quarta-feira, 7 de julho de 2010

Calor infernal



Agora é todos os dias o mesmo: calor infernal. De manhã pelo romper do dia se faz o que tem de ser feito. De tarde, os que podem fugir (do trabalho) procuram a sombra e o nada fazer, enquanto a temperatura não baixar. É assim por estas bandas. Como é bom o calor depois de tanta chuva e de uma invernia prolongada. É bom para quem pode saborear o que há para saborear com os excessos do tempo. O problema é sempre igual -os mesmos do costume, têm de fazer, quer queiram, quer não, esteja o tempo que estiver, mesmo com o calor infernal. Afinal, a igualdade é só para alguns. E as oportunidades também.

Estes trabalhos em aguarela fazem parte do meu modo de estar e ser. Dimensões pequeníssimas e grandes fazem o historial das minhas peças que têm sempre o mesmo objectivo: retratar um tempo e um modo de estar e sentir o mundo, independente dos julgamentos de valor, quer de uns, quer de outros e sobretudo indiferente aos tempos e às modas, porque a arte não deve nunca mover-se consoante os caprichos de quem manda. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Samuel Butler, in The Way of all Flesh”:

“Toda a obra de um homem, seja em literatura, música, pintura, arquitectura ou qualquer outra coisa, é sempre um auto-retrato; e quanto mais ele se tenta esconder, mais o seu carácter se revelará, contra a sua vontade.”

terça-feira, 6 de julho de 2010

Uma das minhas paixões






O calor aperta. A praia para os disponíveis chama como sempre. É o tempo dos banhos nas águas aqui frias, e, quentinhas do outro lado do mundo. Aqui, ao pé de casa, ficamos todos felizes, por estar fora de portas, saboreando a brisa, as cores e as novidades estivais. É assim todos os anos neste rectângulo peninsular. Ora bem.

Muitos artistas representam este período estival de acordo com o seu tempo e as suas gentes. Basta pensar em Almada, em Picasso para não falar noutros. Agora é o tempo dos passeios nocturnos saboreando a frescura esporádica do ar e a chegada dos calores que aquecem a alma e o corpo, tão propenso a aventuras e devaneios. Coisas da vida. Da boa vida.
Estas pinturas (já mostradas) fazem parte do meu percurso pictórico que é, naturalmente, um pouco de mim. Pintar é contar o que somos através de cores espalhadas numa superfície, em que formas compreensíveis ou não, indiciam aquilo que o artista sente. História da minha Pintura.

E vos deixo com a música de Beethoven, uma das minhas paixões.

http://www.youtube.com/watch?v=j_2sewSPKd8

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A parte invisível do visível




A Parte Invisível do Visível

A parte invisível do visível.
De resto conhecer mais o quê?
O Manifesto do Invisível.
Os lobos são a cabeça do anjo que não se vê.
Sangue no Focinho e Cobardia.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

domingo, 4 de julho de 2010

Esta espécie de loucura



Esta Espécie de Loucura


Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sábado, 3 de julho de 2010

A mulher mais bonita do mundo



A Mulher Mais Bonita do Mundo


estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.


José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Contemplo o que não vejo



Contemplo o que não Vejo
Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O homem que contempla




O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in
"O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira