segunda-feira, 14 de junho de 2010

Enganos





“Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões.”

Bertrand Russel

Andamos por aqui, com muitas certezas e muitos enganos. Uns acreditam em muitas vidas; muitos outros apenas visualizam a temporalidade vivida e, destes, eu faço parte. Apenas e só, convictamente, considero a matéria temporal. Eu sou matéria e nada mais do que isso. Para mal dos meus pecados…

Estes trabalhos, em madeira, feitos em 99, fazem parte de uma série em que a silhueta humana expressa na forma, se anula com a pintura nela inserida. A variedade temática e cromática procura criar um jogo de muitas leituras, em que a vida, a nossa vida, é um mosaico de episódios e de desejos. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Aristóteles:
“A dúvida é o princípio da sabedoria.”

domingo, 13 de junho de 2010

Conviver





Felizmente. Felizmente que sabemos, de vez em quando, conviver. E conviver significa tanto e tão pouco. Bastam escassos segundos para iluminar um dia, uma vida. Conviver é, também, rotinar os hábitos, e viver ouvindo e sendo ouvido. Basta tão pouco, para o pouco ser muito, e o muito ser tanto. No convívio ... pois claro.


Inventamos sempre modos de estar com os outros. Hoje, mercê da net, inventámos modos de conviver, no presente, estando longe, muito longe, conhecendo ou não o outro. Convivemos somente. E, de tanto “conviver”, deixámos de estar sós, estando sós. Coisas do tempo. Do nosso tempo. Para o melhor e para o pior...

Estas pinturas, do início do novo milénio, em madeira, fazem parte do desejo de experimentar novos materiais e novas formas de expressão. Como é meu timbre, a singularidade é o desejo supremo da expressão única, que busco desde sempre. Aqui, mais uma vez, procurei criar, num formalismo muito pessoal, uma pintura que fosse reveladora de um tempo e de modo de conviver. História da Minha Pintura.


E vos deixo recordando hoje dos Textos Judaicos, in “Moisés Maimônides”:

“ O bem-estar na vida obtém-se com o aperfeiçoamento da convivência entre os homens.”

sábado, 12 de junho de 2010

Saborear



Momentos há que só queremos saborear. Saborear o instante. Saborear o pensamento. Saborear a paisagem. E, porque sabemos saborear, o que é pouco, pode ser muito; e o que é muito, pode ser pouco.

Esta tela em madeira -material que raramente uso, mas que gosto muito, dada as suas características de durabilidade, dureza e porosidade -, faz parte da série que fiz em 99, e que tinha como propósito representar, em simultâneo, duas realidades: pintura e instalação. A pintura existe dentro dos limites das formas irregulares da madeira; a instalação era resultante do conjunto das telas que, ao apresentarem as diferentes formas irregulares e singulares, conferiam uma mensagem pelo conjunto que formavam no todo. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Fernando Pessoa no “Livro do Desassossego”:

“Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha.”

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Brincar






as meninas
as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,
a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:

entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.

a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.

e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"


Estas pinturas representam cenários onde a criança está presente. Um brinquedo é, por excelência, um objecto que tem no imaginário infantil um lugar próprio e um encanto, que o tempo irá transformar. Enquanto o futuro não chega cabe ao menino ou à menina descobrir o encanto que um simples brinquedo consegue dar. E foi a pensar na magia e no deslumbramento das peças umas mais coloridas que outras; umas maiores e mais sonantes; umas mais belas ou mais rústicas que esta série pictural surgiu. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Jean de La Bruyère:

“As crianças não têm passado, nem futuro, e coisa que nunca nos acontece, gozam o presente.”

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Portugal






Patriota? Não: só Português
Patriota? Não: só português.
Nasci português como nasci louro e de olhos azuis.
Se nasci para falar, tenho que falar-me.


Alberto Caeiro, in "Fragmentos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Estas pinturas, em tela, de formato irregular feitas no início do século, são um olhar pela paisagem e pelo sentimento. Sentimento de um povo que tem as qualidades e as capacidades que nos orgulham e nos desesperam continuamente. Não somos uma ilha, tendo ilhas; não somos o desencanto, tendo encanto; não somos pequenos, sendo grandes; não somos grandes, sendo pequenos. Somos e não somos.

Procurei com esta série de telas recortadas criar múltiplas leituras dentro da pintura e com a própria configuração da tela. Cores térreas e um formalismo lírico pictorial visam criar impacto visual que, pela diferença, seja mais apelativo, num mundo de tanta imagem. História da Minha Pintura.

Hoje lembrei-me de Eduardo Lourenço um dos pensadores portugueses que mais admiro:
“Os criadores têm a realidade das suas criações. Os críticos aquela que as criações lhes consentem, sejam elas medíocres, excelentes ou geniais. A sua ilusão desenraizável é a de imaginar que são eles quem lhes dá vida, quem as ilumina, quem as julga. O contrário é mais exacto: são elas quem os faz viver, os ilumina ou julga.”

Neste dia, não poderia esquecer Amália que traduz o sentir e a alma deste povo. E vos deixo com “Canção do Mar/Solidão”.



quarta-feira, 9 de junho de 2010

O mundo infantil



A Criança que Pensa em Fadas
A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa


A arte é uma fuga; é um fingimento contente; é um caminho de descobertas; é um modo de estar e não estar; é a liberdade de ser outro, sendo o mesmo; é a fuga da realidade e da verdade; é tanto e é tão pouco.

Adoro crianças. Sempre gostei da pequenada. E de vez em quando faço obras que têm como alvo o mundo infantil, visto pelo olhar de quem viu passar muitas vidas. Esta série de pinturas em tela, de diferentes formatos, feitas quase todas no ano 2000 e expostas na então Galeria Art Konstant em Lisboa, marca uma faceta do meu percurso pictórico. Neste imenso universo de imagens procuro criar algo de novo que faça a diferença utilizando os processos antigos (tela, tintas e pincéis), mas dando um cunho novo. Deste modo, nasceu esta série, hoje tão longe daquilo que faço. História da Minha Pintura.

Hoje lembrei-me das palavras de Nicolas Boileau:

“Para que eu chore, é preciso que vós choreis também.”

terça-feira, 8 de junho de 2010

A nudez






A Mulher Nua
Humana fonte bela,
repuxo de delícia entre as coisas,
terna, suave água redonda,
mulher nua: um dia,
deixarei de te ver,
e terás de ficar
sem estes assombrados olhos meus,
que completavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?

(Estios; verdes frondas,
águas entre as flores,
luas alegres sobre o corpo,
calor e amor, mulher nua!)

Limite exacto da vida,
perfeito continente,
harmonia formada, único fim,
definição real da beleza,
mulher nua: um dia,
quebrar-se-á a minha linha de homem,
terei que difundir-me
na natureza abstracta;
não serei nada para ti,
árvore universal de folhas perenes,
concreta eternidade!

Juan Ramón Jiménez, in "La Mujer Desnuda"
Tradução de José Bento


A nudez tem o encanto do pecado e da descoberta do outro. A religiosidade criou perante o nosso corpo, grosso modo, condutas que, por sua vez, provocaram outros modos de nos olharmos. Com ou sem liberdade, com ou sem censura, o corpo, o nosso eterno corpo será palco de imaginação, fantasia e descoberta. Na vida. E na arte também.

Estas aguarelas foram feitas para responder a solicitações literárias. A ponte entre a escrita e a imagem é um campo apaixonante, já que gosto de ilustrar textos, segundo um julgamento formal que tem como técnica artística a aguarela. É rápido e simples desenhar e pintar no papel . Depois é o jogo da paciência e do gosto. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a a voz de Beverly Sills numa ópera de Jacques Offenbach, baseado nas estórias de Hoffmann.