sexta-feira, 14 de maio de 2010

Olhar




De Quem é o Olhar


“De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?
...”

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Esta pequena pintura, em tela, é um olhar pela multidão que preenche os espaços domingueiros, em busca da serenidade e do encanto do descanso, e do consolo pelo fruir da natureza. É sempre assim que este povo invade graciosamente o tempo e os lugares. Este retrato é um daqueles momentos em que o estar é uma conquista. Basta, afinal, tão pouco para saborear o saber estar e saber olhar. Olhar vendo a realidade e o outro imaginário que só a intimidade sabe. Estar gostando de estar.

Para fazer esta pequena tela apenas precisei de recorrer aos muitos desenhos que fui fazendo de muitos que se cruzaram no meu caminho. Cores simples e uma combinação de escalas, proporções e enquadramentos fazem o historial deste trabalho. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Luigi Boccherini: “Minuetto”


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Jardins especiais



Passear pelos jardins é sempre um prazer, sobretudo, quando se quer fugir do bulício, do muito cimento e do alcatrão das paisagem de todos os dias. E há jardins que nos trazem recordações especiais...

Esta pintura é um dos muitos olhares, pela beleza que só a natureza é capaz de encantar. Aqui procurei criar a ilusão de um espaço profundo, onde os verdes predominam numa paisagem cheia de arvoredo e flores.

A perspectiva e os diferentes jogos tonais de verdes fazem a história desta pequena tela, que foi feita “às três pancadas”, ou seja: num impulso. É bom que se diga que trabalho muito por atitudes repentinas, bem de acordo com o meu modo de agir, em momentos especiais... História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de François La Rochefoucauld:

“Nada nos impede mais de ser naturais do que o desejo de o parecermos”.

E vos deixo com a música de Vivaldi e “A Primavera”.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Importante



Importante é saber gostar. Gostar sem duvidar. Gostar de estar e ser. Ser verdadeiro e sentir. Sentir a verdade e expressar essa verdade. Isso é que é importante. O resto é conversa. Conversa fiada.

Esta pequena tela, surgida por acaso, é o resultado do desejo de expressar um tempo e um modo de estar; de viajar, sobretudo; e de contemplar o mundo e as suas gentes. Outros tempos, e outros interesses. Afinal.

Como observador atento procuro sempre captar um olhar ( que julgo diferenciado). E assim surgiu este meu trabalho, que só aconteceu porque, um dia, vi Paris com outros olhos. Olhos atentos às cores e às formas impressionistas, da minha gente (leia-se pintores). História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Stendhal, um escritor que me fascinou:

“O que é a beleza? Uma nova aptidão para nos dar prazer.”

E vos deixo com a música de Puccini, que me deixa sempre e sempre deslumbrado, e a voz de Mario Lanza, que ouvi em adolescente, ainda em terras africanas, e que tanto me marcou. Até hoje.

terça-feira, 11 de maio de 2010

(Des)crença



Acreditamos ou não. Para uns é uma questão de fé. Para os restantes é saber ou não saber. E assim vivemos, neste caldo de leituras e de considerações subjectivas, que nos conduzem pelos caminhos certos, ou ... para o precipício. Sempre assim foi. Dificilmente será diferente. As crenças e as descrenças. Pois claro!

Esta pintura, em tela, é mais um olhar pela multiplicidade de palcos, que é este nosso tempo, de cruzamento de ideias e de pessoas, por todo o lado. Levamos e trazemos : ideias boas e más. Coisas importantes e sem interesse nenhum. O lado mágico - do universo africano -, com as crenças é presença activa na arte que percorre o mundo, fazendo com que posturas, comportamentos e modos de estar, se confundam, com as tradições locais, um pouco por todo o lado: é na música, na dança, nos gestos, nos gostos, no cromatismo e em tantas outras coisas. E porque assim é esta minha pintura, é uma narrativa da importância ou não do valor do sobrenatural. Afinal, uma questão de fé. Crença ou ...descrença.

Este meu trabalho é um díptico no qual procurei combinar cores contrastantes e fortes num contexto surrealizante. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Voltaire:
“ O interesse que tenho em acreditar numa coisa não é prova da existência dessa coisa.”

E vos deixo com o canto gregoriano, que muito gosto pelo sincronismo vocal e, sobretudo, pela sonoridade.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Benfica



O país ( uma parte do país) ficou eufórico. Esquecendo o desemprego, as fatalidades sociais e outras doenças, ontem houve festa. E grande. As ruas encheram-se de gente que alegremente cantaram vitória. O povo precisa de esquecer a realidade e viver, por momentos, o fascínio da ilusão da felicidade. E tudo graças ao Benfica.

Este díptico, em tela, de 1995, é o retrato também de um jogo de bola, onde, num contexto campesino, com franjas citadinas, o prazer do desporto está patente. Cada época tem sistemas e modos de divertimento de massas. Agora, entre outros, dar pontapés na bola é dos mais emotivos. Coisas do tempo. Do nosso tempo para viver na emoção e com a emoção.

Para fazer este trabalho - hoje propriedade da Secretaria de Estado dos Desportos -, utilizei, como fazia na época, umas folhas soltas A4 onde desenhava as figuras e as situações que iria pintar. Só mais tarde resolvi comprar blocos de folhas, para que os desenhos que deram origem às pinturas, não se perdessem, como aconteceu neste caso. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Oscar Wilde:

“A emoção pela emoção é a finalidade da arte, a emoção pela acção é a finalidade da vida e dessa organização da vida a que chamamos a sociedade.”

domingo, 9 de maio de 2010

Histórias breves



Tudo passa num ápice: o tempo, a vida e os bons momentos.

Esta tela é o retrato do encanto dos bons momentos. O importante é saber encontrar nos sítios certos, as pessoas certas, para viver os prazeres das circunstâncias. Os sentimentos são sempre provas de intimismo muito pessoal, onde cada um tem a sua medida de afecto, e o seu modo de gostar ou não.


Num contexto parco em objectos reveladores da posição social, procurei, aqui, enaltecer posturas, independentemente da presença ou da falta de bens de consumo no espaço familiar. As cores e a temática falam por si, nesta pintura, que é também um relato de um tempo, de vidas e de momentos. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Boris Vian:

“Se nos lembrarmos melhor dos bons momentos, para que servemos maus?”

E vos deixo com a música de Smetana e“O Moldava” que me fascina.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Banho matinal



É uma necessidade; é um ritual; é um modo de estar. Todos os dias, o banho matinal faz as delícias de quem se habituou a saborear os prazeres da água escorrendo pelo corpo, logo ao nascer da manhã. E, porque esconde sempre a intimidade de cada um, ele é um momento de encanto; de magia e de imaginação. Depois há os outros que, por muitos banhos que tomem, nunca irão conseguir limpar o corpo - sobretudo a alma - , da sujidão que transportam eternamente. Eternamente.

Esta tela da série de 1995 é uma representação do banho, num contexto aberto e rural, propício ao mal-dizer dos pequenos aldeamentos, onde a vida de cada um é sempre o alvo da intriga e da inveja. A espacialidade é dúbia já que o interior se confunde com a paisagem externa, numa mescla de confusas realidades, que é, afinal, a vida de todos, nos dias que correm, mesmo para aqueles que se julgam imunes às mudanças.

Cores simples e um desenho com escalas definem este trabalho que foi feito no turbilhão pictórico dessa época.

Recordo hoje as palavras de Friedrich Nietzsche, in “Para Além do Bem e do Mal”:

“Em homens duros a intimidade é questão de pudor – e algo de precioso.”