sexta-feira, 2 de julho de 2010

Contemplo o que não vejo



Contemplo o que não Vejo
Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O homem que contempla




O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in
"O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Eu queria ter o tempo



Eu Queria Ter o Tempo e o Sossego Suficientes

Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Heterónimo de Fernando Pessoa

Esta tela tem na sua temática o tempo como referência. O relógio marca as horas galopantes dos dias que voam levando consigo a vida e os sonhos. É assim que tudo gira num desperdício de episódios desinteressantes. É este, para toda a gente, o percurso, onde uns se realizam e todos os outros procuram eternamente uma luz ao fundo do túnel.

Com cores sombrias e um desenho sintético das formas procurei criar um imaginário que fosse a expressão de um sentimento, aqui (nesta fotografia) mostrando a conjugação da pintura e do artesanato. História da Minha Pintura.

Recordo hoje, de novo, as palavras de Marcel Proust:

“Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem.”

terça-feira, 29 de junho de 2010

Público e privado



A fronteira entre o privado e o público varia muito. Aqui entre nós, hoje mais do que nunca, tantos se mostraram, sem medir bem o fundamentalismo, as mentes perversas e os interesses obscuros. Nem toda a gente é respeitável e sensata. É o nosso mundo e com ele temos de viver. Com o bom e o que não presta. E nada podemos fazer. A liberdade é para todos, e até para os que a transformam em libertinagem.

Início hoje uma amostragem de obras inseridas no espaço privado e tendo por objectivo mostrar sobretudo as dimensões e o enquadramento das peças. Quase todas as obras de arte estão em espaços privados, longe dos olhares da maioria dos fruidores. Felizmente que a net é uma janela aberta ao mundo e que ultrapassa os limites das galerias de arte que, como se sabe, apenas podem mostrar (quando mostram) algumas obras artísticas. Não tenho trabalhos meus em museus e apenas em poucos espaços públicos, daí esta exposição diária, para os bem- intencionados, e também para os outros. Viva a liberdade.

Estas telas procuram contar ambientes e modos de vida que uns gostam e outros detestam. Como tudo. Numa pincelada muito rápida mercê do desejo e do impulso, estas obras foram feitas para responder a uma encomenda e, como sempre acontece, nestas circunstâncias, pintar tem outro encanto. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Victor Hugo:

“Tudo quanto aumenta a liberdade, aumenta a responsabilidade.”

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Pensamentos íntimos



Não vou falar de mim. Não direi nada dos meus. Não revelarei quem faz parte das minhas amizades. Não quero dizer nada da vida, apenas quero contar como é. É sempre a mesma coisa. Tudo, todos os dias, se repete: os gestos, as atitudes, as rotinas, os prazeres e, naturalmente, os desencantos. De pintura falo, obviamente.

Tudo começa com ideias que se multiplicam e, de tanto pensar, vou saltitando por aqui e por ali, na recordação ou no julgamento das situações. E, quando pinto, assaltam-me tantos episódios do presente, do passado e também do futuro desejado. Pensamentos que me alegram ou, como acontece muito, me deixam de rastos. E de rastos fico, quase sempre, porque a pintura é sofrimento e sempre angústia.

Este meu trabalho, em madeira recortada, de 2001, é, como todas as outras obras, um olhar pelo que me cerca neste labiríntico mosaico de formas e situações. A representação de arquitecturas cromáticas e a luz formam este painel, que representa um tempo e um espaço. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Gustave Flaubert:

“A moral da arte reside na sua própria beleza.”

domingo, 27 de junho de 2010

Memória futura



Recordação
"E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.
"

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira


É preciso registar, para memória futura, o que fazemos e porque fazemos. Uma simples ficha com os dados mais relevantes da cada obra é o processo que eu utilizo. O blog (enquanto existir) é a continuidade do desejo de mostrar o meu trabalho e explanar o que penso sobre a vida e a arte. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a voz de Sarah Mclachlan e a música do filme “Cidade dos Anjos”.


sábado, 26 de junho de 2010

Feira popular





“Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças, pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.”

Fonte: "Aforismos sobre a Sabedoria da Vida"
Autor: Schopenhauer , Arthur



Estas pinturas, em madeira recortada, procuram retratar viagens pelo imaginário infantil, onde o Carrossel é presença obrigatória nas, ainda, festas populares. Um pouco por todo o lado, chegam uma vez por ano, a cada lugarejo, as festividades para alegrar este nosso viver sempre ávido de novidades recreativas. E foi, pensando, nesta rotina de devaneios Kitsch, que recordei o passado, com o encanto que hoje já não existe, mas que fez as delícias de muitas gerações. História da Minha Pintura.

E vos deixo com quatro canções populares portuguesas.