quarta-feira, 31 de março de 2010

Contemplar



Contemplar é olhar fruindo as imagens que os olhos captam e a mente saboreia. E porque é necessário ter prazer nos pequenos momentos, um pouco por todo o lado, é preciso saber como passar o tempo nos diferentes contextos. E se formos capazes, tudo parece diferente, sendo tudo igual. Afinal, somos nós, individualmente, que definimos o bom e o mau, o bonito e o feio. Não tenhamos dúvidas.

Esta tela, de grandes dimensões, é um retrato onde está presente o olhar e talvez a contemplação. A pose procura indiciar momentos de pausa, de serenidade, de saber estar usufruindo e tirando partido da observação. Procuro sempre, quando retrato alguém, captar modos e atitudes comportamentais que definam quem é quem. Aqui, as cores são dominadas pela presença dos contrastes, onde o negro se opõe ao jogo das luzes dos cinzas. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Alexandre Dumas:

“Quis Deus que a única coisa que não se possa disfarçar seja o olhar do homem.”

segunda-feira, 29 de março de 2010

Lembranças












As nossas lembranças são apenas um pequeno registo daquilo que fizemos. Lembramo-nos do que nos marcou, e da importância que determinados acontecimentos afectaram o nosso viver. Todo o resto é esquecimento. Importante mesmo é recordar as boas acções, os momentos de afecto, as alegrias que as emoções nos provocaram, os sucessos e também – inquestionável -, nunca esquecer o que nunca deveríamos ter feito. O resto é insignificante.

Significante para um artista é mostrar o seu trabalho e daí tirar as suas conclusões. Se, porventura, houver aceitação e reconhecimento tudo bem; se, pelo contrário, tudo for em vão, então, nada está bem. Tantas horas, tanta canseira e, nenhum reconhecimento é o cúmulo do desencanto. E acontece muito. Quase sempre.

Estas fotografias são registos de panorâmicas de uma exposição de aguarelas que realizei, em tempos idos, no Porto. Aqui fica a memória ilustrada do evento que hoje recordo com saudade. História da Minha Pintura.

E trago hoje as palavras de Jacques Bossuet:

“A recordação é activa. Não é um objecto perdido que se encontrou. Ela faz crescer a massa do presente e do futuro.”

sábado, 27 de março de 2010

Olhar a paisagem



É o nosso desejo de liberdade; de não estar contido num espaço fechado; de encontrar pelo desejo o maravilhoso e o fantástico; de descobrir qualquer coisa; de fruir a natureza e aquilo que o Homem construiu. É tudo isto e muito mais o que buscamos quando olhamos para o exterior. E sem esperar nada de novo, não resistimos e olhamos e voltamos a olhar e olharemos sempre, sempre. Sempre.

Esta tela de pequenas dimensões é um daqueles trabalhos que nasceram pelo desejo de representar um acto tão banal e, no entanto, tão necessário: ver o céu e descobrir se o tempo trará chuva ou sol; calor ou frio; vento ou nevoeiro; trovoada ou seca. É o olhar para definir um comportamento e um modo de estar e traçar tarefas e desafios para o dia-a-dia que esta minha pintura mostra. Em simultâneo, o interior abre-se e expõe-se ao que se passa fora de portas. Pensando bem, um pintor quer falar do mundo e de tudo o que vive e o rodeia. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Hugo Hofmannsthal:

“Uma hora de contemplação é melhor que um ano de devoção.”

sexta-feira, 26 de março de 2010

Cenários (im)possíveis



Tudo é possível. Ninguém, mas mesmo ninguém comanda o seu destino. A todo o instante podem ocorrer cenários julgados improváveis e mirabolantes. A incerteza do dia-a-dia é a única certeza, o resto são meras probabilidades. Assim sendo vale tudo, porque tudo (ou quase tudo) é possível. A natureza, os pequenos homens, e tantas outras coisas podem levar-nos a viver e a comungar princípios e normas, que não fazem parte dos nossos valores, mas que, a necessidade a isso obriga. Infelizmente.

Esta tela, perdida no meu acervo e encontrada por mero acaso, é um daqueles trabalhos que fiz num passado distante e que procura retratar um cenário desencontrado onde, aparentemente, nada corresponde ao expectável. Gente que dorme sem tecto; cenas surrealistas da vida com as desgraças e os finais felizes ou não; sonhos e angústias imaginados fazem parte desta nossa caminhada.

Com uma pincelada sem grandes cuidados e num desenho grotesco e simplificado, esta minha pintura é um jogo onde as cores e as formas procuram com luz e sombra criar um impacto visual forte. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Blaise Pascal:

“A imaginação tem todos os poderes: ela faz a beleza, a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes do mundo.”


E vos deixo com a música de Villa Lobos em Bachiana nº5 e a voz de Amel Brahim

quinta-feira, 25 de março de 2010

Fragmentos



Acontece a todos. Lembramo-nos de episódios, mas apenas de fragmentos. Falta-nos o encadeamento com as situações todas. O que nos fica, com o passar do tempo, são pedaços de momentos vividos. E é dessas recordações que fazemos a nossa história. História de dias felizes, e outros nem tanto. Pois claro.

Esta pequena tela é mais um olhar pelos fragmentos das histórias e dos momentos. E bastam pequenos pedaços para avivar o bom e o mau desta caminhada de muitas dúvidas e poucas certezas, onde o espelho da vida é uma imagem distorcida dos sentimentos expressos.

Esta minha pintura em tons quentes, numa mescla de castanhos e ocres, procura caracterizar um espaço, em que a representação dos elementos se faz através das texturas, cores, sombras e luzes. Cada pedaço é uma parte do todo, num enquadramento onde linhas oblíquas geram movimentos aparentes. História da Minha Pintura.

Recordo as palavras de Agustina Bessa-Luís:

“Nada se aprende das recordações; são um manjar frio que só os gulosos devoram.”