quinta-feira, 24 de junho de 2010

Lisboa e Porto






Hoje lembrei-me de Camões.

“Quem não sabe a arte, não a estima.”

Duas cidades, um só país, um mesmo povo e tantas diferenças. Adoro Lisboa. Adoro o Porto. A luz única da Cidade das Sete Colinas e o negro granítico da Cidade Invicta constituem a fórmula mágica dos contrastes, que se completam pela diferença. Aqui, neste cantinho da Europa.

Estes dois trabalhos em madeira recortada, de 2001, procuram retratar vidas e modos de estar, tendo por vislumbre as cidades do Porto e Lisboa. Para fazer estas obras foi preciso ver- com olhos de ver-, e retratar, partindo do princípio que as cores e as formas muito dizem do espaço e das suas gentes. Como sempre, nesta série, comecei por colar os diferentes pedaços de madeira recortada, e depois fui preenchendo os espaços com os desenhos e pintando. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Fernando Pessoa, in “Portugal Entre Passado e Futuro”:

“O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo.”

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Carrossel





Agora é o tempo das festas populares. Um pouco por todo o país, com muita sardinha, vinho tinto e “música pimba” se festeja. É o Verão a chegar. Os calores da estação fomentam os passeios nocturnos e as festarolas. E chegam os feirantes, já sem a magia de outros tempos, mas ainda cativando os petizes, nem que seja no carrossel. É assim, por enquanto, cá pelo cantinho peninsular, com circo e variedades para todos os gostos, ou não vivêssemos numa feira de enganos.

Estas duas pinturas em madeira recortada ilustram cenários onde o carrossel está presente com a simbologia da selva animal e urbana. As memórias de infância, com a agitação, o bulício e as cores fortes contaminam para sempre quem viveu paredes-meias com a Feira Popular.

Estes trabalhos procuram captar modos de conviver onde está presente a paisagem urbana, o relacionamento social e a festa, aqui com a figuração do carrossel, num cromatismo pálido, talvez, por acção das memórias que o tempo vai transfigurando. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Artur Schopenhauer, in “Aforismos sobre a Sabedoria da Vida”:

“Em geral, festas e entretenimentos brilhantes e ruidosos trazem sempre no seu interior um vazio ou, melhor dizendo, uma dissonância falsa, mesmo porque contradizem de modo flagrante a miséria e a pobreza da nossa existência, e o contraste realça a verdade.”

terça-feira, 22 de junho de 2010

Viajar de novo






Viajar é descobrir outros horizontes, outras culturas, outras gentes, outros sabores, e é, também, viver com as desgraças do costume: muita gente, muita confusão, horários trocados, enganos e trafulhices estivais. É assim quando o Verão chega. Tantos buscam momentos paradisíacos que talvez só existam na nossa imaginação. E de tanto desejar, viajamos em busca de prazeres que só existem dentro de nós, independentemente de tudo o que nos cerca. Cada um constrói, afinal, o seu paraíso, que pode ser no seu cantinho, no seu espaço privado, na sua cabeça. Pois claro.

Estas pinturas em madeira recortada são colagens que procuram traduzir os momentos vividos ou inventados. Os azuis dominantes que predominam nas paisagens marinhas e as vivências típicas dos que querem descansar fazem a história destes trabalhos. Madeira em vez de papel, e múltiplos fragmentos visam criar um todo que seja plasticamente apelativo. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Victor Hugo:

“Viajar é nascer e morrer a todo o instante.”

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Enganos





Portugal acabou de ganhar à Coreia do Norte por 7-0, na África do Sul, no campeonato mundial de futebol. O país está feliz, os políticos também, os portugueses esquecem o desemprego e as desgraças do costume. Tudo graças a pontapés numa bola. Que felicidade.

Estas pinturas, em madeira recortada, de 2001, procuram ilustrar episódios da vida que nos marcam e caracterizam. O espaço e o tempo são determinantes para definir modos de estar e ser. Como é meu timbre, vejo (ou julgo ver) o que me envolve e, retrato o que consigo alcançar, de acordo com os meus desejos, utilizando as cores e as formas pictóricas. História da Minha Pintura.


Recordo hoje as palavras de Nicolas Boileau:

“Quem vive contente com nada tem tudo.”

domingo, 20 de junho de 2010

Morrer



Morrer é partir. Partir para todo o lado e para lado nenhum. Morrer é sempre o fim de qualquer coisa: do sonho, da esperança, da vontade. E da vida também.

Ontem fui ver o Requiem Op.89 de Antonín Dvorak, dedicado a José Saramago, e interpretado pelo Coral Sinfónico de Portugal. A morte sempre foi inspiradora para os artistas. Da música ao canto, da palavra à figuração, da sombra à representação. E fiz bem, muito bem, em ter assistido a mais uma alusão aos caprichos da vida e, naturalmente, da morte.

Morrer é uma viagem de muitas certezas e algumas dúvidas. Aqui, nesta minha pintura em madeira recortada, os vários elementos formam a teia que é o jogo das interrogações, da dor e da resignação. Cores sombrias e formas contidas procuram simbolizar o meu olhar pela vida e pela morte. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Honoré Balzac:

“O homem morre a primeira vez quando perde o entusiasmo.”

E vos deixo com o Requiem de Dvorak.


sábado, 19 de junho de 2010

Pedaços de mim





Hoje uma recordação; um episódio; uma história; um acontecimento sui generis; ou nada de importante. É assim todos os dias. Pedacinhos de vida que pouco a pouco fazem o percurso de cada um. E porque vivemos de muitas rotinas, momentos há, que são diferentes e formam os pedaços significativos do andar por aqui. Como hoje.

Inicio a amostragem de uma série de pinturas em madeira que fiz, sobretudo, em 2001. No desejo sempre continuado de desbravar novos caminhos e, porque entendo que a pintura só faz sentido, enquanto meio de descoberta e de prazer, estes meus trabalhos surgiram pela necessidade de utilizar a madeira como suporte e, também, tratando a própria pintura como colagem, já que juntei pequenos pedaços de madeira, em diferentes planos, formando um todo pictórico. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Blaise Pascal, in “Pensamentos”:

“O eu é odioso”.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O mundo




O Mundo
O mundo, tal como o entendo,
Não vai além daquilo que o cego
De cor e sombra pode encontrar
Na escuridão que é a sua sina;
Este mundo, imenso e luzente,
O qual nós viemos herdar
Com um orgulho inconsciente,
Vale tanto quanto as nossas rimas
E haveres, sua lama dourada —
Nada, é o mais que dele vou falar
E aqui, no leito do nada,
Para o outro lado vou-me voltar.

Alexander Search, in "Poesia"


Estas duas pinturas em tela recortadas simbolizam o caminho da procura e do desejo de contar. Falamos, falamos e falamos tanto; procuramos, procuramos e procuramos tanto. E o mundo gira, indiferente aos caprichos, às conversas e às procuras. E, porque assim é, as imagens das vivências acumulam-se dia após dia, até ao derradeiro instante. E tudo me serve para pintar com as minhas cores e as minhas formas. Tudo mesmo: pessoas, natureza, objectos, animais. História da Minha Pintura.

Hoje vos deixo com a mestria ao violino de Anne-Sophie Mutter e a música de Massenet: “Meditação de Thais”.