terça-feira, 27 de abril de 2010

O nosso lugar



O nosso lugar é onde idealizamos e sonhamos. Sonhamos sempre com um mundo onde tudo de bom nos acontece. Nada, mas mesmo nada, torna os dias depressivos e angustiantes. É preciso sonhar com as coisas boas: com as fantasias e os encantos que só os prazeres maiores nos elevam e enobrecem. O outro lado, o lado real das coisas, com tudo de menos bom e inquietante é para esquecer. O importante é saber viver, com o pensamento certo, no momento certo, no lugar certo. Devaneios...

Esta tela é o retrato de um lugar, do mundo perfeito, onde tudo parece estar no sítio certo. As aparências iludem, muitas vezes. Infelizmente. Nem sempre o que parece é. O que é resulta sempre do nosso juízo de valores, que vale o que vale, de acordo com a nossa cultura e o nosso fundamentalismo.

Aqui procurei criar uma imagem de um espaço e de um tempo onde tudo parece estar certo e para isso utilizei as cores “frias”( leia-se verdes e azuis) e formas simples e de fácil leitura: casinhas e paisagem campestre. História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Teixeira de Pascoaes:

“Existir não é pensar: é ser lembrado.”

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Saudades da minha terra



De Saudades vou Morrendo


De Saudades vou morrendo
E na morte vou pensando:
Meu amôr, por que partiste,
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão linda,
Ó alegrias cantae!
Mas, quem se lembra d'um louco?
- Enchei-vos d'agua, meus olhos,
Enchei-vos d'agua, chorae!


António Botto, in 'Canções'

A vida tem destas coisas. Sem esperar, sem nada prever recebi uma carta, de um amigo, de longa data, perdido no tempo e no espaço. Perdido como tantos que se cruzaram no meu caminho. Foi um encontro de recordações e de saudades, de um tempo e de um espaço. Foi sobretudo falar do passado, reviver episódios e gentes que, algures por aí, labutam em busca do bem-estar e da felicidade. Adorei regredir no tempo e matar saudades. Adorei. Adorei. Eu sou assim.

Esta tela, de grandes dimensões, é o retrato daqueles momentos, que vivemos vendo e pensando no bom e no menos mau, que é estar no sítio certo, no momento correcto e com a nossa gente. Pensamos sempre como tudo tem o seu encanto ou não, de acordo com os nossos interesses. É assim que vivemos. Com muita emoção ou sem ela. Eu, por mim, prefiro as emoções fortes.

Cores sombrias e perspectiva para acentuar a profundidade de campo constituem este jogo de formas, onde a narrativa pictórica ocupa o seu espaço. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música que tanto me encanta e fascina: Rimsky – Korsakov e “Scheherazade”.

domingo, 25 de abril de 2010

Liberdade



Liberdade

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga, in 'Diário XII'


Trinta e seis anos depois, este dia continua marcante por mais uns tempos. Antes e depois do 25 de Abril se faz a História deste Portugal democrático contemporâneo. Não vou falar das injustiças, do oportunismo, da ganância, da má-fé, do desencanto, e de tantos males dos nossos dias. O que quero dizer, recordando José Régio:

Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

A minha pintura é sobretudo um olhar pela interioridade de cada um, com os desejos, as ambições, as alegrias e tristezas comuns a todos. Não é, nem nunca será, um veículo político, embora esteja presente ( procuro que assim seja) uma postura de vida que passa pela liberdade e pelo melhor que há na natureza humana. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a poesia de Manuel Alegre, a música e a voz de Adriano Correia de Oliveira : “Trova do vento que passa”.


sábado, 24 de abril de 2010

Nada de novo









Se Nada Há de Novo
Se nada há de novo e tudo o que há
já dantes era como agora é,
só ilusão a criação será:
criar o já criado para quê?
Que alguém me mostre, sobre um livro antigo
como quinhentas translações astrais,
a tua imagem, na inscrição, no abrigo
do espírito em seus signos iniciais.
Que eu saiba o que diria o velho mundo
deste milagre que é a tua forma;
se te viram melhor, se me confundo,
se as translações seguem a mesma norma.
Mas disto estou seguro: antigos textos
louvaram mais com bem menores pretextos.


William Shakespeare, in "Sonetos"
Tradução de Carlos de Oliveira

Os tempos mudam e a arte tem de acompanhar as mudanças. Criar obras que tragam algo de novo é o grande desafio de qualquer artista. Uns depressa encontram o caminho, os meios e os processos que os identificam e os valorizam; os restantes andam por aí em busca do mesmo que todos conhecem e na repetição do já visto. O drama maior é o desencontro com o tempo, que, como se sabe, acontece em todo o lado, com muita gente. Infelizmente.

Estes desenhos são registos prévios de buscas por novas ideias. Ideias que devem ser sempre originais e geradoras de outros caminhos, no entanto, a descoberta nem sempre acontece. Aqui o importante é o prazer de ver nascer formas. A arte é um prazer embora a sua criação seja sempre um parto doloroso. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música electrónica que não me deixa saudades nenhumas…

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Encontro de amigos



Os Amigos
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"


Os amigos servem para alguma coisa: conversar e desconversar; companhia e camaradagem. É em momentos de afecto que se juntam para comungar desejos e comemorações. Perto ou longe, com as diferenças entre uns e outros, a amizade é um valor que tanto pode ser enorme, como precária, todavia, mal dos que não têm ninguém a quem ouvir a voz. E acontece muito.Com muita gente.


Esta tela, de grandes dimensões, é um encontro de amigos tendo por fundo uma paisagem campestre. Nuns tons térreos e verdejantes, com diferentes planos (para criar a ilusão da profundidade) procurei transmitir serenidade e acalmia. Como sempre houve muita luta e muita procura, quer na escolha das personagens no enquadramento, quer na colocação das cores nos diferentes espaços. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de José Afonso e a poesia de Luís de Camões: “Verdes são os campos”.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A nossa casa



A nossa casa é…a nossa casa. É o nosso último refúgio. É o último sítio que nos resta quando não há outro para ir ou estar. É, para muitos, o altar dos prazeres. Aqui se encontra o sossego, a identidade e,talvez, os que mais amamos. O Céu, afinal, pode ser na Terra, quando um Homem quiser.

Esta tela de grandes dimensões, feita nos finais dos anos 90, procurou ser, na linha da pintura de costumes, como Chardin, por exemplo, um retrato de um espaço privado onde tudo fala no mais profundo silêncio, ou como Vermeer que em ambientes cheios de luz e muita sombra encanta com tanta beleza estética.

Utilizando um único ponto de fuga e procurando criar um espaço profundo, cheio de objectos definidores de um tempo, de um gosto e de modo de estar e sentir, com a cores contrastantes em diferentes ambientes abertos e fechados, esta minha pintura foi realizada após um apurado exercício prévio de escolhas cromáticas, e de desenhos dos elementos da composição. História da Minha Pintura.

Recordo, de novo, hoje as palavras de Edward Coke:

“A casa de um homem é o seu castelo.”

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Cenas conjugais



Cada instante tem a sua história, o seu episódio, o seu momento banal ou inesquecível. É este deambular entre certezas e descobertas que fazemos o nosso dia-a-dia. Com muita ou nenhuma censura, andamos por aí como todos os outros, da mesma tribo, ou, em oposição, contestamos de vez em quando, ou quase sempre, ou mesmo sempre quando nos tornamos radicais. Coisas do presente, que já foram do passado, e, serão, certamente, do futuro em todo o lado, com todas as gerações. Pois claro.

Esta tela é um retrato do viver a dois que tem, naturalmente, o seu lado bom, e, como não poderia deixar de ser - o seu lado mau. Ceder é sempre uma tempestade, nem que seja num copo de água. Viver a dois é comungar ideias, objectivos, princípios e valores. O problema é quando cada um busca fins diferentes. Coisas de sempre. Hoje tão comuns. É a vida. De todos nós. Para o melhor e o pior.
Esta minha pintura é de grandes dimensões e foi pintada nos finais dos anos 90. Pretendia fazer um retrato intimista de um espaço privado com a identificação de um modo de vida, em que os desejos e sonhos de uns e outros aparecessem num jogo de posturas. Cores fortes, perspectiva e escalas foram determinantes para a realização deste trabalho. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Ambrose Bierce, in “Dicionário do diabo”:

“Intimidade: uma relação entre dois tolos, providencialmente atraídos para a sua mútua destruição.”