sábado, 17 de abril de 2010

A importância dos objectos










Cada um faz o que quer da vida, se os contextos sociais o permitirem. E das muitas opções pelos caminhos errantes em busca do elixir da felicidade, encontramos (os que encontram) prazer com pequenos objectos, independentemente do seu valor pecuniário. O valor das coisas é sempre relativo. Para uns é simbólico, para outros, apenas uma mercadoria. E é neste jogo de tantas sensibilidades que se faz a caminhada à procura dos encantos que nos elevam, ou, nos transformam em seres insensíveis e desprezíveis. Coisas dos Homens.

A minha pintura é uma viagem por tudo o que me rodeia. Ao optar pela representação figurativa quero mostrar aos outros como vejo o mundo, com as maravilhas dos pequenos momentos, ou, com a indiferença dos grandes actos. Estas pequenas telas ilustram cenários onde cada elemento tem o seu espaço que é, também ele, um comunicador.

Estas duas pinturas são muito diferentes na concepção. O “Zé Povinho” foi feito observando o objecto, enquanto a tela da cena campestre foi criada pela imaginação e pelo desejo de representar espaços fazendo uso da perspectiva. História da Minha Pintura.

Recordo hoje palavras extraídas de Textos Judaicos do “Pensamento Rabínico”:

“As obras, se não são inspiradas não são duradouras.”

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Lar, doce lar



Regresso ao Lar
Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago de amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!

Guerra Junqueiro, in 'Os Simples'

Esta tela, dos anos 90, é mais um retrato de momentos tão usuais e iguais, um pouco por todo o lado, nas nossas casas, nos dias de hoje. A televisão é o meio que junta pessoas e as faz comungar espaços e interesses. Aqui a ilustração do contexto resume-se ao essencial que, bem vistas as coisas, é, por contraste, muito e pouco. O muito e o pouco é ter alguém que nos sirva de companhia para os bons e os maus momentos. O resto não interessa para a história que é, como se sabe, a banalização do viver.

Cores quentes e desenho sintético procuram acentuar, com uma perspectiva simples, um espaço de luzes e sombras, numa pincelada rápida. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Léo Delibes e a ópera Lakmé”.


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Baile



Foram tantas as vezes que vivi vendo e saboreando a música e os dançantes. Perdi a conta a tantos bailes, a tantos episódios onde os sons e a agitação dos corpos rodopiavam em consonância com o espírito das festas. E dessas memórias ficaram ilustrações díspares: ambientes formais ou não; protocolos de curta duração; encontros e desencontros; conversas do faz-de-conta. Outros tempos. Outras músicas. Outras gentes.

Esta tela é um jogo de cores e formas. Muitos elementos e tonalidades múltiplas procuram captar a ambiência de um espaço fechado, que se abre ao exterior, e que nos dá um retrato das diferentes posturas de um momento de devaneio, que nasce da música situada fora de portas, num contexto desencontrado.

Esta pintura da fase “boteriana” caracterizada por exageros formais, cores fortes e rapidez na execução temática procura captar a essência do sentir de momentos, onde a perspectiva visa acentuar a profundidade e preencher o espaço com uma multiplicidade de elementos. História da Minha Pintura.

E trago hoje a música que enche os corações:
“Valsa da Meia Noite”.



quarta-feira, 14 de abril de 2010

A loja



Falas de Civilização, e de não Dever Ser

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Esta minha pintura em tela é um retrato de uma rua com casas e lojas definidoras de um tempo e de um modo de vida. Bem ou mal é como vivemos. Comunicamos quando comunicamos; estamos sós ou acompanhados; trabalhamos ou nada fazemos. Todos os dias é a sina de cada um com muita ou pouca liberdade; com prazer ou sem ele; com esperança em melhores dias, ou não. É assim em todo o lado.

Utilizei régua e esquadro e fiz estudos de cor prévios para combinar as tonalidades complementares. A perspectiva procura dar uma noção do espaço onde, as personagens se destacam pela pose e pelo jogo de luz e sombra . História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Gerswin e“Sommertime” da ópera “Porgy and Best”


terça-feira, 13 de abril de 2010

Instantes



Vivemos numa época em que corremos daqui para ali, hoje, amanhã e depois. E sempre sem tempo para fazer o que gostamos. Os dias passam, a vida também, e fica a sensação que falta qualquer coisa, porque não houve tempo para saborear os bons momentos, ou pior ainda, porque não soubemos viver a gosto. E tudo, tudo passa num instante. Num instante. Num instante.

Esta tela é mais um dos muitos retratos que fazem parte da minha galeria, feita a partir de gente da minha roda de amigos, e que me serviram (em diferentes momentos) de modelos. A pose, o olhar e o vestido definem um modo de estar num instante de vida que, como todos os instantes, marcam ou não as nossas memórias e os nossos encantos ou a falta deles.

Esta minha pintura foi executada num ápice porque é mais um trabalho de estudo para outros projectos. Pincéis grossos e uma paleta reduzida caracterizam este trabalho. História da Minha Pintura.

Recordo hoje, de novo, as palavras de Henry Miller:

“Cada momento é de ouro se o soubermos reconhecer como tal.”

E vos deixo com a música de Verdi, as vozes de Callas e de Giuseppe di Stefano e “Libiamo” da ópera "La Traviata".


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Modos de estar e sentir



É mesmo assim. Andamos por aí com alegria e prazer dos dias ou, com a indiferença dos momentos, e da própria vida. O dinheiro não faz tudo, mas a falta dele faz muito. É neste jogo de ter e não ter, de saber e não saber, que os dias passam; para uns é mais do mesmo e, para outros, é o desejo de concretizar sonhos e ambições. Modos de estar é o nome certo, para o nosso andar por aí. É mesmo assim. Podem crer.

Esta tela é um duplo retrato do andar por aí. Com crenças ou sem elas andamos bem ou mal, acreditando ou desacreditando. Andamos, iguais aos outros nas vestes e até nos modos de estar, embora pensando e sentindo por oposição, mas não fazendo ouvir a nossa voz. É mesmo assim. Na nossa terra. Aqui. Hoje.

Porque gosto de retratar, esta minha pintura, é a representação de pessoas que têm presença, sentido de estar e contemporaneidade. Utilizei poucas cores e o espaço é meramente simbólico, para realçar a significancia da presença humana. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Henry Miller:

“Viver os seus desejos, esgotá-los na vida, é o destino de toda a existência.”

domingo, 11 de abril de 2010

Casas



Na Casa Defronte


Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não sou eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.

Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.

Nada! Não sei...
Um nada que dói...


Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Esta pequena tela, feita em tempos idos, é um estudo do espaço, da luz, da sombra e das cores. Quando quero ir por outros caminhos faço exercícios de cor e de enquadramento para, antecipadamente, antever trabalhos de outra escala. Aqui a temática é a do costume: cenário intimista com a figuração usual. O objectivo foi essencialmente combinar tonalidades e ver os contrastes. História da Minha Pintura.


E vos deixo com a música de Brahms.