segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Olhar e ver











Portugal está de férias. Uns andam por cá na rotina do costume, e outros partiram fugindo do dia-a-dia. Quem fica olha as mesmas paisagens, os mesmos lugarejos e sempre com a mesma visão. Quem parte vê outras realidades observando ou não com olhos de ver. É sempre assim. A vida é um olhar, sentido ou não, pelo que nos cerca a cada instante. Conscientes ou distraídos vamos saboreando, a vários tons, a natureza ou a obra construída, que muda constantemente, neste viver de tantos olhares e de tantas sensibilidades. Aproveitemos pois estes tempos de calor para saborear tanto mar e tanta terra, vendo com olhos de ver.

Este meu trabalho numa linha diferente do meu percurso pictórico (um pouco à semelhança do que aconteceu com Almada Negreiros e a obra “Começar”) foi feito tendo por base o material, o espaço, e o tempo de execução. Procurei criar um painel - que é essencialmente visto a partir de carros em movimento -, que fosse dinâmico e relacionado com a atmosfera envolvente. Cores suaves e muito preenchido o espaço (para evitar partes em branco com receio da praga dos grafites) e tendo, por base, uma estrutura quase matemática ligada à musicalidade fazem parte da essência deste meu projecto de intervenção urbana. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Máximo Gorky:

“A única coisa que transcende a existência do ser humano é a sua obra”.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Às vezes tenho ideias felizes



Às Vezes Tenho Idéias Felizes

Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Cada um tem as suas ideias, o seu projecto de vida, o seu caminho. Convictos ou hesitantes, todos andamos procurando a solução ideal. Para o momento, ou sonhando com o futuro. Ninguém tem certezas sobre o que nos espera. Com os nossos pontos de vista vamos vivendo uns dias mais crentes, outros nem tanto; uns dias acreditando nisto e naquilo e, em muitos outros, duvidando e duvidando. Aprendemos muito quando mudamos o nosso olhar ou, quando descobrimos que, o que parece não é. Afinal, o nosso ponto de vista é apenas um modo de ver uma parcela da realidade, que é sempre mais complexa do que a simplicidade da crítica repentina ... que fazemos todos os dias.

Uma ideia feliz por si só não é suficiente para criar uma obra-prima. Estas apenas estão ao alcance dos maiores - dos dotados e sabedores da arte de bem-fazer, como neste caso, neste outro e ainda neste; depois há os outros, que tendo as mesmas ambições ficam longe, muito longe da arte dos prodígios, apenas pertença dos geniais.
Aqui mostro os primeiros traços com que início a pintura nos meus trabalhos. Até ao final do ano tentarei pintar estas telas nascidas dos muitos esboços dos meus cadernos de desenhos e que povoam o meu mundo e os meus interesses, tão distante das ideias felizes. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Rossini e a voz de Giulietta Simionato cantando “Una voce poço fa”.



segunda-feira, 26 de julho de 2010

Equívocos















Uma palavra, um gesto, uma expressão e até uma vírgula bastam para criar um mal-entendido; zangas sem fim; ódios para sempre; amores desfeitos; desencontros eternos, e, tudo, quantas vezes, por causa de um equívoco.

Estes desenhos feitos em contextos e em tempos diferentes nasceram do vício de riscar, riscar, riscar, ou seja: desenhar, desenhar, desenhar sempre e muito em todo o lado, a todo o instante, tendo por base momentos felizes ou angústias momentâneas. Indiferente aos caprichos de uns e outros; às análises superficiais ou mais atentas; às confusões e aos relacionamentos humanos que valem o que valem, faço o meu caminho com as armas que tenho. Aqui e agora limito-me a mostrar a minha obra pictórica que é apenas a expressão do meu mundo e da minha sensibilidade, com equívocos, obviamente. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Thomas Paine:

“O facto de continuarmos a pensar que uma determinada coisa não é errada dá-nos uma aparência superficial de estarmos certos.”

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Direito à diferença



Somos todos iguais. Somos todos diferentes. Sendo iguais devemos ter direitos e obrigações semelhantes. Sendo diferentes somos naturalmente tratados de modos desiguais. Depois há as diferenças que contam mais que outras. Coisas dos tempos. De cada época. De cada contexto. E porque assim acontece, não nos podemos esquecer que a diferença é uma característica que nos singulariza e nos distingue de todos os outros, porque cada um de nós é único. Para o melhor e para o pior. Hoje e sempre.

Esta pintura é uma representação de um momento de carinho, de afecto, longe dos juízos críticos comportamentais do certo e errado, do igual ou do diferente. O relacionamento é um conjunto de normas que, como se sabe, mudam muito todos os dias. Aqui o que se procura mostrar é apenas mais um gesto, dos muitos que formam esta selva de convenções, muitas vezes tão cínicas e impróprias. Como pintor apenas gosto de registar o lado bom da natureza humana. Por enquanto. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a voz de Edith Piaf e “L´Hymne à l´amour”.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Os outros






Os outros: admiramos, ou invejamos; amamos ou rejeitamos; adoramos ou ignoramos; gostamos ou odiamos. É neste jogo de sensibilidades que analisamos os outros e fazemos o nosso caminho: próximo de uns, distante de outros. E os outros são uma parte de nós - do mesmo sangue, da mesma luta, do mesmo destino.

Este trabalho ainda está apenas no início. Primeiro o desenho com a divisão do espaço e a colocação dos diferentes elementos de acordo com a sua importância no contexto temático. É sempre assim que começo. Mas há um antes. Antes significa ler livros, ver obras de outros mestres (tenho muitos pintores que me seduzem pela singularidade, pela mestria, pela genialidade) e pensar muito sobre o que fazer para acrescentar algo de novo. E esse é o problema maior. É tão difícil criar formas que sejam apelativas num mundo já tão carregado de imagens tão iguais umas às outras. Mestres como Lucian Freud, Balthus , Hockney e também as novas tecnologias na arte são alvo do meu apreço. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Benjamim Franklin:
“Seja cortês com todos, sociável com muitos, íntimo de poucos, amigo de um e inimigo de nenhum.”

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Ponto final








Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. Acabaram estas crónicas diárias. Agora serão apenas semanais. Muito ficou por mostrar do meu trabalho pictórico. Trinta anos a fazer e a desfazer é muito tempo. Não mostrei outro tanto do que tem sido este caminhar em busca de novas imagens. Esculturas, serigrafias, desenhos e muita, muita pintura. Não tenho registo de peças que fiz e que perdi o contacto. Acontece muito, no mercado da arte, porque quem vende nem sempre gosta de dizer, onde andam e a quem pertencem as peças -outras histórias e outros interesses neste mundo de conquistas e derrotas. Até com a arte e na arte muito há a contar. Pois claro.

Agora é chegado o momento de apenas pintar sem pensar em mais nada. É o meu retiro anual. É assim todos os anos. É o meu refúgio de tudo e de todos. Irei estar quase que incomunicável. É chegado o tempo de "religiosamente" trabalhar não pensando, não querendo pensar em devaneios e distracções vãs. O trabalho, qualquer trabalho exige tempo e rigor. É o que me espera agora neste caminhar de tintas, telas e desejos criativos. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Georges Rouault:

“Para mim pintar é uma maneira de esquecer a vida. É um grito na noite, um riso estrangulado.”

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A arte está em todo o lado



“…Dispor os móveis numa sala é fazer arte. Ou olhar uma paisagem, pôr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apará-la quando comprida. Todas as coisas de cerimónia têm que ver com a arte…”

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 3'


Neste passeio, pelos cantos da casa, as cores e as formas dos objectos jogam entre si num bailado estético em que a substância de cada um se dilui. O que se destaca é, em primeiro lugar, o impacto formal e depois, se vontade houver, a descodificação de cada peça. Um livro exige tempo e interesse pelo seu conteúdo; uma pintura aparentemente é de fácil leitura, embora esconda muitas interpretações que só são legíveis se se olhar com olhos de ver. É pois neste intercâmbio de olhares, contemplações e diálogos que vivo da arte e com a arte. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Federico Fellini:

“Um escritor, um pintor, que conseguiram fixar numa página ou num quadro um sentimento das coisas do mundo, uma visão que durará para sempre, comunicam-me uma emoção profunda.”