sábado, 27 de março de 2010

Olhar a paisagem



É o nosso desejo de liberdade; de não estar contido num espaço fechado; de encontrar pelo desejo o maravilhoso e o fantástico; de descobrir qualquer coisa; de fruir a natureza e aquilo que o Homem construiu. É tudo isto e muito mais o que buscamos quando olhamos para o exterior. E sem esperar nada de novo, não resistimos e olhamos e voltamos a olhar e olharemos sempre, sempre. Sempre.

Esta tela de pequenas dimensões é um daqueles trabalhos que nasceram pelo desejo de representar um acto tão banal e, no entanto, tão necessário: ver o céu e descobrir se o tempo trará chuva ou sol; calor ou frio; vento ou nevoeiro; trovoada ou seca. É o olhar para definir um comportamento e um modo de estar e traçar tarefas e desafios para o dia-a-dia que esta minha pintura mostra. Em simultâneo, o interior abre-se e expõe-se ao que se passa fora de portas. Pensando bem, um pintor quer falar do mundo e de tudo o que vive e o rodeia. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Hugo Hofmannsthal:

“Uma hora de contemplação é melhor que um ano de devoção.”

sexta-feira, 26 de março de 2010

Cenários (im)possíveis



Tudo é possível. Ninguém, mas mesmo ninguém comanda o seu destino. A todo o instante podem ocorrer cenários julgados improváveis e mirabolantes. A incerteza do dia-a-dia é a única certeza, o resto são meras probabilidades. Assim sendo vale tudo, porque tudo (ou quase tudo) é possível. A natureza, os pequenos homens, e tantas outras coisas podem levar-nos a viver e a comungar princípios e normas, que não fazem parte dos nossos valores, mas que, a necessidade a isso obriga. Infelizmente.

Esta tela, perdida no meu acervo e encontrada por mero acaso, é um daqueles trabalhos que fiz num passado distante e que procura retratar um cenário desencontrado onde, aparentemente, nada corresponde ao expectável. Gente que dorme sem tecto; cenas surrealistas da vida com as desgraças e os finais felizes ou não; sonhos e angústias imaginados fazem parte desta nossa caminhada.

Com uma pincelada sem grandes cuidados e num desenho grotesco e simplificado, esta minha pintura é um jogo onde as cores e as formas procuram com luz e sombra criar um impacto visual forte. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Blaise Pascal:

“A imaginação tem todos os poderes: ela faz a beleza, a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes do mundo.”


E vos deixo com a música de Villa Lobos em Bachiana nº5 e a voz de Amel Brahim

quinta-feira, 25 de março de 2010

Fragmentos



Acontece a todos. Lembramo-nos de episódios, mas apenas de fragmentos. Falta-nos o encadeamento com as situações todas. O que nos fica, com o passar do tempo, são pedaços de momentos vividos. E é dessas recordações que fazemos a nossa história. História de dias felizes, e outros nem tanto. Pois claro.

Esta pequena tela é mais um olhar pelos fragmentos das histórias e dos momentos. E bastam pequenos pedaços para avivar o bom e o mau desta caminhada de muitas dúvidas e poucas certezas, onde o espelho da vida é uma imagem distorcida dos sentimentos expressos.

Esta minha pintura em tons quentes, numa mescla de castanhos e ocres, procura caracterizar um espaço, em que a representação dos elementos se faz através das texturas, cores, sombras e luzes. Cada pedaço é uma parte do todo, num enquadramento onde linhas oblíquas geram movimentos aparentes. História da Minha Pintura.

Recordo as palavras de Agustina Bessa-Luís:

“Nada se aprende das recordações; são um manjar frio que só os gulosos devoram.”

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ideias felizes









Às Vezes Tenho Ideias Felizes

"Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…

Depois de escrever, leio…
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com quem alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?..."


Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

É assim que tudo começa. Pego num lápis, caneta, qualquer coisa que escreva e começo a desenhar grotescamente. Não interessa o cuidado formal, porque em qualquer lado desenho. E desenho sentado, deitado ou até em pé. O que faço é apenas rascunhos para desenvolver ideias. Depois começo a estudar as formas, as cores, as luzes e as texturas. E pouco a pouco vejo nascer uma ideia feliz. É assim que trabalho. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a ópera de Puccini, a voz de Maria Callas e “Madame Butterfly”.



terça-feira, 23 de março de 2010

Prazeres



Não vou falar do cinema; não vou dizer nada sobre uma indústria que trouxe o fascínio e transformou a ficção num conto de fadas; nem vou falar de filmes, de actores, de histórias com ou sem escândalo, nem do mundo mítico que o cinema construiu. O que quero dizer é muito simples: adoro cinema. Adoro porque me faz transpor a realidade e descobrir outras identidades e outros modos de ver e sentir o mundo, independente dos contextos e dos tempos. É só isso que quero dizer. A maravilha dos sons, das temáticas, das luzes e das múltiplas vidas que já vivi merecem que diga alto e em bom som: adoro cinema.

Esta tela (feita em tempos longínquos) é uma visão, propositadamente distorcida, da ruralidade e do encanto que a imagem em movimento trouxe a todo o lado, e a toda a gente. Cores fortes e um desenho caricatural definem esta pintura que, com luzes e sombras, procura criar um ambiente de identidade perante a contemplação das imagens que o cinema nos dá. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Leonardo da Vinci:

“A mais nobre paixão humana é aquela que ama a imagem da beleza em vez da realidade material. O maior prazer está na contemplação.”


E vos deixo com música do filme “Titanic”.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Saber estar



É terrível. É o nosso tempo com a comunicação planetária que constrói e derruba tudo e todos. Até o mais imaculado num instante pode ser o próximo alvo. Ninguém está imune ao livre arbítrio da censura dos usos e costumes. Paciência. É preciso saber viver com o melhor que o progresso tecnológico nos dá e passar ao lado (se for possível) dos malefícios das novas tecnologias. Afinal, quem não quer ser lobo que não lhe vista a pele.

Esta tela é um retrato onde o sentido da pose, e do saber estar, se enquadra no contexto cultural que caracteriza este espaço e este tempo. O vestir e o comportamento fora de portas tem uma postura que é o resultado de séculos de guerras e de desejos conquistados. Hoje vivemos lutas civilizacionais onde aquilo que para uns é normalíssimo, para outros é uma blasfémia. Coisas dos tempos. Dos tempos desencontrados. Dos pensamentos errados.

Esta pintura procurou ser um jogo onde as cores e as formas formam um todo em que a representação do espaço se dilui na personagem. Os tons castanhos num fundo de brancos visam com as sombras, as texturas e as linhas oblíquas da composição, um olhar direccionado pela procura da comunicação e do sentido do saber estar. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de William Shakespeare:

“Os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são.”