segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Todos iguais e todos diferentes



Somos todos iguais na anatomia e diferentes na sensibilidade. E porque somos tão distintos uns dos outros, eternamente nos guerreamos em busca da “nossa razão”, que é a melhor, mesmo podendo ser a pior. É assim hoje - aqui e agora - como ontem e desde sempre. Iguais na espécie humana sendo ora gordos e magros, ora altos e baixos, ora escuros e claros, ora tão desiguais nas parecenças e paradoxalmente tão semelhantes. Diferentes religiões e diferentes culturas separam-nos. Tão iguais enquanto seres humanos e tão diferentes nos comportamentos e necessidades. Todos iguais e todos diferentes. Eternamente diferentes. Eternamente iguais.

Esta pintura, de 2010, é um retrato que procura caracterizar um relacionamento que, ainda hoje, é foco de muitas leituras e de juízos críticos díspares. A análise de um tempo e de um modo de vida dependem das variáveis sociais, que nos conduzem pelos caminhos da serenidade e do pensamento evolutivo, no entanto, como acontece sempre, há as forças da estagnação e do pensamento retrógrado.

Esta tela, onde, em termos cromáticos dominam os tons cinzas, é constituída por elementos mínimos para centralizar a questão temática. A pincelada procura ser contida num jogo de luzes e sombras que buscam expressividade. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de George OrweII:

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.”

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Dormitando



Momentos há que estamos entre dois mundos: o real e o imaginário. É preciso, obviamente, ter presente a verdade da vida e, também, caminhar pelo sonho que é absolutamente necessário, para ultrapassar a mediania dos usos, costumes e do viver rotineiro, acalentando outras experiências e outros desejos tão longínquos de nós. É, neste andar, pela verdade material e pela irrealidade que vamos edificando os muitos modos de estar e sentir, quer os dias sejam coloridos ou profundamente cinzentos. É sempre assim.

Esta tela, de 2010, pretende retratar aqueles momentos onde o cansaço convida ao esquecer da realidade e o dormir está tão perto, apesar do local não ser o mais indicado, nem a posição corporal a mais correcta. Quero, com esta temática, representar instantes íntimos, comungados num jogo de penumbras, onde a luz rarefeita cria contrastes, sugerindo atmosferas de solidão e silêncio. História da Minha Pintura.

Relembro hoje as palavras de Giacomo Leopardi, inZibaldone”:

“A imaginação é a primeira fonte da felicidade humana.”

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Atitudes e valores



Aqui é assim. Parecem tão naturais os nossos modos de ser e estar. Mas basta percorrer uma curta distância para ver, com olhos de ver, outra realidade tão longínqua do nosso comportamento social. Aqui e agora é mesmo assim: liberdade na acção de estar com os outros, com poses que são a expressão das conquistas que outros conseguiram. É o nosso viver hoje. É bom lembrar que nada é dado, bem pelo contrário, tudo é conquistado e, como acontece muito - com suor, lágrimas e inevitavelmente sangue jorrado. É bom não esquecer porque aqui é assim. É bom não esquecer.

Esta pintura, em tela, é o retrato de um relacionamento casual, que é normal no nosso convívio diário. Aqui é assim. E porque é assim, há que saber valorizar o que temos, e, não nos deixarmos levar pela conversa fiada que apenas traz ostracismo e penúria. Como ocidental defensor da nossa cultura e do nosso relacionamento com os outros, procuro, no meu trabalho, ilustrar o que vejo, como vejo e, o que desejo enaltecer. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de François La Rochefoucauld, in “Máximas”:

“Há uma infinidade de comportamentos que parecem ridículos e cujas razões são muito sábias e muito sólidas.”

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Diálogos silenciosos



Fala-se muito sem nada dizer. Não falar é, quantas vezes, mais abrangente que longos discursos. Muito se diz no maior dos silêncios. Tudo é uma questão de oportunidade e sentido do valor das palavras ausentes. Momentos há que sentimos tanto o vazio, quer dos sons, quer das conversas inexistentes. Sentimos ainda mais quando o silêncio se prolonga no tempo e, este, se transforma em infinidade. É esta a marcha dos percursos de vida, que giram e giram, tendo por base os diálogos, ora muito vibrantes e sonoros, ora inexistentes e, por isso, eternamente silenciosos... mas comunicantes.

Esta pintura em tela, 100x100 cm, procura retratar os momentos onde paira o silêncio e a comunicação se faz tendo por base o olhar e a frieza das poses. Observar é, também, dialogar silenciosamente – e muitas vezes acontece – que o diálogo é a uma só voz, com o próprio, numa mistura de pensamentos contínuos e diálogos sem receptor.

Esta composição, quase simétrica, procura, com um jogo cromático e formal muito contido, a captação de uma imagem forte, que seja apelativa, neste universo onde a memorização do que se observa é difícil, face à imensidão do observado. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Sófocles, in Antígona”:

“Há algo de ameaçador num silêncio muito prolongado.”

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Outros tempos



Foi a abastança. Foi o esbanjar. Foi o orgulho. Foi a ilusão. Foi o engano. Foi a bonança. Agora é o tempo do medo e da incerteza. Ninguém está seguro de coisa nenhuma. Tudo pode acontecer. O que ontem era uma certeza, hoje é apenas um desejo. É este o nosso drama depois de tantas canseiras, de tantas lutas, de tantas esperanças. O rumo da vida é sempre um caminhar entre muitas vias de inúmeros obstáculos, que se vencem ou... que nos vencem. Se avançamos significa vencer, se, pelo contrário, formos vencidos é com nostalgia que recordamos outros tempos, outras vivências, outras esperanças. Nunca devemos desistir mesmo que a tormenta seja muita. Cabe acreditar que outros tempos virão, embora muito diferentes, mas, talvez, como no passado, com encanto e magia. Pensar o contrário é desistir, e, só devemos desistir, quando o dia do juízo final chegar. Só nesse dia. E só nesse dia.

Esta pintura de 2007 (agora retocada) é o retrato do presente para uns, ou o olhar de tempos passados para outros. Distantes nas vivências quer num caso, quer noutro, o encanto é o mesmo. Há momentos mágicos que ultrapassam os tempos, para gáudio de todos. E porque procuro retratar instantes tão sublimes no relacionamento humano, aqui, mais uma vez, com a ajuda de modelos, tentei captar a singularidade do afecto e da afirmação do desejo mais sublime, que é a cortesia nas poses e nas atitudes.


Esta tela, de grandes dimensões, procura com um minimalismo formal captar formas e cores numa atmosfera onde o jogo de sombra e luz cria o ambiente inerente à temática. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Jacques Bossuet:

“Aos jovens, tudo o que imaginam parece-lhes realidades.”

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sonho e realidade



Sonhar é construir cenários idílicos ou, bem pelo contrário, tormentosas paisagens de maus presságios. Do outro lado da fantasia está a realidade. Realidade agora tão angustiante. Agora tão longe do maravilhoso e do fantástico. Agora apenas nos resta esperar que o mau não seja assim tão mau. Agora nem os sonhos parecem ter lugar. Agora é a realidade económica nua e crua que nos espera e desespera. Até quando? Quando voltarão os sonhos? Os sonhos bons?

Esta pintura em tela – ainda por acabar – é o exemplo, de quão difícil é pintar. Agora gosto de construir cenários com poucos elementos, em que a luz e a sombra completam o todo da composição. Aqui ainda tudo parece longe da plenitude estética. Por mais voltas que dê, nada parece dar certo: os tons não combinam; o espaço está muito vazio; os jogos de contrastes não funcionam. Em suma: quase nada está feito. É assim a vida de um pintor entre o sonho da obra-prima e a realidade tão longe do belo supremo. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Oscar Wilde:

“Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.”

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ilustrações










"Ouço vozes ao longe
murmurando
como que chamando por mim…

Olho e não vejo vivalma
Areal deserto, tarde calma
Apenas a lonjura do mar
Branco das gaivotas cortando o ar
Ninguém a quem falar

Só o murmúrio distante
das vozes ao longe
sussurrando
como que chamando por mim

E num arrepio
sussurrante
se de medo, se de frio
como que trazido pela brisa
sibilante
o murmúrio das vozes
indistintas
sempre
chamando por mim… "


José Cipriano Catarino in “ Entre Cós e Alpededriz


Quando sou solicitado a ilustrar poemas, contos ou romances tenho sempre de fazer uma viagem pela escrita e tentar “viver” na(s) estória(s). Aqui incorporei um imaginário da ruralidade e dos sentimentos que , a meu ver, é a base deste romance do meu amigo Cipriano Catarino.

Desenho muito e muito para obter um conjunto que possa corresponder ao expectável. Cada trabalho é sempre um ensaio, que resulta ou não, porque o caminho da criação está cheio de dúvidas, que é, afinal, a história da História da Arte... História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Paul Valéry:
“O objectivo profundo do artista é dar mais do que aquilo que tem.”


E vos deixo com a poesia de Camões e a voz de José Afonso cantando “Verdes são os campos”