segunda-feira, 10 de maio de 2010

Benfica



O país ( uma parte do país) ficou eufórico. Esquecendo o desemprego, as fatalidades sociais e outras doenças, ontem houve festa. E grande. As ruas encheram-se de gente que alegremente cantaram vitória. O povo precisa de esquecer a realidade e viver, por momentos, o fascínio da ilusão da felicidade. E tudo graças ao Benfica.

Este díptico, em tela, de 1995, é o retrato também de um jogo de bola, onde, num contexto campesino, com franjas citadinas, o prazer do desporto está patente. Cada época tem sistemas e modos de divertimento de massas. Agora, entre outros, dar pontapés na bola é dos mais emotivos. Coisas do tempo. Do nosso tempo para viver na emoção e com a emoção.

Para fazer este trabalho - hoje propriedade da Secretaria de Estado dos Desportos -, utilizei, como fazia na época, umas folhas soltas A4 onde desenhava as figuras e as situações que iria pintar. Só mais tarde resolvi comprar blocos de folhas, para que os desenhos que deram origem às pinturas, não se perdessem, como aconteceu neste caso. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Oscar Wilde:

“A emoção pela emoção é a finalidade da arte, a emoção pela acção é a finalidade da vida e dessa organização da vida a que chamamos a sociedade.”

domingo, 9 de maio de 2010

Histórias breves



Tudo passa num ápice: o tempo, a vida e os bons momentos.

Esta tela é o retrato do encanto dos bons momentos. O importante é saber encontrar nos sítios certos, as pessoas certas, para viver os prazeres das circunstâncias. Os sentimentos são sempre provas de intimismo muito pessoal, onde cada um tem a sua medida de afecto, e o seu modo de gostar ou não.


Num contexto parco em objectos reveladores da posição social, procurei, aqui, enaltecer posturas, independentemente da presença ou da falta de bens de consumo no espaço familiar. As cores e a temática falam por si, nesta pintura, que é também um relato de um tempo, de vidas e de momentos. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Boris Vian:

“Se nos lembrarmos melhor dos bons momentos, para que servemos maus?”

E vos deixo com a música de Smetana e“O Moldava” que me fascina.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Banho matinal



É uma necessidade; é um ritual; é um modo de estar. Todos os dias, o banho matinal faz as delícias de quem se habituou a saborear os prazeres da água escorrendo pelo corpo, logo ao nascer da manhã. E, porque esconde sempre a intimidade de cada um, ele é um momento de encanto; de magia e de imaginação. Depois há os outros que, por muitos banhos que tomem, nunca irão conseguir limpar o corpo - sobretudo a alma - , da sujidão que transportam eternamente. Eternamente.

Esta tela da série de 1995 é uma representação do banho, num contexto aberto e rural, propício ao mal-dizer dos pequenos aldeamentos, onde a vida de cada um é sempre o alvo da intriga e da inveja. A espacialidade é dúbia já que o interior se confunde com a paisagem externa, numa mescla de confusas realidades, que é, afinal, a vida de todos, nos dias que correm, mesmo para aqueles que se julgam imunes às mudanças.

Cores simples e um desenho com escalas definem este trabalho que foi feito no turbilhão pictórico dessa época.

Recordo hoje as palavras de Friedrich Nietzsche, in “Para Além do Bem e do Mal”:

“Em homens duros a intimidade é questão de pudor – e algo de precioso.”

Mercado de Arte



O mercado é troca, ou seja: receber e dar. É mesmo assim. Uns entregam dinheiro, e outros ... produtos. Funciona o sistema quando há gente que quer ter isto e aquilo. Até arte. Arte que é: o que faz falta ... quando nada mais é necessário. E por ser tão pouco necessário, já não vivemos sem arte. A arte está em todo o lado. Em tudo. Sem arte não vivemos. Um mundo sem música é inconcebível; sem combinação de cores é inimaginável; sem imagens produzidas é impossível. Precisamos da criação de ideias e produtos pelo prazer da fruição. Faz falta – arte -, pela razão simples de que está em todo o lado, mesmo quando não está em lado nenhum.

Esta tela, de 1995, é o retrato de uma galeria onde a pintura ( leia-se quadros) é ela própria pintada. A representação de um espaço e de um contexto tão desfasado da vida de muitos é, em alguns paraísos mercantilistas, uma euforia monetária. Uma tela de Picasso vendida por 106 milhões de euros é o espelho da importância mercantilista... do mercado da arte. Coisas de outros centros cosmopolistas, tão longe da realidade portuguesa, onde quase não existe quem compre pintura.

Para fazer este trabalho utilizei vários pontos de fuga e cores fortes contrastantes, num desenho de formas simples. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Gustave Flaubert:

“A moral da arte reside na sua própria beleza.”

E vos deixo com a música de Verdi na ópera Rigoletto e com a voz inconfundível de Pavarotti


quinta-feira, 6 de maio de 2010

O relógio





Vivemos segundo a segundo. Tudo é feito tendo em conta cada instante de tempo. Sem darmos conta, escravos ficámos, deste nosso modo de cumprir horários. E será cada vez pior. Em nome do progresso, e das novas tecnologias, o comportamento humano é mais uma peça da engrenagem do funcionamento social. É o relógio que nos indica, o tempo certo, para fazer isto e aquilo. O relógio!!!

Esta tela, de 1995, é mais uma visão da necessidade de estar no espaço, com a dimensão do tempo. Em todo o lado, precisamos de saber -as horas a que temos direito -, para fazer (ou não fazer) o que gostamos. Cada invento nem sempre veio tornar a vida dos humanos melhor. Até piorou (algumas vezes) a liberdade de estar ou não estar; de fazer ou não fazer!!!

Esta tela de 1995 é - de acordo com a temática pictórica da época -, um olhar cheio de cor e de configurações vibrantes. Mais uma vez, pretendi que as formas fossem simples para fortalecer a mensagem, tendo sempre presente que uma pintura não é um romance, nem deve nunca transformar-se numa escrita. A pintura é, apenas, um jogo de formas e cores, que transmitem ideias de leituras díspares. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Carlos Drummond de Andrade:

“Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes."

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Depois



Prever, como se sabe, é sempre, por antecipação, imaginar o futuro. Este ( o futuro) pertence ao mundo da futurologia e da astrologia, que , como acontece muito, é batutice e ignorância. Afinal, coisas da fé, ou do fundamentalismo. Mas é mesmo assim. Há os que vivem ( e bem) com as probabilidades. E disso fazem vida. E da boa. Mas eu não.

Esta tela, de 1995, é um olhar pelo espaço privado, com as diferenças entre os lugares reais e virtuais, de cada um. Todos nós temos o nosso espaço que é, como todos os lugares, muito ou nada importante, na escala social. Aqui, a referência ao contributo do trabalho, daqueles que tudo fazem e pouco recebem, é afinal a história da vida de muitos, dos que trabalham. A vida é sempre, como todos sabemos, composta pelo antes e o depois, com sucessos e fracassos, de acordo com a dimensão dos objectivos de cada um.

A representação espacial e a multiplicidade de elementos figurativos fazem parte deste meu trabalho pictórico, onde as cores saturadas predominam, num contexto em que as formas pecam pela simplicidade formal. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Edmund Burke:

“Nunca se pode planear o futuro pelo passado”.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Juventude


Juventude
Lembras-te, Carlos, quando, ao fim do dia,
Felizes, ambos, íamos nadar
E em nossa boca a espuma persistia
Em dar ao Sol o nome do Luar?

Tudo era fácil, melodioso e longo.
Aqui e além, um súbito ditongo
Ecoava em nós certa canção pagã.

Contudo o azul do mar não tinha fundo
E o mundo continuava a ser o mundo
Banhado pela aragem da manhã!...


Pedro Homem de Mello, in "O Rapaz da Camisola Verde".

Monopólio era um jogo de adolescentes. Hoje ainda existe na versão digital, este didáctico e apologista meio de promoção da sociedade dos muitos bens (para alguns), e talvez já não tenha o encanto de outros tempos. Tempos em que o significado do jogo era bem diferente da realidade monopolista da economia real. Eram outros modos de olhar sem sentido crítico a verdade das coisas. Fantasias da juventude, afinal. E, porque foi marcante este modo de passar o tempo, retratei um espaço juvenil, onde os objectos marcantes de um modo e de um tempo formavam uma visão dos interesses de uma época.
As cores são comuns às telas dessa temática intimista dos anos 80; e as formas são grotescas, como denunciam os trabalhos desse tempo. História da Minha Pintura.

E vos deixo ( hoje deu-me para isto) com a música daqueles anos loucos e John Lennon e “Imagine”.