segunda-feira, 11 de abril de 2011

Silêncio profundo




O Silêncio


"Quando a ternura

parece já do seu ofício fatigada,


e o sono, a mais incerta barca,

inda demora,


quando azuis irrompem

os teus olhos


e procuram

nos meus navegação segura,


é que eu te falo das palavras

desamparadas e desertas,


pelo silêncio fascinadas."


Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"



Momentos há em que o silêncio é de ouro. Um murmúrio, uma simples frase, um pálido ruído é mais do que suficiente para tudo quebrar. Momentos há que o melhor do mundo é tão só o silêncio profundo. Momentos há em que nada interessa senão o silêncio. Momentos há que o silêncio nos diz tudo, nada dizendo. Momentos há.



Esta tela procura retratar um instante onde o silêncio é dominante, num ambiente em que o espaço e a postura dominam e geram julgamentos variados. Cores quentes predominam numa composição onde a luz tem a força expressiva que traduz o eterno jogo do claro-escuro tão frequente na pintura. História da Minha Pintura.



E termino com as palavras de Alfred de Vigny:


-“Apenas o silêncio é grande, tudo o mais é debilidade.”



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Que futuro?




Quer queiramos ou não as conversas acabam todas na desgraça do costume: o estado do país real. A bancarrota está aí ao virar da esquina. De tanto ouvir só agora os “entendidos”da coisa pública condenar as tropelias e as soluções para remediar a desgraça que o futuro nos reserva, o melhor mesmo, é fazer como a avestruz: colocar a cabeça na areia, dizendo de outro modo, pensar positivamente, trabalhar com verdade e acreditar na capacidade e vontade de vencer. É o que eu faço. Todos os dias, numa luta contra os moinhos de vento em busca do sonho que comanda a minha vida. Depois se verá. O futuro é, afinal, um dia de cada vez.



Estes trabalhos fazem parte do que agora ando a pintar. Todos os dias procuro, com esta ansiedade, criar uma série temática que consiga traduzir este modo de sentir a vida através do que nos rodeia, e do que transmitimos com os nossos gestos e as nossas posturas, neste Portugal tão triste. Pintar é, apenas e só, contar alguma coisa com cores e formas. História da Minha Pintura.


E vos deixo com as palavras de William Shakespeare: “Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser.”

segunda-feira, 28 de março de 2011

Trabalho




Trabalhar é executar uma tarefa com o propósito de criar riqueza que seja de interesse e reconhecido, por quase todos, como necessário. É um conceito. É uma das muitas definições. Há outras. Hoje, como acontece muito, longas horas de labuta não significam, de modo nenhum, que se tenha produzido algo de interesse ou reconhecido como necessário. Há aqueles que trabalham tanto e apenas geram burocracia; outros, galgando etapas, fazem mais sem obedecer a critérios de gente duvidosa; outros ainda criam sonhos que se destinam ao ego ou, a posturas de vida em contra-ciclo com os dias de hoje. Como sempre. Felizmente.



Estas imagens retratam a identificação das minhas obras e a data da conclusão das mesmas. Por aqui se pode ver o ritmo do trabalho e o tempo que medeia entre as peças. Para conseguir fazer estas pinturas foi preciso ter um método, um grande rigor temporal e exigência pessoal. É assim que eu trabalho, no entanto, tudo não passa da feitura de pintura que vale o que vale, ou seja, neste nosso mundo há de tudo: o que interessa e o que é dispensável. Para uns a arte é um parente pobre. Para mim não. Importante ou não -aquilo que faço- continua a ser a busca do meu sonho. Felizmente. Penso eu. História da Minha Pintura.


E vos deixo com as palavras de William Shakespeare, in “António e Cleópatra”:

“Para o trabalho que gostamos levantamo-nos cedo e fazemo-lo com alegria.”

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dias contados






Acontece muito: contamos os dias. Os dias que faltam para isto ou para aquilo. Para o que desejamos de bom ou, infelizmente, porque nunca mais chega o fim do mês para receber (quando se recebe) o vil pilim. E contamos muito os dias e os anos sobre tudo e sobre nada. E o tempo passa nesta contagem, em que queremos que algo mude porque, quando não queremos mudar nada, tudo está mal. A inconformidade é um estado de alma permanente que nos leva a desejar eternamente viver outros episódios, outras descobertas, outros desafios. Desejar manter tudo igual é sinónimo de conformismo, de velhice, de gente derrotada que não espera mais nada da vida senão o arrastar das situações. Felizmente que predomina a vontade de novos rumos em busca de imaginários mais lustrosos e encantadores, ou não fossemos todos nós uns eternos sonhadores. E ainda bem. E ainda bem.

Estas imagens mostram o meu modo de trabalhar. Aqui, primeiro fiz uns esboços em que tudo acabou numa aguarela e, só depois, surgiu a tela que é a continuidade lógica de toda a minha busca. Conto os dias que cada obra leva a ser feita, porque quero fazer mais e mais, nesta minha caminhada solitária em busca do sonho. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Jean de La Fontaine:

“Pela forma como trabalha se avalia o artista.”

segunda-feira, 14 de março de 2011

Outros olhares




É sempre assim. O tempo, ou dizendo, a experiência de vida, faz ver os mesmos acontecimentos de formas diferentes. Cada um faz as análises do que vê de acordo com o seu modo de estar e sentir em determinado momento das nossas vidas, o que significa, simplesmente, mudar continuamente de opinião, ou não fossemos, eternamente, uns aprendizes. Felizmente.



Esta pintura, ainda por concluir, é mais um retrato onde o olhar tem a força que expressa o que sentimos a cada instante. Procurei, aqui, captar o momento certo, onde o espaço envolvente transporta consigo interesses, interrogações e, naturalmente, certezas. Contraste de cores e ambiente fechado, mas cheio de luz, fazem a história desta pintura, que é uma das primeiras desta série pictural, em que a mulher e a casa são os protagonistas. História da Minha Pintura.



E termino recordando as palavras sábias, de textos judaicos, extraídas do “Pensamento Rabínico”:


- “São os olhos que dizem o que o coração sente.”

segunda-feira, 7 de março de 2011

É Carnaval




O Carnaval é o faz de conta. É agora assim no país real. Os portugueses aplaudem: os professores trabalham mais, graças às reuniões sem fim, sobre o sexo dos anjos, esquecendo a tutela que a escola é para ensinar e não para tanta burocracia; o mesmo acontece com os enfermeiros e médicos que precisam de preencher papelada sem fim, logo, sobrando menos tempo para os doentes; os militares - a acreditar no que dizem os americanos através do Wikileaks - compram “brinquedos” caros mas não têm dinheiro para os combustíveis do patrulhamento; a justiça demora 13 anos a acusar um arguido do rapto de uma criança; as finanças estão como estão com os empréstimos a 7% num país sem criação de riqueza, mas que vai ter um TGV e tem estádios de futebol onde não se joga futebol. Enfim, este é o país real, no mundo da fantasia que é o Carnaval.


Bom Carnaval para todos.

Estes meus trabalhos, em aguarela, retratam momentos em que a fantasia e a realidade se misturam, num jogo onde tudo tem sentido, nada fazendo sentido. A arte tem estas regras. Felizmente. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Mark Twain:

“Não abandones as tuas ilusões. Sem elas podes continuar a existir, mas deixas de viver.”

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Contra a corrente



Cada época tem as suas regras e normas que, de um modo ou de outro, acabam por ser consensuais ou, apenas e só, uma aceitação sem sentido crítico e meramente um seguidismo das modas que imperam periodicamente. É mais fácil estar na mesma onda, fazer parte das maiorias e não criar distâncias. Verdade seja dita que o tempo nunca volta para trás. Olhar em frente deve ser sempre o caminho certo, no entanto, tudo depende do que se pretende e como se pretende viver e, daí, tirar os prazeres mundanos que é este andar por aqui, nesta breve passagem dos dias e dos anos. Andar no presente, acautelando o futuro e não esquecer o passado é uma maneira de estar, que gera interrogações, mas é mais fácil deixar andar e o que vier, virá. Uns vivem na angústia do presente com medo do futuro, enquanto outros vivem um dia de cada vez, e, outros ainda, não conseguem sair do passado. Pensando bem, todos temos de fazer um caminho e, esse, depende apenas do que gostamos. Em consciência, ou não…

Hoje são reconhecidos artistas que não quiseram seguir os mesmos caminhos das modas. Lembro Hopper que contra a corrente ia retratando a sua América dos silêncios e dos vazios da alma. Lembro Lucian Freud que nunca quis deixar de fazer os retratos do mesmo modo que outros o fizeram no passado. Mas também lembro Tom Wesslmann que utilizando as novas tecnologias faz obras em que se sente toda a carga do passado, do presente e o advento do futuro.

Esta minha pintura - ainda em execução - mostra os mesmos cenários e os mesmos interesses que tantos outros já relataram. O que pretendo contar é só o meu modo de olhar e ver o que me cerca. Aqui e agora. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Friedrich Schiller que escreveu na “Resignação”:

“A história do mundo é o julgamento do mundo.”