uns compreensíveis, outros, pelo contrário, a negação da razoabilidade e da verdade, quer se trate de puro fruir estético ou intercâmbio de culturas e povos. História da Minha Pintura.



E vos deixo hoje com as palavras de Fernando Pessoa, in “Livro do Desassossego”:



-“ Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.”

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Silêncio profundo




O Silêncio


"Quando a ternura

parece já do seu ofício fatigada,


e o sono, a mais incerta barca,

inda demora,


quando azuis irrompem

os teus olhos


e procuram

nos meus navegação segura,


é que eu te falo das palavras

desamparadas e desertas,


pelo silêncio fascinadas."


Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"



Momentos há em que o silêncio é de ouro. Um murmúrio, uma simples frase, um pálido ruído é mais do que suficiente para tudo quebrar. Momentos há que o melhor do mundo é tão só o silêncio profundo. Momentos há em que nada interessa senão o silêncio. Momentos há que o silêncio nos diz tudo, nada dizendo. Momentos há.



Esta tela procura retratar um instante onde o silêncio é dominante, num ambiente em que o espaço e a postura dominam e geram julgamentos variados. Cores quentes predominam numa composição onde a luz tem a força expressiva que traduz o eterno jogo do claro-escuro tão frequente na pintura. História da Minha Pintura.



E termino com as palavras de Alfred de Vigny:


-“Apenas o silêncio é grande, tudo o mais é debilidade.”



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Que futuro?




Quer queiramos ou não as conversas acabam todas na desgraça do costume: o estado do país real. A bancarrota está aí ao virar da esquina. De tanto ouvir só agora os “entendidos”da coisa pública condenar as tropelias e as soluções para remediar a desgraça que o futuro nos reserva, o melhor mesmo, é fazer como a avestruz: colocar a cabeça na areia, dizendo de outro modo, pensar positivamente, trabalhar com verdade e acreditar na capacidade e vontade de vencer. É o que eu faço. Todos os dias, numa luta contra os moinhos de vento em busca do sonho que comanda a minha vida. Depois se verá. O futuro é, afinal, um dia de cada vez.



Estes trabalhos fazem parte do que agora ando a pintar. Todos os dias procuro, com esta ansiedade, criar uma série temática que consiga traduzir este modo de sentir a vida através do que nos rodeia, e do que transmitimos com os nossos gestos e as nossas posturas, neste Portugal tão triste. Pintar é, apenas e só, contar alguma coisa com cores e formas. História da Minha Pintura.


E vos deixo com as palavras de William Shakespeare: “Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser.”

segunda-feira, 28 de março de 2011

Trabalho




Trabalhar é executar uma tarefa com o propósito de criar riqueza que seja de interesse e reconhecido, por quase todos, como necessário. É um conceito. É uma das muitas definições. Há outras. Hoje, como acontece muito, longas horas de labuta não significam, de modo nenhum, que se tenha produzido algo de interesse ou reconhecido como necessário. Há aqueles que trabalham tanto e apenas geram burocracia; outros, galgando etapas, fazem mais sem obedecer a critérios de gente duvidosa; outros ainda criam sonhos que se destinam ao ego ou, a posturas de vida em contra-ciclo com os dias de hoje. Como sempre. Felizmente.



Estas imagens retratam a identificação das minhas obras e a data da conclusão das mesmas. Por aqui se pode ver o ritmo do trabalho e o tempo que medeia entre as peças. Para conseguir fazer estas pinturas foi preciso ter um método, um grande rigor temporal e exigência pessoal. É assim que eu trabalho, no entanto, tudo não passa da feitura de pintura que vale o que vale, ou seja, neste nosso mundo há de tudo: o que interessa e o que é dispensável. Para uns a arte é um parente pobre. Para mim não. Importante ou não -aquilo que faço- continua a ser a busca do meu sonho. Felizmente. Penso eu. História da Minha Pintura.


E vos deixo com as palavras de William Shakespeare, in “António e Cleópatra”:

“Para o trabalho que gostamos levantamo-nos cedo e fazemo-lo com alegria.”