segunda-feira, 28 de junho de 2010

Pensamentos íntimos



Não vou falar de mim. Não direi nada dos meus. Não revelarei quem faz parte das minhas amizades. Não quero dizer nada da vida, apenas quero contar como é. É sempre a mesma coisa. Tudo, todos os dias, se repete: os gestos, as atitudes, as rotinas, os prazeres e, naturalmente, os desencantos. De pintura falo, obviamente.

Tudo começa com ideias que se multiplicam e, de tanto pensar, vou saltitando por aqui e por ali, na recordação ou no julgamento das situações. E, quando pinto, assaltam-me tantos episódios do presente, do passado e também do futuro desejado. Pensamentos que me alegram ou, como acontece muito, me deixam de rastos. E de rastos fico, quase sempre, porque a pintura é sofrimento e sempre angústia.

Este meu trabalho, em madeira recortada, de 2001, é, como todas as outras obras, um olhar pelo que me cerca neste labiríntico mosaico de formas e situações. A representação de arquitecturas cromáticas e a luz formam este painel, que representa um tempo e um espaço. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Gustave Flaubert:

“A moral da arte reside na sua própria beleza.”

domingo, 27 de junho de 2010

Memória futura



Recordação
"E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.
"

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira


É preciso registar, para memória futura, o que fazemos e porque fazemos. Uma simples ficha com os dados mais relevantes da cada obra é o processo que eu utilizo. O blog (enquanto existir) é a continuidade do desejo de mostrar o meu trabalho e explanar o que penso sobre a vida e a arte. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a voz de Sarah Mclachlan e a música do filme “Cidade dos Anjos”.


sábado, 26 de junho de 2010

Feira popular





“Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças, pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.”

Fonte: "Aforismos sobre a Sabedoria da Vida"
Autor: Schopenhauer , Arthur



Estas pinturas, em madeira recortada, procuram retratar viagens pelo imaginário infantil, onde o Carrossel é presença obrigatória nas, ainda, festas populares. Um pouco por todo o lado, chegam uma vez por ano, a cada lugarejo, as festividades para alegrar este nosso viver sempre ávido de novidades recreativas. E foi, pensando, nesta rotina de devaneios Kitsch, que recordei o passado, com o encanto que hoje já não existe, mas que fez as delícias de muitas gerações. História da Minha Pintura.

E vos deixo com quatro canções populares portuguesas.


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Fim-de-semana





O país está suspenso. Já são poucos os que não pensam em futebol. O futuro parece depender de chutos na bola. Pelo menos para o nosso ego é fundamental… e para a carteira de alguns, sem dúvida. Mas há outros que tiram prazer de passeios e de momentos de relaxamento, sobretudo aos fins-de-semana, vendo ou fazendo, este mundo e o outro. Afinal, somos todos diferentes, parecendo todos iguais.

Estas pinturas, em madeira recortada, representam dois momentos de puro prazer - passeando em busca de novos caminhos, ou saboreando a brisa marinha e o encanto da praia. São gostos e formas de estar. Pois claro.

Esta série, nascida do desejo de descobrir novos caminhos e novos materiais, não fugindo dos processos tradicionais da pintura, procura alcançar novos processos, dos quais destaco a volumetria, as sombras e as configurações das diferentes peças que constituem os vários elementos da pintura. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Marcel Proust:
“ Os homens podem ter várias espécies de prazer. O verdadeiro é aquele pelo qual eles deixam outro.”

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Lisboa e Porto






Hoje lembrei-me de Camões.

“Quem não sabe a arte, não a estima.”

Duas cidades, um só país, um mesmo povo e tantas diferenças. Adoro Lisboa. Adoro o Porto. A luz única da Cidade das Sete Colinas e o negro granítico da Cidade Invicta constituem a fórmula mágica dos contrastes, que se completam pela diferença. Aqui, neste cantinho da Europa.

Estes dois trabalhos em madeira recortada, de 2001, procuram retratar vidas e modos de estar, tendo por vislumbre as cidades do Porto e Lisboa. Para fazer estas obras foi preciso ver- com olhos de ver-, e retratar, partindo do princípio que as cores e as formas muito dizem do espaço e das suas gentes. Como sempre, nesta série, comecei por colar os diferentes pedaços de madeira recortada, e depois fui preenchendo os espaços com os desenhos e pintando. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa, in “Portugal Entre Passado e Futuro”:

“O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo.”

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Carrossel





Agora é o tempo das festas populares. Um pouco por todo o país, com muita sardinha, vinho tinto e “música pimba” se festeja. É o Verão a chegar. Os calores da estação fomentam os passeios nocturnos e as festarolas. E chegam os feirantes, já sem a magia de outros tempos, mas ainda cativando os petizes, nem que seja no carrossel. É assim, por enquanto, cá pelo cantinho peninsular, com circo e variedades para todos os gostos, ou não vivêssemos numa feira de enganos.

Estas duas pinturas em madeira recortada ilustram cenários onde o carrossel está presente com a simbologia da selva animal e urbana. As memórias de infância, com a agitação, o bulício e as cores fortes contaminam para sempre quem viveu paredes-meias com a Feira Popular.

Estes trabalhos procuram captar modos de conviver onde está presente a paisagem urbana, o relacionamento social e a festa, aqui com a figuração do carrossel, num cromatismo pálido, talvez, por acção das memórias que o tempo vai transfigurando. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Artur Schopenhauer, in “Aforismos sobre a Sabedoria da Vida”:

“Em geral, festas e entretenimentos brilhantes e ruidosos trazem sempre no seu interior um vazio ou, melhor dizendo, uma dissonância falsa, mesmo porque contradizem de modo flagrante a miséria e a pobreza da nossa existência, e o contraste realça a verdade.”

terça-feira, 22 de junho de 2010

Viajar de novo






Viajar é descobrir outros horizontes, outras culturas, outras gentes, outros sabores, e é, também, viver com as desgraças do costume: muita gente, muita confusão, horários trocados, enganos e trafulhices estivais. É assim quando o Verão chega. Tantos buscam momentos paradisíacos que talvez só existam na nossa imaginação. E de tanto desejar, viajamos em busca de prazeres que só existem dentro de nós, independentemente de tudo o que nos cerca. Cada um constrói, afinal, o seu paraíso, que pode ser no seu cantinho, no seu espaço privado, na sua cabeça. Pois claro.

Estas pinturas em madeira recortada são colagens que procuram traduzir os momentos vividos ou inventados. Os azuis dominantes que predominam nas paisagens marinhas e as vivências típicas dos que querem descansar fazem a história destes trabalhos. Madeira em vez de papel, e múltiplos fragmentos visam criar um todo que seja plasticamente apelativo. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Victor Hugo:

“Viajar é nascer e morrer a todo o instante.”