sábado, 10 de abril de 2010

Dorme



Dorme Enquanto Eu Velo...

Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


Esta tela procura retratar, num ambiente pouco propício, um momento de repouso. Aqui o dormitar está presente e é o limbo entre o estar e não estar consciente da envolvência, que é tão comum em muitos de nós, mesmo muito acordados

Paleta parca em cores e tonalidades, numa predominância da horizontalidade formal definem esta minha pintura onde se destaca quase cada pincelada. História da Minha Pintura.

E vos deixo com Handel e “Sarabande”.


quinta-feira, 8 de abril de 2010

Dormitando



Recordo hoje as palavras de Fernando Pessoa, in "Cancioneiro".

Dorme, que a Vida é Nada!

Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos
Tecem docéis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.


Esta pintura em tela, 70x100 cm é o meu último trabalho que sofre o mal de muitas das minhas obras: nunca estão acabadas porque sou como o Bonnard - este, mesmo nos museus, à sucapa dos vigilantes, repintava as suas telas -, eu pinto e repinto sempre que não gosto e, pouco a pouco, as tonalidades ficam diferentes, com tantas mudanças. Aqui, neste meu trabalho, tenho consciência que ainda não está tudo como quero. Vou parar de novo e, um dia destes, em breve ou não, dou mais uns retoques. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Beethoven e Fur elise”.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dormir e sonhar



Fernando Pessoa encanta-me com a sua poesia que está sempre tão presente quanto pinto e escrevo. Recordo hoje mais um dos seus poemas extraído do “Cancioneiro”:

Durmo. Se Sonho, ao Despertar não Sei

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.



Esta minha pintura é a temática do presente. Trabalho por fases e, neste momento, interessa-me retratar o dormir e a privacidade inerente ao acto em si. Aqui, o modelo numa postura descontraída e num contexto intimista, com cores suaves e aconchegantes, servem os meus propósitos de representação. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música de Frederic Chopin e “Nocturno in E Flat Maior, Op. ) Nº 2”.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Cenário idílico



Viajamos tanto em busca de novas miragens. Percorremos meio mundo e outro tanto para ver, somente ver, por instantes, este ou aquele monumento, esta ou aquela obra, este ou aquele espectáculo, esta ou aquela praia. E de tanto andar, em busca dos prazeres, nem sabemos saborear o que os olhos captam tão perto de nós, porque o que queremos mesmo é descobrir os cenários idílicos fora de portas, porque a galinha da vizinha é melhor que a minha. E mais não digo.

Esta minha pintura é um olhar com olhos de ver. A paisagem verdejante é um convite ao convívio pela contemplação da natureza. Mais uma vez coloquei objectos que transformam uma mera vista panorâmica, num outro enquadramento temático, com a presença da cadeira vazia e do brinquedo perdido. O verde domina a tela com os vários tons para ajudar a criar ilusoriamente a profundidade. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Johann Goethe, in “Pensamentos”:

“A natureza reservou para si tanta liberdade que não a podemos nunca penetrar completamente com o nosso saber e a nossa ciência.”

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Bilhete Postal



Recordo hoje as palavras de Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas":


Uma Cidade

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito.
Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.



Esta minha pintura, sobre tela de 2001, é um retrato postal da cidade do Porto, que tem o encanto deste povo e desta gente, com o melhor e o menos bom de todos nós. Num cromatismo próximo do granítico citadino tentei representar uma panorâmica das vistas e do sentir popular. História da Minha Pintura.


E vos deixo com a voz de Fritz Wunderlich

domingo, 4 de abril de 2010

A minha religião




A Minha Religião é o Novo

"A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol,
estas invenções habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante único.
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto."

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

E vos deixo com a voz de Callas, nesta quadra, que comunga a religiosidade e o sentido da vida.