sexta-feira, 18 de junho de 2010

O mundo




O Mundo
O mundo, tal como o entendo,
Não vai além daquilo que o cego
De cor e sombra pode encontrar
Na escuridão que é a sua sina;
Este mundo, imenso e luzente,
O qual nós viemos herdar
Com um orgulho inconsciente,
Vale tanto quanto as nossas rimas
E haveres, sua lama dourada —
Nada, é o mais que dele vou falar
E aqui, no leito do nada,
Para o outro lado vou-me voltar.

Alexander Search, in "Poesia"


Estas duas pinturas em tela recortadas simbolizam o caminho da procura e do desejo de contar. Falamos, falamos e falamos tanto; procuramos, procuramos e procuramos tanto. E o mundo gira, indiferente aos caprichos, às conversas e às procuras. E, porque assim é, as imagens das vivências acumulam-se dia após dia, até ao derradeiro instante. E tudo me serve para pintar com as minhas cores e as minhas formas. Tudo mesmo: pessoas, natureza, objectos, animais. História da Minha Pintura.

Hoje vos deixo com a mestria ao violino de Anne-Sophie Mutter e a música de Massenet: “Meditação de Thais”.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ilusões perdidas





Ilusão Perdida
Florida ilusão que em mim deixaste
a lentidão duma inquietude
vibrando em meu sentir tu juntaste
todos os sonhos da minha juventude.

Depois dum amargor tu afastaste-te,
e a princípio não percebi. Tu partiras
tal como chegaste uma tarde
para alentar meu coração mergulhado

na profundidade dum desencanto.
Depois perfumaste-te com meu pranto,
fiz-te doçura do meu coração,

agora tens aridez de nó,
um novo desencanto, árvore nua
que amanhã se tornará germinação.

Pablo Neruda, in 'Cadernos de Temuco'
Tradução de Albano Martins

Estas duas telas, de formato irregular, mais uma vez, procuram retratar o espaço envolvente numa mescla de sugestões e de ilusões vividas ou desejadas. Ilusões perdidas, talvez, pela voracidade do tempo e das normas sociais. A vida é feita de convenções e de momentos, que se materializam, ou não passam de desejos, enganos e muitas ilusões perdidas.

Aqui, procurei, como sempre faço, criar uma figuração singular com os meios e os processos tradicionais, porque o que mais me fascina na pintura é ver nascer as formas e a harmonização das cores, numa luta sempre desigual entre o desejo e a capacidade, ou não, de alcançar o pretendido. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a voz de Pavarotti e “O solo mio”.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Aqui tão perto





Agora é assim: viajamos para longe, para muito longe. Fugimos das rotinas e das paisagens diárias e próximas. Queremos alcançar outras miragens e outros sabores culturais. E porque queremos fugir, nem olhamos com olhos de ver o que nos cerca. Aqui tão perto...

Estas pinturas, em tela recortada, são viagens tendo por cenário a paisagem portuguesa, que a tantos é indiferente, embora estes conheçam as rotas turísticas massificadas. Enfim, outros modos de gostar e de apreciar a beleza ou a falta dela. E porque o que vejo me serve para retratar, esta série do início do século, nasceu do desejo de registar as minhas viagens. Aqui tão perto.

Estas telas procuram juntar, mercê da sua configuração, vários elementos figurativos em contextos diferenciados, tendo as cores verdejantes como elemento preponderante. A relação humana com o espaço e a expressão dos sentimentos fazem parte do meu modo de comunicar plasticamente. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Lawrence Durrell:

“A viagem pode ser uma das formas mais satisfatórias de introspecção.”

terça-feira, 15 de junho de 2010

Tudo acaba





Tudo acaba. O que é bom. O que nunca prestou. E porque tudo acaba, andamos - paradoxalmente-, por aqui, em busca sempre do elixir. Da juventude e da felicidade. Mas tudo acaba. A juventude e os momentos felizes. Felizmente nem tudo é mau. Acontecem coisas, de vez em quando. E a esperança renasce, quando menos se espera, sabendo sempre que tudo acaba. Tudo acaba. Mais dia, menos dia.

Estas duas pinturas em madeira, de formato irregular, sugerindo formas humanas em poses diversificadas, procuram criar um imaginário que se diferencie da configuração da pintura tradicional usando, no entanto, os mesmos processos de trabalho e de tratamento das imagens. Cores, formas, texturas, luzes e sombras fazem parte desta série que nasceu do desejo continuado de descobrir sempre novos processos, porque a arte deve ser um caminho de muitas buscas e encontros felizes. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Niccolo Maquiavel, in “Histórias Florentinas”:

“O que tem começo tem fim.”

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Enganos





“Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões.”

Bertrand Russel

Andamos por aqui, com muitas certezas e muitos enganos. Uns acreditam em muitas vidas; muitos outros apenas visualizam a temporalidade vivida e, destes, eu faço parte. Apenas e só, convictamente, considero a matéria temporal. Eu sou matéria e nada mais do que isso. Para mal dos meus pecados…

Estes trabalhos, em madeira, feitos em 99, fazem parte de uma série em que a silhueta humana expressa na forma, se anula com a pintura nela inserida. A variedade temática e cromática procura criar um jogo de muitas leituras, em que a vida, a nossa vida, é um mosaico de episódios e de desejos. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Aristóteles:
“A dúvida é o princípio da sabedoria.”

domingo, 13 de junho de 2010

Conviver





Felizmente. Felizmente que sabemos, de vez em quando, conviver. E conviver significa tanto e tão pouco. Bastam escassos segundos para iluminar um dia, uma vida. Conviver é, também, rotinar os hábitos, e viver ouvindo e sendo ouvido. Basta tão pouco, para o pouco ser muito, e o muito ser tanto. No convívio ... pois claro.


Inventamos sempre modos de estar com os outros. Hoje, mercê da net, inventámos modos de conviver, no presente, estando longe, muito longe, conhecendo ou não o outro. Convivemos somente. E, de tanto “conviver”, deixámos de estar sós, estando sós. Coisas do tempo. Do nosso tempo. Para o melhor e para o pior...

Estas pinturas, do início do novo milénio, em madeira, fazem parte do desejo de experimentar novos materiais e novas formas de expressão. Como é meu timbre, a singularidade é o desejo supremo da expressão única, que busco desde sempre. Aqui, mais uma vez, procurei criar, num formalismo muito pessoal, uma pintura que fosse reveladora de um tempo e de modo de conviver. História da Minha Pintura.


E vos deixo recordando hoje dos Textos Judaicos, in “Moisés Maimônides”:

“ O bem-estar na vida obtém-se com o aperfeiçoamento da convivência entre os homens.”

sábado, 12 de junho de 2010

Saborear



Momentos há que só queremos saborear. Saborear o instante. Saborear o pensamento. Saborear a paisagem. E, porque sabemos saborear, o que é pouco, pode ser muito; e o que é muito, pode ser pouco.

Esta tela em madeira -material que raramente uso, mas que gosto muito, dada as suas características de durabilidade, dureza e porosidade -, faz parte da série que fiz em 99, e que tinha como propósito representar, em simultâneo, duas realidades: pintura e instalação. A pintura existe dentro dos limites das formas irregulares da madeira; a instalação era resultante do conjunto das telas que, ao apresentarem as diferentes formas irregulares e singulares, conferiam uma mensagem pelo conjunto que formavam no todo. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Fernando Pessoa no “Livro do Desassossego”:

“Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha.”