quarta-feira, 14 de abril de 2010

A loja



Falas de Civilização, e de não Dever Ser

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Esta minha pintura em tela é um retrato de uma rua com casas e lojas definidoras de um tempo e de um modo de vida. Bem ou mal é como vivemos. Comunicamos quando comunicamos; estamos sós ou acompanhados; trabalhamos ou nada fazemos. Todos os dias é a sina de cada um com muita ou pouca liberdade; com prazer ou sem ele; com esperança em melhores dias, ou não. É assim em todo o lado.

Utilizei régua e esquadro e fiz estudos de cor prévios para combinar as tonalidades complementares. A perspectiva procura dar uma noção do espaço onde, as personagens se destacam pela pose e pelo jogo de luz e sombra . História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Gerswin e“Sommertime” da ópera “Porgy and Best”


terça-feira, 13 de abril de 2010

Instantes



Vivemos numa época em que corremos daqui para ali, hoje, amanhã e depois. E sempre sem tempo para fazer o que gostamos. Os dias passam, a vida também, e fica a sensação que falta qualquer coisa, porque não houve tempo para saborear os bons momentos, ou pior ainda, porque não soubemos viver a gosto. E tudo, tudo passa num instante. Num instante. Num instante.

Esta tela é mais um dos muitos retratos que fazem parte da minha galeria, feita a partir de gente da minha roda de amigos, e que me serviram (em diferentes momentos) de modelos. A pose, o olhar e o vestido definem um modo de estar num instante de vida que, como todos os instantes, marcam ou não as nossas memórias e os nossos encantos ou a falta deles.

Esta minha pintura foi executada num ápice porque é mais um trabalho de estudo para outros projectos. Pincéis grossos e uma paleta reduzida caracterizam este trabalho. História da Minha Pintura.

Recordo hoje, de novo, as palavras de Henry Miller:

“Cada momento é de ouro se o soubermos reconhecer como tal.”

E vos deixo com a música de Verdi, as vozes de Callas e de Giuseppe di Stefano e “Libiamo” da ópera "La Traviata".


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Modos de estar e sentir



É mesmo assim. Andamos por aí com alegria e prazer dos dias ou, com a indiferença dos momentos, e da própria vida. O dinheiro não faz tudo, mas a falta dele faz muito. É neste jogo de ter e não ter, de saber e não saber, que os dias passam; para uns é mais do mesmo e, para outros, é o desejo de concretizar sonhos e ambições. Modos de estar é o nome certo, para o nosso andar por aí. É mesmo assim. Podem crer.

Esta tela é um duplo retrato do andar por aí. Com crenças ou sem elas andamos bem ou mal, acreditando ou desacreditando. Andamos, iguais aos outros nas vestes e até nos modos de estar, embora pensando e sentindo por oposição, mas não fazendo ouvir a nossa voz. É mesmo assim. Na nossa terra. Aqui. Hoje.

Porque gosto de retratar, esta minha pintura, é a representação de pessoas que têm presença, sentido de estar e contemporaneidade. Utilizei poucas cores e o espaço é meramente simbólico, para realçar a significancia da presença humana. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Henry Miller:

“Viver os seus desejos, esgotá-los na vida, é o destino de toda a existência.”

domingo, 11 de abril de 2010

Casas



Na Casa Defronte


Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não sou eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.

Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.

Nada! Não sei...
Um nada que dói...


Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Esta pequena tela, feita em tempos idos, é um estudo do espaço, da luz, da sombra e das cores. Quando quero ir por outros caminhos faço exercícios de cor e de enquadramento para, antecipadamente, antever trabalhos de outra escala. Aqui a temática é a do costume: cenário intimista com a figuração usual. O objectivo foi essencialmente combinar tonalidades e ver os contrastes. História da Minha Pintura.


E vos deixo com a música de Brahms.

sábado, 10 de abril de 2010

Dorme



Dorme Enquanto Eu Velo...

Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


Esta tela procura retratar, num ambiente pouco propício, um momento de repouso. Aqui o dormitar está presente e é o limbo entre o estar e não estar consciente da envolvência, que é tão comum em muitos de nós, mesmo muito acordados

Paleta parca em cores e tonalidades, numa predominância da horizontalidade formal definem esta minha pintura onde se destaca quase cada pincelada. História da Minha Pintura.

E vos deixo com Handel e “Sarabande”.


quinta-feira, 8 de abril de 2010

Dormitando



Recordo hoje as palavras de Fernando Pessoa, in "Cancioneiro".

Dorme, que a Vida é Nada!

Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos
Tecem docéis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.


Esta pintura em tela, 70x100 cm é o meu último trabalho que sofre o mal de muitas das minhas obras: nunca estão acabadas porque sou como o Bonnard - este, mesmo nos museus, à sucapa dos vigilantes, repintava as suas telas -, eu pinto e repinto sempre que não gosto e, pouco a pouco, as tonalidades ficam diferentes, com tantas mudanças. Aqui, neste meu trabalho, tenho consciência que ainda não está tudo como quero. Vou parar de novo e, um dia destes, em breve ou não, dou mais uns retoques. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Beethoven e Fur elise”.