sexta-feira, 23 de abril de 2010

Encontro de amigos



Os Amigos
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"


Os amigos servem para alguma coisa: conversar e desconversar; companhia e camaradagem. É em momentos de afecto que se juntam para comungar desejos e comemorações. Perto ou longe, com as diferenças entre uns e outros, a amizade é um valor que tanto pode ser enorme, como precária, todavia, mal dos que não têm ninguém a quem ouvir a voz. E acontece muito.Com muita gente.


Esta tela, de grandes dimensões, é um encontro de amigos tendo por fundo uma paisagem campestre. Nuns tons térreos e verdejantes, com diferentes planos (para criar a ilusão da profundidade) procurei transmitir serenidade e acalmia. Como sempre houve muita luta e muita procura, quer na escolha das personagens no enquadramento, quer na colocação das cores nos diferentes espaços. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de José Afonso e a poesia de Luís de Camões: “Verdes são os campos”.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A nossa casa



A nossa casa é…a nossa casa. É o nosso último refúgio. É o último sítio que nos resta quando não há outro para ir ou estar. É, para muitos, o altar dos prazeres. Aqui se encontra o sossego, a identidade e,talvez, os que mais amamos. O Céu, afinal, pode ser na Terra, quando um Homem quiser.

Esta tela de grandes dimensões, feita nos finais dos anos 90, procurou ser, na linha da pintura de costumes, como Chardin, por exemplo, um retrato de um espaço privado onde tudo fala no mais profundo silêncio, ou como Vermeer que em ambientes cheios de luz e muita sombra encanta com tanta beleza estética.

Utilizando um único ponto de fuga e procurando criar um espaço profundo, cheio de objectos definidores de um tempo, de um gosto e de modo de estar e sentir, com a cores contrastantes em diferentes ambientes abertos e fechados, esta minha pintura foi realizada após um apurado exercício prévio de escolhas cromáticas, e de desenhos dos elementos da composição. História da Minha Pintura.

Recordo, de novo, hoje as palavras de Edward Coke:

“A casa de um homem é o seu castelo.”

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Cenas conjugais



Cada instante tem a sua história, o seu episódio, o seu momento banal ou inesquecível. É este deambular entre certezas e descobertas que fazemos o nosso dia-a-dia. Com muita ou nenhuma censura, andamos por aí como todos os outros, da mesma tribo, ou, em oposição, contestamos de vez em quando, ou quase sempre, ou mesmo sempre quando nos tornamos radicais. Coisas do presente, que já foram do passado, e, serão, certamente, do futuro em todo o lado, com todas as gerações. Pois claro.

Esta tela é um retrato do viver a dois que tem, naturalmente, o seu lado bom, e, como não poderia deixar de ser - o seu lado mau. Ceder é sempre uma tempestade, nem que seja num copo de água. Viver a dois é comungar ideias, objectivos, princípios e valores. O problema é quando cada um busca fins diferentes. Coisas de sempre. Hoje tão comuns. É a vida. De todos nós. Para o melhor e o pior.
Esta minha pintura é de grandes dimensões e foi pintada nos finais dos anos 90. Pretendia fazer um retrato intimista de um espaço privado com a identificação de um modo de vida, em que os desejos e sonhos de uns e outros aparecessem num jogo de posturas. Cores fortes, perspectiva e escalas foram determinantes para a realização deste trabalho. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Ambrose Bierce, in “Dicionário do diabo”:

“Intimidade: uma relação entre dois tolos, providencialmente atraídos para a sua mútua destruição.”

terça-feira, 20 de abril de 2010

Segredos...da minha pintura



É quase sempre igual com toda a gente. Falta o quase. O quase significa o tal segredo. O segredo da feitura da(s) pintura(s). Um dos meus processos consiste em analisar, dias a fio, o último trabalho para descobrir o que não me agrada. E, quando não me agrada, só resta ir retocando e retocando. E, assim, de tantas mudanças, tudo pode ficar diferente, ou até, numa solução extrema, a destruição da obra. Nunca tenho pressa. Quando está, está. Acabada a obra, entenda-se. Não vale a pena andar a correr. A pintura é sempre um parto muito doloroso, mas eternamente desejado.

Esta pintura é mais um dos retratos que ainda está longe da sua conclusão. Falta tanto. O que ontem parecia finalizado, hoje não. Falta alma e consistência. Falta mais rigor na pincelada. Falta melhor definição das sombras. Falta, afinal, gostar de olhar e ter prazer na contemplação. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Soren Kierkegaard:

“Não há nada em que paire tanta sedução e maldição como num segredo.”

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Como uma criança



Como uma Criança

Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.

Alberto Caeiro, in "Fragmentos"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Esta tela, pintada nos anos 80, é uma viagem pela infância, com as recordações felizes de um mundo circunscrito aos seus, e à ternura familiar de um aconchegado meio pré-citadino. A representação de toscas formas dos equipamentos e do espaço procuram ilustrar a visão rudimentar de um modo de vida. Espelhos e objectos contribuem para criar uma atmosfera de interrogações. As cores fortes e complementares associadas ao desenho grotesco formam a unidade pictórica. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a voz de Barbara Bonney e uma ária da ópera de Mozart: Le Nozze di Figaro.”


domingo, 18 de abril de 2010

Inacabados






São tantos, tantos mesmo os trabalhos que ficaram pelo caminho. Não foram concluídos e já não o serão. Outros interesses, outros modos de olhar a realidade e outras opções fizeram e, farão sempre, com que obras iniciadas nunca venham a ser concluídas. Apesar do tempo consumido, das despesas com os materiais (sempre caríssimos), é preciso dizer não e seguir em frente. É o que faço muitas vezes.

Estas telas não foram concluídas porque considerei, na altura, não merecedoras de finalização pela repetição sistemática dos temas, formas, perspectivas, luzes e sombras. Tudo me parecia de pouco interesse, e por isso não continuei, o que não signifique que, um dia, não volte a olhar com outros olhos, e a concluir uma obra parada no tempo. É assim que eu trabalho. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Jules Poincaré:

“A mente usa a sua faculdade de criatividade apenas quando a experiência a obriga a fazê-lo.”

sábado, 17 de abril de 2010

A importância dos objectos 2





O valor é um conceito subjectivo. O muito e o pouco também. E porque funcionamos com interesses e objectivos díspares, o que é bom para uns, não o é para muitos outros. Vive-se e morre-se com mesquinhos jogos de posse deste ou daquele bem. Bem que é importante quando consideramos de muito valor, quer pela urgência do seu uso e devaneio, quer pela simbologia ou encanto. E porque somos o que somos, tudo tem o seu valor que é muito ou pouco, porque cada cabeça sua sentença.

Um objecto tem um historial que nos aproxima ou afasta. E porque vivemos num mundo industrializado as peças únicas são tão raras e ganham importância pela sua singularidade, no entanto, também os mais banais objectos valem ouro, como sejam a chave da porta de casa ou do carro, o telemóvel, a carteira, a fotografia de um familiar querido, ou a prenda recebida num contexto memorável adquirem uma importância insofismável, quer pela sua utilidade no momento, quer pela sensibilidade de cada um.

O meu ateliê está repleto de objectos que valem o que valem. É as cores, é as formas, é a sua história, é a sua utilidade. É tudo, em suma, o que me faz gostar, ou não, desta ou daquela peça. Como toda a gente.

Recordo hoje as palavras de Carlo Goldoni:

“Discutir gostos é tempo perdido; não é belo o que é belo, mas aquilo que agrada.”