segunda-feira, 5 de julho de 2010

A parte invisível do visível




A Parte Invisível do Visível

A parte invisível do visível.
De resto conhecer mais o quê?
O Manifesto do Invisível.
Os lobos são a cabeça do anjo que não se vê.
Sangue no Focinho e Cobardia.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

domingo, 4 de julho de 2010

Esta espécie de loucura



Esta Espécie de Loucura


Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sábado, 3 de julho de 2010

A mulher mais bonita do mundo



A Mulher Mais Bonita do Mundo


estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.


José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Contemplo o que não vejo



Contemplo o que não Vejo
Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O homem que contempla




O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in
"O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Eu queria ter o tempo



Eu Queria Ter o Tempo e o Sossego Suficientes

Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Heterónimo de Fernando Pessoa

Esta tela tem na sua temática o tempo como referência. O relógio marca as horas galopantes dos dias que voam levando consigo a vida e os sonhos. É assim que tudo gira num desperdício de episódios desinteressantes. É este, para toda a gente, o percurso, onde uns se realizam e todos os outros procuram eternamente uma luz ao fundo do túnel.

Com cores sombrias e um desenho sintético das formas procurei criar um imaginário que fosse a expressão de um sentimento, aqui (nesta fotografia) mostrando a conjugação da pintura e do artesanato. História da Minha Pintura.

Recordo hoje, de novo, as palavras de Marcel Proust:

“Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem.”

terça-feira, 29 de junho de 2010

Público e privado



A fronteira entre o privado e o público varia muito. Aqui entre nós, hoje mais do que nunca, tantos se mostraram, sem medir bem o fundamentalismo, as mentes perversas e os interesses obscuros. Nem toda a gente é respeitável e sensata. É o nosso mundo e com ele temos de viver. Com o bom e o que não presta. E nada podemos fazer. A liberdade é para todos, e até para os que a transformam em libertinagem.

Início hoje uma amostragem de obras inseridas no espaço privado e tendo por objectivo mostrar sobretudo as dimensões e o enquadramento das peças. Quase todas as obras de arte estão em espaços privados, longe dos olhares da maioria dos fruidores. Felizmente que a net é uma janela aberta ao mundo e que ultrapassa os limites das galerias de arte que, como se sabe, apenas podem mostrar (quando mostram) algumas obras artísticas. Não tenho trabalhos meus em museus e apenas em poucos espaços públicos, daí esta exposição diária, para os bem- intencionados, e também para os outros. Viva a liberdade.

Estas telas procuram contar ambientes e modos de vida que uns gostam e outros detestam. Como tudo. Numa pincelada muito rápida mercê do desejo e do impulso, estas obras foram feitas para responder a uma encomenda e, como sempre acontece, nestas circunstâncias, pintar tem outro encanto. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Victor Hugo:

“Tudo quanto aumenta a liberdade, aumenta a responsabilidade.”