Há os sortudos. Há aqueles que logo encontram. Depois há os outros. E são muitos. Muitos os que buscam o caminho certo. Buscam e buscam. E de tanto procurar já não sabem o que procuram. E assim o tempo passa. E a vida também.
Esta tela, de grandes dimensões, é do tempo da procura por uma identidade pictórica. Aqui queria captar a essência das nossas origens, da alegria das muitas formas de vida e do encanto que é viver quanto tudo parece perfeito. Era o tempo em que adorava percorrer as feiras e comprar artesanato. Afinal, tudo que pinto foi vivido. História da Minha Pintura.
E recordo hoje as palavras de Henri Bergson: “A vida é um caminho de sombras e luzes. O importante é que se saiba vitalizar as sombras e aproveitar as luzes”.
Quando olho para mim não me percebo. Tenho tanto a mania de sentir Que me extravio às vezes ao sair Das próprias sensações que eu recebo. O ar que respiro, este licor que bebo, Pertencem ao meu modo de existir, E eu nunca sei como hei de concluir As sensações que a meu pesar concebo. Nem nunca, propriamente reparei, Se na verdade sinto o que sinto. Eu Serei tal qual pareço em mim? Serei Tal qual me julgo verdadeiramente? Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu, Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
Fernando Pessoa
De quando em vez descubro telas perdidas na memória e que relatam uma época. Este meu trabalho é mais um que aparece com a arrumação do acervo. E assim recordo outros modos de olhar o mundo e de me conhecer. A pintura é, também, um processo de auto-análise, onde o que parece é -umas vezes -, e não é, muitas outras.
Este díptico é uma tela onde, num ambiente rural, estão presentes os jogos de luz, sombra e forma num espaço cheio com a presença humana, que é, afinal, um auto-retrato. História da Minha Pintura.
E vos deixo com a música de Puccini e a ópera "La Bohéme" no Scala de Milão em 1979 e a voz de Pavarotti.
A vida é assim. Uma desgraça nunca vem só. Agora, todos os dias, vivemos com a inquietação do descalabro económico e com a perspectiva da hecatombe social. E, quando associamos o que se passa no país, mais as tragédias dos nossos amigos e conhecidos, a tristeza dos dias é ainda maior. É como me sinto.
Esta minha obra feita faz tempo, é um dos painéis que constituem “A Minha Vida”. Aqui, este díptico é uma referência ao mundo infantil com o brinquedo a dominar a composição e que tinha, na minha infância, a magia e o encanto que as novas tecnologias do lúdico-infantil substituíram. Coisas de um outro tempo, de um outro modo de viver e olhar a vida, tão longe das tragédias e dos desencantos.
Para fazer este trabalho dividido em três partes composto por seis telas agrupadas em dípticos de 160x60 fiz inúmeros desenhos prévios. Léger foi uma referência e uma fonte de inspiração. As cores e a pincelada foram obtidas após muitas construções e destruições. História da Minha Pintura.
E vos deixo com as palavras de Blaise Pascal:
“Tudo o que sei é que devo morrer em breve; mas o que mais ignoro é essa mesma morte, que não saberei evitar.”
O nosso lugar é onde idealizamos e sonhamos. Sonhamos sempre com um mundo onde tudo de bom nos acontece. Nada, mas mesmo nada, torna os dias depressivos e angustiantes. É preciso sonhar com as coisas boas: com as fantasias e os encantos que só os prazeres maiores nos elevam e enobrecem. O outro lado, o lado real das coisas, com tudo de menos bom e inquietante é para esquecer. O importante é saber viver, com o pensamento certo, no momento certo, no lugar certo. Devaneios...
Esta tela é o retrato de um lugar, do mundo perfeito, onde tudo parece estar no sítio certo. As aparências iludem, muitas vezes. Infelizmente. Nem sempre o que parece é. O que é resulta sempre do nosso juízo de valores, que vale o que vale, de acordo com a nossa cultura e o nosso fundamentalismo.
Aqui procurei criar uma imagem de um espaço e de um tempo onde tudo parece estar certo e para isso utilizei as cores “frias”( leia-se verdes e azuis) e formas simples e de fácil leitura: casinhas e paisagem campestre. História da Minha Pintura.
E vos deixo com as palavras de Teixeira de Pascoaes:
De Saudades vou morrendo E na morte vou pensando: Meu amôr, por que partiste, Sem me dizer até quando? Na minha boca tão linda, Ó alegrias cantae! Mas, quem se lembra d'um louco? - Enchei-vos d'agua, meus olhos, Enchei-vos d'agua, chorae!
António Botto, in 'Canções'
A vida tem destas coisas. Sem esperar, sem nada prever recebi uma carta, de um amigo, de longa data, perdido no tempo e no espaço. Perdido como tantos que se cruzaram no meu caminho. Foi um encontro de recordações e de saudades, de um tempo e de um espaço. Foi sobretudo falar do passado, reviver episódios e gentes que, algures por aí, labutam em busca do bem-estar e da felicidade. Adorei regredir no tempo e matar saudades. Adorei. Adorei. Eu sou assim.
Esta tela, de grandes dimensões, é o retrato daqueles momentos, que vivemos vendo e pensando no bom e no menos mau, que é estar no sítio certo, no momento correcto e com a nossa gente. Pensamos sempre como tudo tem o seu encanto ou não, de acordo com os nossos interesses. É assim que vivemos. Com muita emoção ou sem ela. Eu, por mim, prefiro as emoções fortes.
Cores sombrias e perspectiva para acentuar a profundidade de campo constituem este jogo de formas, onde a narrativa pictórica ocupa o seu espaço. História da Minha Pintura.
E vos deixo com a música que tanto me encanta e fascina: Rimsky – Korsakov e “Scheherazade”.
— Liberdade, que estais no céu... Rezava o padre-nosso que sabia, A pedir-te, humildemente, O pio de cada dia. Mas a tua bondade omnipotente Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra... E a minha voz crescia De emoção. Mas um silêncio triste sepultava A fé que ressumava Da oração.
Até que um dia, corajosamente, Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, Saborear, enfim, O pão da minha fome. — Liberdade, que estais em mim, Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga, in 'Diário XII'
Trinta e seis anos depois, este dia continua marcante por mais uns tempos. Antes e depois do 25 de Abril se faz a História deste Portugal democrático contemporâneo. Não vou falar das injustiças, do oportunismo, da ganância, da má-fé, do desencanto, e de tantos males dos nossos dias. O que quero dizer, recordando José Régio:
Não sei por onde vou, Não sei para onde vou Sei que não vou por aí!
A minha pintura é sobretudo um olhar pela interioridade de cada um, com os desejos, as ambições, as alegrias e tristezas comuns a todos. Não é, nem nunca será, um veículo político, embora esteja presente ( procuro que assim seja) uma postura de vida que passa pela liberdade e pelo melhor que há na natureza humana. História da Minha Pintura.
E vos deixo com a poesia de Manuel Alegre, a música e a voz de Adriano Correia de Oliveira : “Trova do vento que passa”.
Se Nada Há de Novo Se nada há de novo e tudo o que há já dantes era como agora é, só ilusão a criação será: criar o já criado para quê? Que alguém me mostre, sobre um livro antigo como quinhentas translações astrais, a tua imagem, na inscrição, no abrigo do espírito em seus signos iniciais. Que eu saiba o que diria o velho mundo deste milagre que é a tua forma; se te viram melhor, se me confundo, se as translações seguem a mesma norma. Mas disto estou seguro: antigos textos louvaram mais com bem menores pretextos.
William Shakespeare, in "Sonetos" Tradução de Carlos de Oliveira
Os tempos mudam e a arte tem de acompanhar as mudanças. Criar obras que tragam algo de novo é o grande desafio de qualquer artista. Uns depressa encontram o caminho, os meios e os processos que os identificam e os valorizam; os restantes andam por aí em busca do mesmo que todos conhecem e na repetição do já visto. O drama maior é o desencontro com o tempo, que, como se sabe, acontece em todo o lado, com muita gente. Infelizmente.
Estes desenhos são registos prévios de buscas por novas ideias. Ideias que devem ser sempre originais e geradoras de outros caminhos, no entanto, a descoberta nem sempre acontece. Aqui o importante é o prazer de ver nascer formas. A arte é um prazer embora a sua criação seja sempre um parto doloroso. História da Minha Pintura.
E vos deixo com a música electrónica que não me deixa saudades nenhumas…