segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Contra a corrente



Cada época tem as suas regras e normas que, de um modo ou de outro, acabam por ser consensuais ou, apenas e só, uma aceitação sem sentido crítico e meramente um seguidismo das modas que imperam periodicamente. É mais fácil estar na mesma onda, fazer parte das maiorias e não criar distâncias. Verdade seja dita que o tempo nunca volta para trás. Olhar em frente deve ser sempre o caminho certo, no entanto, tudo depende do que se pretende e como se pretende viver e, daí, tirar os prazeres mundanos que é este andar por aqui, nesta breve passagem dos dias e dos anos. Andar no presente, acautelando o futuro e não esquecer o passado é uma maneira de estar, que gera interrogações, mas é mais fácil deixar andar e o que vier, virá. Uns vivem na angústia do presente com medo do futuro, enquanto outros vivem um dia de cada vez, e, outros ainda, não conseguem sair do passado. Pensando bem, todos temos de fazer um caminho e, esse, depende apenas do que gostamos. Em consciência, ou não…

Hoje são reconhecidos artistas que não quiseram seguir os mesmos caminhos das modas. Lembro Hopper que contra a corrente ia retratando a sua América dos silêncios e dos vazios da alma. Lembro Lucian Freud que nunca quis deixar de fazer os retratos do mesmo modo que outros o fizeram no passado. Mas também lembro Tom Wesslmann que utilizando as novas tecnologias faz obras em que se sente toda a carga do passado, do presente e o advento do futuro.

Esta minha pintura - ainda em execução - mostra os mesmos cenários e os mesmos interesses que tantos outros já relataram. O que pretendo contar é só o meu modo de olhar e ver o que me cerca. Aqui e agora. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Friedrich Schiller que escreveu na “Resignação”:

“A história do mundo é o julgamento do mundo.”

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A menina Caty





Com a globalização e a facilidade de saber tudo, quase no instante imediato, vivemos com o conhecimento do que se passa em todo o lado. Agora, a notícia dominante é a revolta no mundo árabe e, consequentemente, tudo o que isso acarreta nas nossas vidas. Parece que os deuses estão zangados connosco. Tudo de mau acontece nos dias de hoje e, porque assim é, a angústia é um estado de alma permanente. Para todos. Até para os jovens. Para o futuro, afinal.

Para fazer este trabalho precisei de um modelo: a menina Caty. É este o nome que utiliza, junto dos amigos, esta jovem de pouco mais de vinte anos. Aqui procurei, neste percurso pelo espaço caseiro - temática que elegi para 2011 -, representar a simbologia da inquietação que varre este mundo e particularmente as novas gerações, perdidas nos jogos de interesse e nos dúbios valores contemporâneos.

A minha pintura não conta histórias, apenas pretende sugerir ideias entre formas e cores, ora quentes, ora frias, num contexto que é o meu mundo, com as alegrias e as tristezas, do costume. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Oscar Wilde:

“As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.”

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Dia dos namorados








Hoje é dia dos namorados. É um dia inventado pelo comércio para vender, porque os tempos estão maus e é preciso fazer qualquer coisa, para aumentar as vendas e, no entanto, de um mero interesse mercantilista, o dia de hoje tem um significado muito especial nos nossos corações. Hoje é o dia dos amores: dos actuais, dos desejados e dos perdidos. Hoje, por cortesia, por afecto ou por uma outra razão qualquer, quem tem alguém que lhe toque o coração, certamente que terá uma atenção especial, um carinho, um modo de fazer sentir o lado bom da vida. Depois há os outros. Os que desejam ter alguém para conversar, para conviver ou, melhor ainda, para amar. Estes vivem na expectativa. Talvez, talvez a sorte surja e novas auroras de felicidade apareçam no horizonte. E ainda há os outros, aqueles que vivem pensando no passado, e, no que já não volta mais. Para estes o dia é terrível. Não só não irão receber nenhum carinho, nenhuma oferenda e, apenas e só, terão como sina – tristeza e angústia – afinal, estados de alma tão comuns no mundo ocidental, mesmo naqueles que vivem rodeados de tudo, menos do que gostariam de ter e que nunca terão. É assim no dia dos namorados. Em muito lado. Com muita gente.

Estas aguarelas são registos do modo de olhar o mundo, onde formas e cores procuram traduzir sentimentos e sensações. História da Minha Pintura.


E vos deixo com as palavras de Blaise Pascal:

“O amor não tem idade; está sempre a nascer.”

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Rei morto, rei posto






Estas são as primeiras pinceladas na tela que me fará estar em luta durante as próximas semanas. É sempre uma incerteza qual o desfecho quando inicio um novo trabalho. As expectativas são muitas e o resultado final é a incógnita do costume, ou seja: nunca sei se conseguirei obter a imagem apelativa que tenha os ingredientes para encantar os olhares mais críticos. Enquanto eu tento fazer o meu melhor que é, tão-somente, espalhar tintas numa superfície, o mundo roda, com as incertezas do costume. Agora, mais que nunca, os interesses, próximos e longínquos, estão centrados no norte de África. Ingenuamente, como é costume, ou por ignorância, como é mais usual, uns acreditam em fantasias, onde os “maus” darão lugar aos “bons”, esquecendo que os “maus” poderão dar lugar a outros ainda piores. A uma ditadura poderá suceder outra, como antevejo, enquanto aqui no meu pacato "cantinho" eu vou lutando por uma estética que é também um modo de estar e viver, acompanhando a par e passo o que se passa noutros domínios, porque um pintor é um cidadão do mundo, que vive os dramas e as alegrias mais íntimas e mais globais.

Rei morto, rei posto é sempre a minha luta. A uma pintura sucede outra. O que pretendo não é mudar nada, apenas e só expor ideias, através de imagens que retratam os meus interesses, os meus valores e os meus desejos. História da Minha Pintura.

E vos deixo com um texto judaico extraído do “Pensamento rabínico”:


“As dificuldades incentivam a luta do homem e orientam os seus caminhos.”

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A luta continua






“ O homem nasceu para lutar e a sua vida é uma eterna batalha.”
Thomas Carlyle.


A luta faz parte da vida. Aqui, e, em todo o lado. Pelos melhores propósitos e, pelo pior que há no âmago humano. O trabalho é uma luta pelo desejo da perfeição ou, simplesmente, uma imposição. Neste nosso tempo de tantas lutas e tantas incertezas, tudo pode mudar, transformando os valores e mudando as consciências. Criar é difícil mas... destruir é facílimo. O trabalho de uma vida, um nome, um percurso, tudo pode desmoronar num ápice, no entanto, a luta continua, porque há sempre quem acredite no melhor que há em nós.


Gosto de trabalhar por séries, por temas, por dimensões semelhantes e até cromáticas. Para 2011 pretendo fazer uma vintena de telas de 100x81 cm. Agora vou mostrando o meu modo de agir e o andamento das obras através da execução, das diferentes etapas, das muitas cores que surgem e desaparecem, e dos múltiplos jogos de construções e destruições que geram a pintura. Esta obra, ainda muito longe da sua conclusão, é o exemplo das muitas lutas que fazem parte da vida de um pintor. História da Minha Pintura.


E vos deixo com a mestria de Sarah Chang tocando Sarasate Aires.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Passo a passo






O povo decidiu, está decidido: a maioria não votou. Agora é o regresso à normalidade dos rotineiros dias. Uns estão felizes porque irão para a manjedoura dos bens públicos; outros andam tristes porque não chegaram lá; outros ainda cumpriram o seu dever cívico, dizendo de sua justiça. Resta-nos, como sempre, trabalhar para criar riqueza, ou seja: produzir bens que façam chegar o pão à mesa. Isso é que é importante. “As rainhas de Inglaterra” que esperem pelo próximo evento. Ponto final.

E, nesta caminhada entre a realidade e o sonho, porque sem sonho não há povo que resista aos novos tempos da mudança permanente, há que fazer pela vida. Uns constroem obras de interesse imediato e reconhecido - por todos - como necessário e útil, no entanto, outros ainda, como é o meu caso, limito-me a vaguear entre os prazeres da produção e a contemplação de algo que tem um interesse vago: a pintura.

Hoje mostro como eu trabalho, e, estas imagens retratam os primeiros momentos de uma tela que ainda está longe da sua finalização. O primeiro passo é a disposição quase milimétrica das formas, dentro de um espaço geométrico, bem delineado. Depois, as manchas de cor preenchem a tela na procura da imagem ambicionada que traduza o pensamento, segundo a sensibilidade cromática do artista. Gosto de pintar inicialmente a tela com uma cor dominante que vai, aos poucos, sendo ocupada pelas outras cores. E depois de muita luta, de muito tempo (agora demoro em média 15 dias em cada tela) o trabalho é dado por concluído, mas sempre sujeito a retoques esporádicos. É tão simples e é tão difícil. Ponto final. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de George Eliot:

“Nunca é tarde demais para ser aquilo que sempre se desejou ser.”

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Leituras Trocadas



Aqui acontece isto ou aquilo, ali é importante outra coisa qualquer e, mais além, o que interessa mesmo é um outro assunto. É assim todos os dias, em todo o lado. Uns debruçam-se sobre uma questão, outros fazem, por opção, o contrário. E sempre porque cada cabeça… sua sentença. Enquanto uns se divertem, outros, mesmo ao lado, vivem terríveis dramas. Vidas paradisíacas e infernais convivem lado a lado e que resultam de episódios, quantas vezes, inesperados e que podem ocorrer a qualquer momento, tornando a nossa vida um mar de incertezas e, em simultâneo, de esperança no maravilhoso e no fantástico, mesmo quando tudo parece acontecer num mundo onde apenas, por enquanto, as nuvens são negras, muito negras ou, talvez não sejam negras mas cor-de-rosa, ou de uma outra qualquer cor. Afinal, o mundo tem muitas cores dependendo apenas do modo como se olha para elas e, se queremos ou não ver...
Mais uma pintura, mais um modo de expor uma ideia, um sentimento, um desejo. Este meu trabalho (ainda por concluir), que se arrasta no tempo, é o primeiro que faço em 2011. Cores e formas acabam por identificar um modo de expressão, que resulta de muitas horas de trabalho, em que a procura do belo é o propósito maior. E enquanto mostro um pouco do meu modo de ver o mundo (muito restrito a um pequeno núcleo), tanto acontece aqui e ali. E a pintura continua apenas mostrando um modo parcelar de estar e sentir, quantas vezes, bem longe dos dramas singulares ou planetários, ocorridos mesmo aqui ao lado. Ou talvez não como na Guernica de Picasso, ou nesta pintura de Amada Negreiros. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Voltaire:
“O homem nasceu para a acção, tal como o fogo tende para cima e a pedra para baixo.”