segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Leituras Trocadas



Aqui acontece isto ou aquilo, ali é importante outra coisa qualquer e, mais além, o que interessa mesmo é um outro assunto. É assim todos os dias, em todo o lado. Uns debruçam-se sobre uma questão, outros fazem, por opção, o contrário. E sempre porque cada cabeça… sua sentença. Enquanto uns se divertem, outros, mesmo ao lado, vivem terríveis dramas. Vidas paradisíacas e infernais convivem lado a lado e que resultam de episódios, quantas vezes, inesperados e que podem ocorrer a qualquer momento, tornando a nossa vida um mar de incertezas e, em simultâneo, de esperança no maravilhoso e no fantástico, mesmo quando tudo parece acontecer num mundo onde apenas, por enquanto, as nuvens são negras, muito negras ou, talvez não sejam negras mas cor-de-rosa, ou de uma outra qualquer cor. Afinal, o mundo tem muitas cores dependendo apenas do modo como se olha para elas e, se queremos ou não ver...
Mais uma pintura, mais um modo de expor uma ideia, um sentimento, um desejo. Este meu trabalho (ainda por concluir), que se arrasta no tempo, é o primeiro que faço em 2011. Cores e formas acabam por identificar um modo de expressão, que resulta de muitas horas de trabalho, em que a procura do belo é o propósito maior. E enquanto mostro um pouco do meu modo de ver o mundo (muito restrito a um pequeno núcleo), tanto acontece aqui e ali. E a pintura continua apenas mostrando um modo parcelar de estar e sentir, quantas vezes, bem longe dos dramas singulares ou planetários, ocorridos mesmo aqui ao lado. Ou talvez não como na Guernica de Picasso, ou nesta pintura de Amada Negreiros. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Voltaire:
“O homem nasceu para a acção, tal como o fogo tende para cima e a pedra para baixo.”

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Confissão




“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo…”



Excerto do poema ”Tabacaria” de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa

Hoje não se fala de outra coisa. É nos jornais, é nas televisões, é em todo o lado. É a história de um crime, lá nas Américas. Hoje os mercados financeiros, mais uma vez, dizem que o meu país está doente, significando que os portugueses – quase todos - irão ficar mais pobres, no entanto, o que conta agora, na sensibilidade, talvez bem, seja a tragédia que envolveu dois portugueses, lá longe, muito longe. Conheci o Carlos Castro quando trabalhei com um conhecido galerista lisboeta. Outros tempos, outras gentes. É assim a vida de todos. Para uns é importante a fantasia e o faz-de-conta; para outros, o que conta mesmo é o que se põe na mesa. Opções de vida, pois claro.


Esta imagem retrata um recanto onde trabalho (muitas vezes) procurando encontrar o caminho certo, ou seja: juntar as formas e as cores que transmitam a mensagem que faz parte do meu vocabulário pictórico. Ainda longe da finalização - esta obra -, como muitas outras, ocupa quase todo o meu tempo. Todos os dias, desde muito cedo e até a luz natural acabar, luto num jogo de construções e destruições para conseguir obter a imagem perfeita que traga mais informação e mais crítica, longe da rotina das vidas privadas e da instabilidade dos mercados. O que quero mesmo é apenas e só dizer que a vida é bela, quando encontramos o que procuramos, sem fantasia, nem hipocrisia. E tudo se pode dizer, utilizando as armas inofensivas de um pintor. História da Minha Pintura.


E os meus dias vão passando, longe de tudo e de todos, ouvindo, enquanto pinto, as vozes que admiro, como esta que vos deixo enquanto trabalho nesta obra, ainda bem longe da sua conclusão, já que falta quase tudo, mas eu aqui estou, longe da ribalta e apenas atrás do sonho. E vos deixo com a voz de Maria Callas na ópera de Puccini: "La Boheme" e a ária “Mi Chiamano Mimi” .






segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Retrospectiva





“A história da minha vida é, de facto, a história dos meus quadros e de como os fiz. Porque, de uma forma ou de outra, tudo o que vi ou fiz aparece nos meus quadros.”


Norman Rockwell, in ed. Tashen

As pinturas que coloco hoje, onde surgem locais, amigos, familiares e espaços, retratam um percurso da minha vida. Cada tela é um olhar pelos interesses do momento e um modo de estar e sentir. Cada imagem é um enredo de muitas histórias, umas inventadas, outras desejadas e ainda outras vividas. Pinto para expor ideias que alcançam o seu objectivo quando encontram quem as entenda e, goste de as fruir, porque a pintura é apenas uma imagem onde o importante é a expressividade das cores e das formas.

Rockwell foi um pintor americano adorado pelos compatriotas e muito esquecido pelos seus pares e críticos do seu tempo, no entanto, porque soube, como poucos, retratar uma América onde também há quem saiba sorrir, quem goste de brincar, quem adore a ruralidade e quem tenha ideais nobres, hoje, outros olhos contemplam o seu extenso trabalho pictórico, que é apenas, e somente, a alma de um homem mostrada em cores e formas.

E vos deixo com um excerto do poema “Se, depois de eu morrer” de Alberto Caeiro heterónimo de Fernando Pessoa:


Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas--- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus…”

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ano Novo, Vida Nova



Mais um ano que acaba e outro que vai começar. De novo, cumprindo o ritual, novas expectativas e renovados desejos para os outros 365 dias. É sempre assim. Saúde, dinheiro e amor. Querem todos. Em todo o lado. Sem saúde nada interessa, nada faz sentido, nada é mais valioso; sem dinheiro é difícil viver com dignidade, embora não seja tudo, mas que faz muita falta, lá isso faz; sem amor nada faz sentido. Todos querem o mesmo: bem-estar. Para que reine a serenidade e a paz de espírito é preciso afastar fantasmas e viver, esperando que os deuses não se zanguem connosco. Muita inquietação, muitas dúvidas, muitas angústias ocupam os novos tempos, onde nem a economia nem a política correspondem ao desejado mas, todos temos de reconhecer que não vivemos num mundo perfeito e, que os Homens são o que são. Feliz Ano Novo.

Esta minha pintura retrata sobretudo o futuro. É dos jovens que se espera o progresso e os dias bons, já que os mais velhos não conseguiram cumprir o seu destino. As novas gerações transportam todas as responsabilidades, porque serão eles que, ou resolvem bem o que está mal, ou o caminho é num plano inclinado, ou seja: um futuro de mais injustiça e mais pobreza.

A pintura não conta histórias, aponta apenas indícios. Aqui, neste meu trabalho de 2010, procurei, com poses descontraídas, sugerir um momento de lazer, retratando dois jovens brincando ou remexendo em brinquedos fora de moda. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Machado Assis:

“A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.”

E vos deixo com a música de Mozart e uma ária da ópera “Flauta Mágica.”
Feliz 2011

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

É Natal, É Natal



CHOVE. É DIA DE NATAL

"Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés."

In “Obra Poética”
Fernando Pessoa

O Natal de novo aí está para, no mundo católico, continuar a envolver-nos com a magia simbólica da quadra festiva. O espírito natalício ultrapassa os preconceitos religiosos e sintoniza-se na comunhão comunitária. É o tempo da reunião dos amigos e familiares, estejam eles próximos ou infinitamente distantes. Com oferendas ou sem elas o que conta mesmo é o sentimento latente do amor e da amizade. E precisamos todos, os que muito têm e os que sobrevivem, do calor humano tão singular nestes dias. O pior mesmo é o estar só na noite de Natal. E muitos estão. E muitos estão.

Este pequeno trabalho é uma aguarela que retrata um momento íntimo. Dormir é estar num limbo onde o corpo, que é o nosso, ultrapassa muitas fronteiras e vive episódios desejados ou tristemente recordados. Dormir é também, através desta minha obra, um modo de procurar transmitir a serenidade e a magia do encanto que o sonho nos dá. O que procuro sempre é captar o lado mais cordial, mais relaxante, mais humano que o Homem tem e que, infelizmente, muitos só no Natal encontram (quando encontram) a paz e o afecto. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a voz da Maria Callas cantando Ave Maria de Verdi


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Histórias da Pintura



“Em arte só vive o que continuamente dá prazer”

Stendhal

Estas aguarelas, que são retratos de diferentes modelos, procuram captar personalidades e modos de estar através de poses simples. Gestos banais ilustram momentos que, apesar de tão usuais, carregam consigo a magia da singularidade de cada um. De facto, o que me seduz quando pinto qualquer pessoa é o fascínio, não só do surgimento das formas identificadoras com o retratado mas, sobretudo, a captação do que distingue cada um de nós. É a magia da diferença sem fim que me atrai. Cada pessoa é única e, a arte, a meu ver, deve procurar descobrir o que nos aproxima e nos afasta, para o melhor dos mundos e, infelizmente, também para a desgraça. Pintar não é contar histórias. Pintar é transpor para um espaço formas e cores que apenas procuram construir cenários, onde a imaginação dos olhares geram, obviamente…histórias. História da Minha Pintura.

E vos deixo hoje com o musical “O Fantasma da Ópera”, uma obra de Gaston Leroux , inspirada no livro “Triby” de George de Maurier e que Andrew Lloyd Webber, Charles Hart e Richard Stilgoe maravilharam ao transporem para o teatro e cinema esta peça. Aqui, neste pequeno excerto, entre outros, a voz encantadora de Sarah Brightman.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Arte sem fim



As manifestações culturais estão em todo o lado: nos gestos, nos trajes, nas falas, nos desejos e até nos sonhos. A nossa imaginação é moldada nas vivências do dia-a-dia; desejamos o que julgamos possível imaginar e que esteja ao nosso alcance visionário; falamos de acordo com o nosso meio que é, afinal, produto de longos anos de convivência e de sociabilidade; trajamos em sintonia com as modas do nosso tempo, ou seja, em harmonia com a cultura contemporânea; gesticulamos, obviamente, com os trejeitos do tempo presente que, mais não é, comunicação de uns com os outros, através de posturas comuns, por todo o nosso planeta. E assim, sem darmos conta, nos manifestamos com atitudes culturais, que uns, mais afoitos que outros sabem tirar partido, criando obras ou situações que nos invadem e nos deliciam, de acordo com os nossos desejos e interesses. Coisas dos homens e dos tempos. Como sempre.

Este conjunto de aguarelas - obedecendo ao meu modo de trabalhar – procura, através de uma temática pré-definida, dar uma imagem de retratos de um tempo onde os gestos, os trajes, as falas (ou a ausência delas), os desejos e até os sonhos se vislumbram nas linhas e nas cores destas obras feitas em papel e com a pose de modelos. História da minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Paul Valery:

“O objectivo profundo do artista é dar mais do que aquilo que tem.”

E vos deixo com a música de Bellini, a voz de Angela Gheorghiu e a ária Casta Diva da ópera Norma, que muito me acompanha no meu ateliê enquanto trabalho na solidão.