quarta-feira, 24 de março de 2010

Ideias felizes









Às Vezes Tenho Ideias Felizes

"Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…

Depois de escrever, leio…
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com quem alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?..."


Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

É assim que tudo começa. Pego num lápis, caneta, qualquer coisa que escreva e começo a desenhar grotescamente. Não interessa o cuidado formal, porque em qualquer lado desenho. E desenho sentado, deitado ou até em pé. O que faço é apenas rascunhos para desenvolver ideias. Depois começo a estudar as formas, as cores, as luzes e as texturas. E pouco a pouco vejo nascer uma ideia feliz. É assim que trabalho. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a ópera de Puccini, a voz de Maria Callas e “Madame Butterfly”.



terça-feira, 23 de março de 2010

Prazeres



Não vou falar do cinema; não vou dizer nada sobre uma indústria que trouxe o fascínio e transformou a ficção num conto de fadas; nem vou falar de filmes, de actores, de histórias com ou sem escândalo, nem do mundo mítico que o cinema construiu. O que quero dizer é muito simples: adoro cinema. Adoro porque me faz transpor a realidade e descobrir outras identidades e outros modos de ver e sentir o mundo, independente dos contextos e dos tempos. É só isso que quero dizer. A maravilha dos sons, das temáticas, das luzes e das múltiplas vidas que já vivi merecem que diga alto e em bom som: adoro cinema.

Esta tela (feita em tempos longínquos) é uma visão, propositadamente distorcida, da ruralidade e do encanto que a imagem em movimento trouxe a todo o lado, e a toda a gente. Cores fortes e um desenho caricatural definem esta pintura que, com luzes e sombras, procura criar um ambiente de identidade perante a contemplação das imagens que o cinema nos dá. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Leonardo da Vinci:

“A mais nobre paixão humana é aquela que ama a imagem da beleza em vez da realidade material. O maior prazer está na contemplação.”


E vos deixo com música do filme “Titanic”.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Saber estar



É terrível. É o nosso tempo com a comunicação planetária que constrói e derruba tudo e todos. Até o mais imaculado num instante pode ser o próximo alvo. Ninguém está imune ao livre arbítrio da censura dos usos e costumes. Paciência. É preciso saber viver com o melhor que o progresso tecnológico nos dá e passar ao lado (se for possível) dos malefícios das novas tecnologias. Afinal, quem não quer ser lobo que não lhe vista a pele.

Esta tela é um retrato onde o sentido da pose, e do saber estar, se enquadra no contexto cultural que caracteriza este espaço e este tempo. O vestir e o comportamento fora de portas tem uma postura que é o resultado de séculos de guerras e de desejos conquistados. Hoje vivemos lutas civilizacionais onde aquilo que para uns é normalíssimo, para outros é uma blasfémia. Coisas dos tempos. Dos tempos desencontrados. Dos pensamentos errados.

Esta pintura procurou ser um jogo onde as cores e as formas formam um todo em que a representação do espaço se dilui na personagem. Os tons castanhos num fundo de brancos visam com as sombras, as texturas e as linhas oblíquas da composição, um olhar direccionado pela procura da comunicação e do sentido do saber estar. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de William Shakespeare:

“Os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são.”

domingo, 21 de março de 2010

Emoções fortes




Digam o que disserem, mas precisamos de emoções fortes. É preciso, de vez em quando, viver com sentimentos que nos transformam, nem que seja por breves instantes. A realidade é (quantas vezes) cruel e demoníaca e, para esquecer - o que queremos esquecer -, só nos resta fugir através de escapes emotivos. Uns refugiam-se em atitudes e comportamentos censuráveis pela violência e inconsciência dos actos; outros buscam a fruição de actividades desportivas, quer como praticantes, quer como fruidores, para obter os prazeres que só a emoção dos grandes momentos nos dá. É mesmo assim a nossa vida. Digam o que disserem.

Esta imagem concilia o desejo de voar pelos céus e conquistar o espaço. O caminho foi longo para descobrir os meios e os processos de andar por aí como os pássaros. Agora vamos em busca de outros planetas, de outros sistemas, de outras vidas. Como sempre com emoções fortes.

Esta aguarela é a forma que encontrei para explicar como é belo viajar por aí. Esta técnica (que descobri recentemente) dá-me uma liberdade de expressão pictórica que não sei explicar. Gosto de misturar tudo e assim obtenho resultados temáticos que na tela não gosto de explorar. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Edward Forster:

“As emoções são intermináveis. Quanto mais as exprimimos, mais maneira temos de as exprimir.”



E vos deixo com a voz de Luís Piçarra e uma das cantigas que me emociona até mais não.

sábado, 20 de março de 2010

Dias negros



Cada dia que passa é mais uma desgraça. Há sempre uma nova calamidade. É mais um imposto, é mais uma subida dos preços, é mais uma aldrabice politiqueira, é mais isto e mais aquilo. A esperança por melhores dias parece coisa do passado. O presente é, apenas, um deixa- andar sem crescimento e vontade de galgar etapas. É a negrura dos dias que comandam este nosso viver, onde o futuro parece incerto e cheio de injustiças. Que tristeza!

Esta tela (inacabada) procura retratar um ambiente onde a angústia dos dias comanda o viver. O negro do fundo, que preenche o espaço, ilustra um cenário de muitas dúvidas e poucas certezas, num rosto de olhar pesquisador em busca, talvez, de verdades. Contrariando a representação dos ambientes que pinto, aqui procurei, como sempre faço, novos caminhos. A noite e os jogos de luzes definem esta obra em que o rosto nos diz tudo, ou deveria. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Ovídio:

“De noite os defeitos se ocultam.”

E vos deixo com a música de Verdi e a ópera "La Traviata" e a voz de ANNA Netrebko.



sexta-feira, 19 de março de 2010

Dia do pai




Hoje é dia do pai e só consigo dizer:
- Tenho tantas saudades, tenho tantas saudades, tenho tantas saudades.

Esta tela é um olhar pelos afectos. A convivência faz com que haja relacionamentos distantes e muito íntimos e, destes, os laços de sangue pesam muito, não sendo tudo, mas contam bastante. Procurei aqui num exagero formal, quase caricatural, retratar duas personagens, onde o poder paternal é vincado e as poses atestam o relacionamento, regras de conduta, e de amizade.

Como acontece tanto, tenho períodos de grande produção pictórica e outros de paragem completa. Esta pintura foi feita num tempo de exaltação dos sentimentos e da vontade de muito fazer e depressa. Cores contrastantes e pinceladas rápidas definem este trabalho. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Jean Racine:
“Um pai quando castiga, minha senhora, é sempre pai."

E vos deixo com a música brasileira e “Cálice” com a voz de Chico Buarque de Hollanda e Milton Nascimento.



quinta-feira, 18 de março de 2010

Dias de sol


Faz sol. Apetece andar por aí. Apetece saborear a luz e contemplar a paisagem. É preciso, quando nos deixam, encontrar escapes e olhar com olhos de ver o que há de bom à nossa volta. E porque procuramos sempre, nada melhor que saber estar e viver, esquecendo, de propósito, tudo o que não gostamos, de ver nem ouvir, porque nas muitas lutas nem todos vencem, nem todos perdem. E há tanto sol para ver e tanta paisagem para contemplar.

Esta tela é um retrato dos passeios de Domingo onde se procura o descanso e a quebra obrigatória das rotinas. Um enquadramento onde a profundidade criada pela perspectiva e pelo jogo de cores definem esta minha pintura que, como todas as outras, é um livro aberto, onde as palavras deram lugar às formas e às diferentes tonalidades cromáticas. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Henri Amiel, in “Diário Íntimo”:

“Uma paisagem qualquer é um estado de alma.”