quarta-feira, 16 de junho de 2010

Aqui tão perto





Agora é assim: viajamos para longe, para muito longe. Fugimos das rotinas e das paisagens diárias e próximas. Queremos alcançar outras miragens e outros sabores culturais. E porque queremos fugir, nem olhamos com olhos de ver o que nos cerca. Aqui tão perto...

Estas pinturas, em tela recortada, são viagens tendo por cenário a paisagem portuguesa, que a tantos é indiferente, embora estes conheçam as rotas turísticas massificadas. Enfim, outros modos de gostar e de apreciar a beleza ou a falta dela. E porque o que vejo me serve para retratar, esta série do início do século, nasceu do desejo de registar as minhas viagens. Aqui tão perto.

Estas telas procuram juntar, mercê da sua configuração, vários elementos figurativos em contextos diferenciados, tendo as cores verdejantes como elemento preponderante. A relação humana com o espaço e a expressão dos sentimentos fazem parte do meu modo de comunicar plasticamente. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Lawrence Durrell:

“A viagem pode ser uma das formas mais satisfatórias de introspecção.”

terça-feira, 15 de junho de 2010

Tudo acaba





Tudo acaba. O que é bom. O que nunca prestou. E porque tudo acaba, andamos - paradoxalmente-, por aqui, em busca sempre do elixir. Da juventude e da felicidade. Mas tudo acaba. A juventude e os momentos felizes. Felizmente nem tudo é mau. Acontecem coisas, de vez em quando. E a esperança renasce, quando menos se espera, sabendo sempre que tudo acaba. Tudo acaba. Mais dia, menos dia.

Estas duas pinturas em madeira, de formato irregular, sugerindo formas humanas em poses diversificadas, procuram criar um imaginário que se diferencie da configuração da pintura tradicional usando, no entanto, os mesmos processos de trabalho e de tratamento das imagens. Cores, formas, texturas, luzes e sombras fazem parte desta série que nasceu do desejo continuado de descobrir sempre novos processos, porque a arte deve ser um caminho de muitas buscas e encontros felizes. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Niccolo Maquiavel, in “Histórias Florentinas”:

“O que tem começo tem fim.”

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Enganos





“Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões.”

Bertrand Russel

Andamos por aqui, com muitas certezas e muitos enganos. Uns acreditam em muitas vidas; muitos outros apenas visualizam a temporalidade vivida e, destes, eu faço parte. Apenas e só, convictamente, considero a matéria temporal. Eu sou matéria e nada mais do que isso. Para mal dos meus pecados…

Estes trabalhos, em madeira, feitos em 99, fazem parte de uma série em que a silhueta humana expressa na forma, se anula com a pintura nela inserida. A variedade temática e cromática procura criar um jogo de muitas leituras, em que a vida, a nossa vida, é um mosaico de episódios e de desejos. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Aristóteles:
“A dúvida é o princípio da sabedoria.”

domingo, 13 de junho de 2010

Conviver





Felizmente. Felizmente que sabemos, de vez em quando, conviver. E conviver significa tanto e tão pouco. Bastam escassos segundos para iluminar um dia, uma vida. Conviver é, também, rotinar os hábitos, e viver ouvindo e sendo ouvido. Basta tão pouco, para o pouco ser muito, e o muito ser tanto. No convívio ... pois claro.


Inventamos sempre modos de estar com os outros. Hoje, mercê da net, inventámos modos de conviver, no presente, estando longe, muito longe, conhecendo ou não o outro. Convivemos somente. E, de tanto “conviver”, deixámos de estar sós, estando sós. Coisas do tempo. Do nosso tempo. Para o melhor e para o pior...

Estas pinturas, do início do novo milénio, em madeira, fazem parte do desejo de experimentar novos materiais e novas formas de expressão. Como é meu timbre, a singularidade é o desejo supremo da expressão única, que busco desde sempre. Aqui, mais uma vez, procurei criar, num formalismo muito pessoal, uma pintura que fosse reveladora de um tempo e de modo de conviver. História da Minha Pintura.


E vos deixo recordando hoje dos Textos Judaicos, in “Moisés Maimônides”:

“ O bem-estar na vida obtém-se com o aperfeiçoamento da convivência entre os homens.”

sábado, 12 de junho de 2010

Saborear



Momentos há que só queremos saborear. Saborear o instante. Saborear o pensamento. Saborear a paisagem. E, porque sabemos saborear, o que é pouco, pode ser muito; e o que é muito, pode ser pouco.

Esta tela em madeira -material que raramente uso, mas que gosto muito, dada as suas características de durabilidade, dureza e porosidade -, faz parte da série que fiz em 99, e que tinha como propósito representar, em simultâneo, duas realidades: pintura e instalação. A pintura existe dentro dos limites das formas irregulares da madeira; a instalação era resultante do conjunto das telas que, ao apresentarem as diferentes formas irregulares e singulares, conferiam uma mensagem pelo conjunto que formavam no todo. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Fernando Pessoa no “Livro do Desassossego”:

“Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha.”

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Brincar






as meninas
as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,
a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:

entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.

a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.

e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"


Estas pinturas representam cenários onde a criança está presente. Um brinquedo é, por excelência, um objecto que tem no imaginário infantil um lugar próprio e um encanto, que o tempo irá transformar. Enquanto o futuro não chega cabe ao menino ou à menina descobrir o encanto que um simples brinquedo consegue dar. E foi a pensar na magia e no deslumbramento das peças umas mais coloridas que outras; umas maiores e mais sonantes; umas mais belas ou mais rústicas que esta série pictural surgiu. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Jean de La Bruyère:

“As crianças não têm passado, nem futuro, e coisa que nunca nos acontece, gozam o presente.”

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Portugal






Patriota? Não: só Português
Patriota? Não: só português.
Nasci português como nasci louro e de olhos azuis.
Se nasci para falar, tenho que falar-me.


Alberto Caeiro, in "Fragmentos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Estas pinturas, em tela, de formato irregular feitas no início do século, são um olhar pela paisagem e pelo sentimento. Sentimento de um povo que tem as qualidades e as capacidades que nos orgulham e nos desesperam continuamente. Não somos uma ilha, tendo ilhas; não somos o desencanto, tendo encanto; não somos pequenos, sendo grandes; não somos grandes, sendo pequenos. Somos e não somos.

Procurei com esta série de telas recortadas criar múltiplas leituras dentro da pintura e com a própria configuração da tela. Cores térreas e um formalismo lírico pictorial visam criar impacto visual que, pela diferença, seja mais apelativo, num mundo de tanta imagem. História da Minha Pintura.

Hoje lembrei-me de Eduardo Lourenço um dos pensadores portugueses que mais admiro:
“Os criadores têm a realidade das suas criações. Os críticos aquela que as criações lhes consentem, sejam elas medíocres, excelentes ou geniais. A sua ilusão desenraizável é a de imaginar que são eles quem lhes dá vida, quem as ilumina, quem as julga. O contrário é mais exacto: são elas quem os faz viver, os ilumina ou julga.”

Neste dia, não poderia esquecer Amália que traduz o sentir e a alma deste povo. E vos deixo com “Canção do Mar/Solidão”.