sexta-feira, 16 de julho de 2010

Ponto final








Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. Acabaram estas crónicas diárias. Agora serão apenas semanais. Muito ficou por mostrar do meu trabalho pictórico. Trinta anos a fazer e a desfazer é muito tempo. Não mostrei outro tanto do que tem sido este caminhar em busca de novas imagens. Esculturas, serigrafias, desenhos e muita, muita pintura. Não tenho registo de peças que fiz e que perdi o contacto. Acontece muito, no mercado da arte, porque quem vende nem sempre gosta de dizer, onde andam e a quem pertencem as peças -outras histórias e outros interesses neste mundo de conquistas e derrotas. Até com a arte e na arte muito há a contar. Pois claro.

Agora é chegado o momento de apenas pintar sem pensar em mais nada. É o meu retiro anual. É assim todos os anos. É o meu refúgio de tudo e de todos. Irei estar quase que incomunicável. É chegado o tempo de "religiosamente" trabalhar não pensando, não querendo pensar em devaneios e distracções vãs. O trabalho, qualquer trabalho exige tempo e rigor. É o que me espera agora neste caminhar de tintas, telas e desejos criativos. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Georges Rouault:

“Para mim pintar é uma maneira de esquecer a vida. É um grito na noite, um riso estrangulado.”

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A arte está em todo o lado



“…Dispor os móveis numa sala é fazer arte. Ou olhar uma paisagem, pôr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apará-la quando comprida. Todas as coisas de cerimónia têm que ver com a arte…”

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 3'


Neste passeio, pelos cantos da casa, as cores e as formas dos objectos jogam entre si num bailado estético em que a substância de cada um se dilui. O que se destaca é, em primeiro lugar, o impacto formal e depois, se vontade houver, a descodificação de cada peça. Um livro exige tempo e interesse pelo seu conteúdo; uma pintura aparentemente é de fácil leitura, embora esconda muitas interpretações que só são legíveis se se olhar com olhos de ver. É pois neste intercâmbio de olhares, contemplações e diálogos que vivo da arte e com a arte. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Federico Fellini:

“Um escritor, um pintor, que conseguiram fixar numa página ou num quadro um sentimento das coisas do mundo, uma visão que durará para sempre, comunicam-me uma emoção profunda.”

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bruxaria



“A palavra Bruxaria, segundo o uso corrente da língua portuguesa, designa as faculdades sobrenaturais de uma pessoa, que geralmente se utiliza de ritos mágicos, com intenção maligna - a magia negra - ou com intenção benigna - a magia branca. É também utilizada como sinônimo de curandeirismo e prática oracular, bem como de feitiçaria.”

In Wikipédia


Este é (na minha casa) um dos cantinhos onde, naturalmente, aparece o meu trabalho, aqui misturado com a simbólica bruxa checa. Não sou crente de coisa nenhuma. Acredito na ciência e, quando esta ainda não consegue explicar, é tudo uma questão de tempo. É mais saber que explica os mistérios da vida. As dúvidas, as incógnitas, os intrincados fenómenos não passam de ignorância; de incapacidade para descobrir cientificamente a verdade das coisas. De todas as coisas. O resto é puro oportunismo. O tempo, sempre o tempo - que é um acumular de mais saber -, traz a explicação científica do feitiço, da magia, ou do rito mágico. Traz Sempre. Sempre.

Estas duas pinturas foram feitas após uma viagem que fiz a Itália e que me fascinou. Recordo as cores ocres, os castanhos, a arquitectura e os espaços que, aqui, nestas pinturas acabaram por aparecer, pela influência que tudo me provoca, quando olho com olhos de ver e de pintor. História da Minha Pintura.


Recordo hoje Leonardo da Vinci:

“Quem pensa pouco, erra muito.”

terça-feira, 13 de julho de 2010

Amores de estudante



Canção do Amor-Perfeito
Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'



Esta imagem procura mostrar (como tenho feito ultimamente) o espaço privado e a inserção da pintura no contexto do lar. Este meu trabalho, de formato quadrangular, faz parte da série representando contextos juvenis. Aqui pode perceber-se a importância da escala e da relevância que as peças têm mercê das suas dimensões, porque independentemente da valia ou não, ninguém fica indiferente ao tamanho das peças, donde procuro criar obras que se destaquem, daí a minha preferência pelo grande formato. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a Tuna Universitária do Porto e “Amores de Estudante”.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

O teu riso



O teu riso

"Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso..."


Pablo Neruda


Felizmente. Acabou o Mundial de Futebol. Não se falou de outra coisa, nesta quinzena. Hoje lembrei-me de Pablo Neruda. Faria anos se fosse vivo. Ficou a poesia que revejo, de vez em quando, porque vejo passar amores, desejos e paixões. Como todos.

Enquanto pinto faço muitas paragens procurando ver de longe e com serenidade o que as cores e as formas geram. Aqui sentado, observo e penso. Penso muito. Como todos os que olham esta passagem chamada vida. Vejo na junção das cores harmonia ou não; vejo nas formas combinações correctas ou deploráveis. Em suma: vejo e não vejo. Como toda a gente.

Esta imagem mostra mais um trabalho que, como todos os outros, é uma visão deste nosso tempo, onde habita tudo num conflito de interesses e de jogos virtuais. Cores fortes, sombras e luzes numa representação espacial de diferentes planos constituem esta amálgama pictórica. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a voz maravilhosa de Plácido Domingo

domingo, 11 de julho de 2010

Trabalho



Poeminha sobre o Trabalho

Chego sempre à hora certa,
Contam comigo, não falho,
Pois adoro o meu emprego:
O que detesto é o trabalho.

Millôr Fernandes, inPif-Paf


É aqui que tudo acontece, ou quase tudo. Longe vão os tempos em que os artistas vinham para a rua pintar, como acontecia no século XIX e XX. Hoje, apenas para turista ver, nas principais praças das capitais da Europa (é o que eu conheço melhor), se observa a feitura, sobretudo, de desenhos caricaturais, de uns pretensos artistas, perdidos no sonho da arte pictórica. O trabalho é feito na solidão e no silêncio das quatro paredes, apenas quebrado pelo aparecimento dos modelos ou da música. É assim todos os dias. Deve ser assim todos os dias. Se assim não for não há obra por muita visualização mediática que se queira. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música que me fascina e me acompanha na solidão do trabalho. Hoje lembrei-me de Bethoven e Fur Elise”.

sábado, 10 de julho de 2010

Espaço privado



Hoje, de novo, levanto o véu e vou mostrando pedaços de espaços privados. Hoje como nunca a privacidade é tão mundana. Hoje, uns cientes ou não do valor e do significado da vida privada, tudo fazem para a proteger ou, pelo contrário, a devassam. É neste limbo que procuro ir falando de mim e do meu trabalho. Para alguns é um caminho, como outro qualquer, de divulgação e promoção; para outros, ainda, é um olhar com julgamentos censórios. Afinal, nada é como dantes. A net mudou o mundo e, se nas aldeias todos sabem de todos, agora também na cidade todos conhecem todos, ou não vivêssemos na era da informação global. Para o melhor e para o pior.

Esta imagem procura, sobretudo, mostrar pintura, relacioná-la com o espaço e dar uma imagem das dimensões das peças. O impacto das obras pictóricas não depende somente do tamanho mas, sem dúvida, que ganha uma visualização e um alcance que o pequeno formato não consegue ter. Procuro, dentro das muitas limitações que o trabalho implica, pintar preferencialmente telas de grande formato. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Georges Braque:

“Na arte só uma coisa importa: aquilo que não se pode explicar.”