quinta-feira, 27 de maio de 2010

Festas populares



O Verão está à porta. O calor já começa a chegar e o desejo das festanças também. Um pouco por todo o lado, o bom povo procura a brisa do mar ou os comes-e bebes acompanhado pela música do costume. De banda em banda se assiste ao cortejo e à simbologia da festa. E assim com sonoridade, calor e muitos aromas se faz a história das vidas por aqui. Em 2010. Nas festas populares.

Esta pintura em tela é mais uma representação do encanto que a se assiste quando a banda passa. É um ritual sempre chamativo, sempre cativante, sempre desejado. A simplicidade é a fórmula mágica que faz perpetuar modos e posturas. O que é genuíno tem esse dom. E foi esse modo de contemplar a banda a passar que este meu trabalho procurou vincar.

Ambiente com alguma fantasia e cores quentes fazem esta obra, onde o jogo de luzes e sombras ocupam um lugar relevante.História da Minha Pintura.

Hoje lembrei-me das palavras de Victor Hugo, in “Contemplações”:

“O homem é uma prisão em que a alma permanece livre.”

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Só penso



Já não Vivo, Só Penso

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.


Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"

Esta tela é um olhar pela cercania e pela postura dos momentos de meditação. Pensamos tanto e, no entanto, muito fica na incógnita dos desejos de cada um. É esse retrato do intimismo do espaço e do indivíduo que gosto de expor. Cada tempo tem as suas marcas e, esta pintura de 86, procura caracterizar o meio e modos de estar.

Para fazer este trabalho fui profundamente influenciado pela pintura americana dos anos setenta. A perspectiva, as cores e a pose definem esta obra feita num ápice.História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Verdi, a voz de António Cortis e uma ária de "Rigoletto".

terça-feira, 25 de maio de 2010

Lugares mágicos



Há sítios com magia: encantam e deslumbram. Por muitas razões nos apaixonamos por lugares. Lugares que têm a beleza e a capacidade de nos emocionar. Pode ser só pela estética, ou pela História, ou pela conjugação de interesses. O importante mesmo é gostar de estar no sítio certo, porque o que conta é o prazer, e este, depende de cada um, de acordo com as circunstâncias, ou seja, a magia é feita dentro de nós, e não em lugar nenhum.

Esta tela é uma pintura que procura retratar um espaço que tem a magia das cores, das luzes, das sombras e da História (para mim). Porque gostei tanto de olhar com olhos de ver esta conjugação de elementos estéticos e narrativos, não resisti a criar esta paisagem, onde a mão do Homem se harmonizou com a Natureza. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Friedrich Nietzche, in “A Gaia Ciência”:

“As explicações místicas passam por profundas; a verdade é que nem sequer são superficiais.”

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Melhores dias



É sempre assim. Esperamos. Esperamos sempre. Esperamos por melhores dias. Dias que queremos diferentes de acordo com os nossos propósitos. O tempo passa, os dias também e tudo continua como dantes. Acontece muito. Quase sempre, quando queremos melhores dias...

Esta tela é um olhar pela paisagem que é bela para quem gosta de contemplar a natureza e o meio rural. E gostamos quando olhamos com olhos de ver segundo os nossos valores e princípios. Tudo se resume, afinal, a uma postura cultural que é definidora daquilo que chamamos felicidade ou do desencanto pelos melhores dias.

Esta pintura nasceu do gosto de estar, olhar e fruir o espaço, o tempo e a luminosidade de um lugar que tem tudo de pictórico: cor, sombra, luz, forma, textura e criatividade. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Hugo Hofmannsthal, in “O Livro dos Amigos”:

“Uma hora de contemplação é melhor que um ano de devoção.”

domingo, 23 de maio de 2010

Esquecimento



Esqueço-me das Horas Transviadas

Esqueço-me das horas transviadas
o Outono mora mágoas nos outeiros
E põe um roxo vago nos ribeiros...
Hóstia de assombro a alma, e toda estradas...

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a orgíaco... Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...

No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés

No meu cansaço perdido entre os gelos
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


Esta tela branca é o palco que espera pelas tintas e pela imaginação do pintor. De vez em quando, o vazio invade tudo e nada deixa para a criação. De tempos a tempos, nada faço, porque não consigo pintar com convicção, nem com vontade, nem com determinação. E tenho mesmo de parar. Parar para pensar. Pensar para ganhar alento. É assim que eu trabalho. História da Minha Pintura.

Esclarecimento:
Acontece. Acontece a todos. E mais ainda aos distraídos. Esqueci-me da senha que tinha alterado. As novas tecnologias não perdoam ( as máquinas têm sempre razão). O blog sem senha não funcionava. Agora que está reposta a normalidade tudo vai ser (quase)como dantes. Irei continuar a publicar pequenos textos, pontualmente com músicas, e, sempre, a minha pintura. De diário este blog passará a semanal. O tempo- sempre o tempo -, não me permite esta rotina que, confesso, me tira tempo à pintura, razão principal, afinal, do nascimento deste blog que é :divulgar o meu trabalho.

E vos deixo com a música de Puccini, as vozes de Plácido Domingo e de Mirella Freni em “Madame Butterfly”.


terça-feira, 18 de maio de 2010

As minhas ilusões



As Minhas Ilusões
Hora sagrada dum entardecer
De Outono, à beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invisível lira ...
O sol é um doente a enlanguescer ...

A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu ... e veste luto o mar ...
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas Ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim ... uma por uma ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


Esta tela, dos anos oitenta, é uma síntese da transparência dos lugares e dos modos de vida, que acabam sempre por ser espaços abertos, onde cada um faz os juízos de valor que quer, de acordo com os seus interesses. E é no cantinho de cada um, que construimos os castelos de sonho, e as ilusões que o tempo aclara.

Esta minha pintura é resultante dos muitos desenhos prévios dos espaços surrealizantes que fazia na época, e do jogo das cores contrastantes. Mundos perfeitos com ambientes salutares e longínquos da instabilidade emocional ou social era a marca desse tempo. Depois era, na tela, a luta do costume: construção e destruição de formas e cores, até que, julgado certo o enquadramento e o cromatismo, finalizava com a assinatura e a datação do trabalho. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a mestria musical de Glenn Gould tocando Bach.